Cultura

Por que a região mais rica da Espanha quer independência

A Catalunha tem sua própria identidade cultural e um forte movimento separatista, apesar da repressão imposta por Madri.terça-feira, 5 de novembro de 2019

Tradicionais artistas do correfoc, ou “corrida do fogo”, se vestem como demônios e acendem fogos de artifício durante uma demonstração a favor da independência da Catalunha em setembro de 2017. O parlamento regional da Catalunha declarou independência no mês seguinte.
Tradicionais artistas do correfoc, ou “corrida do fogo”, se vestem como demônios e acendem fogos de artifício durante uma demonstração a favor da independência da Catalunha em setembro de 2017. O parlamento regional da Catalunha declarou independência no mês seguinte.

REGIÃO AUTÔNOMA no nordeste da Espanha, com sua própria identidade linguística e cultural, a Catalunha é um famoso destino turístico e uma potência econômica. Mas sua recente luta por independência indica que sua história é diferente do restante da Espanha.

A região onde hoje fica a Catalunha é habitada desde a pré-história, época em que imperava uma sociedade de tribos ibéricas lideradas por chefes. No século 6 a.C., chegaram os colonizadores gregos; por volta de 220 a.C., os romanos dominaram a região. O domínio romano trouxe avanços na agricultura e na infraestrutura, a língua latina prosperou e os romanos fundaram Barcino, que se tornou a maior cidade e atual capital da região, Barcelona. Tarraco (hoje conhecida como Tarragona) tornou-se uma das cidades mais ricas do Império Romano nesse período.

Com o colapso do Império Romano no século 5 d.C., a região ficou vulnerável a outros grupos: primeiro os visigodos, depois o Califado Omíada e, finalmente, o Império Franco, que conquistou Barcelona em 801 d.C. A região tornou-se parte da Marca Hispanica, uma zona de proteção que servia de barreira defensiva entre o Império Carolíngio de Carlos Magno e os mouros.

Com o tempo, as zonas fronteiriças do Império Carolíngio tornaram-se cada vez mais poderosas e distintas. A primeira referência à região da Catalunha foi feita no século 12. Na mesma época, a língua catalã foi registrada em forma escrita pela primeira vez. Na era medieval, a Catalunha tornou-se uma importante potência marítima pertencente à Coroa de Aragão e, quando Fernando I de Aragão se casou com a rainha Isabel de Castela em 1469, a Catalunha passou a fazer parte de uma Espanha unificada. Embora tenha mantido suas próprias instituições no início, a Catalunha acabou sendo despojada de sua independência e integrada mais plenamente ao estado espanhol. Isso alimentou um feroz movimento separatista catalão a partir do século 19.

Ao tornar-se uma república em 1931, a Espanha concedeu à Catalunha autonomia parcial. Porém, durante a Guerra Civil Espanhola, a Catalunha apoiou o lado perdedor e, depois disso, o general fascista Francisco Franco retirou novamente a autonomia da Catalunha, restringiu a língua catalã e reprimiu seus costumes.

Após a morte de Franco em 1975, a Catalunha recuperou grande parte de sua liberdade e, quatro anos depois, tornou-se uma região autônoma da Espanha com seu próprio parlamento, governo, bandeira e hino. A Catalunha rapidamente se tornou a região mais rica da Espanha — mas metade do imposto de renda e do imposto sobre valor agregado gerados na região, juntamente com uma porcentagem de alguns outros impostos, vai para o governo federal da Espanha.

Esse repasse de recursos é motivo de ressentimento para alguns catalães. Segundo a Reuters, a região paga US$ 12 bilhões a mais à Espanha do que recebe — o equivalente a 5% de sua produção econômica regional.

Após a crise da dívida pública da Espanha em 2008 e uma decisão judicial de 2010 que limitou a capacidade da região de se tornar uma nação independente, alastrou-se pela Catalunha um desejo renovado pela independência. Em 2014, 80% dos eleitores catalães votaram sim em um referendo informal sobre a independência. Três anos depois, 90% dos eleitores votaram sim em um segundo referendo, agora formal. Mas a Espanha insistiu que o referendo não havia ocorrido e, após uma violenta repressão policial, o Supremo Tribunal da Espanha considerou o ato ilegal.

Em atitude desafiadora, o parlamento regional da Catalunha declarou independência em outubro de 2017. A Espanha suspendeu a autonomia política da Catalunha e demitiu todo o gabinete catalão. Os partidos pró-independência conquistaram 47,8% dos votos e uma pequena maioria no parlamento regional nas novas eleições que se seguiram, e o domínio catalão foi restaurado quando o novo governo assumiu o poder em junho de 2018. Enquanto isso, 12 líderes separatistas foram presos e acusados de vários crimes contra a Espanha.

Em outubro, o Supremo Tribunal espanhol condenou nove deles a longas penas de prisão. Desde que o veredicto foi anunciado, manifestações em massa praticamente paralisaram Barcelona e outras cidades. Porém, embora Madri, até agora, tenha resistido aos apelos por um governo direto ou a uma repressão ainda mais violenta contra os manifestantes, as eleições nacionais que se aproximam — e a ameaça de outro referendo — podem mudar essa postura. O futuro da Catalunha nunca pareceu tão importante — ou tão incerto.

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