Celebre o mês do orgulho com 10 livros de viagens escritos por autores LGBTQIA+

De um despertar espiritual em uma caverna de gelo a uma aventura romântica pela Europa, essas fascinantes leituras focam em narrativas queer ao redor do mundo.

Tuesday, June 23, 2020,
Por Gillian Kendall
Bandeira arco-íris, representativa do movimento de orgulho LGBTQIA+, pendurada na prefeitura da cidade de Antuérpia, Bélgica, ...

Bandeira arco-íris, representativa do movimento de orgulho LGBTQIA+, pendurada na prefeitura da cidade de Antuérpia, Bélgica, em junho de 2013. Diversos livros de viagens, desde memórias revolucionárias até romances que percorrem o mundo, focam no ponto de vista de pessoas queer.

Foto de Guo Ping, Getty Images

O PRIMEIRO MÊS do Orgulho LGBTQIA+ ocorreu em 1970 nos Estados Unidos, com marchas e encontros públicos em Nova York, Chicago e outras cidades para comemorar o aniversário de um ano dos protestos de Stonewall, ponto crítico na luta pelos direitos LGBTQIA+. Cinquenta anos depois, em meio a uma pandemia, há outro momento importante para comemorar: em 15 de junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos proferiu a decisão histórica de que a legislação federal proíbe a discriminação contra trabalhadores LGBTQIA+.

A National Geographic cobre há anos questões relacionadas a gênero, identidade e inclusão. A nossa edição “A revolução do gênero” inclui um útil glossário com terminologia e conceitos de gênero (em inglês). Outra reportagem homenageia alguns heróis LGBTQIA+ — ativistas, artistas, doutores e doutoras, escritores e escritoras — que causaram impacto duradouro nas comunidades de todo o mundo. Além disso, uma edição de viagem incluiu uma matéria sobre os 10 melhores destinos celebrar o orgulho LGBTQIA+.

Devido às restrições impostas pela covid-19, festas e paradas arco-íris podem até ter sido adiadas, mas as comemorações virtuais do mês do Orgulho continuarão unindo a comunidade em espírito. No sábado (28/06), o National Geographic Brasil exibe uma programação especial a partir das 14h, com direito a uma parada virtual com fotos e vídeos enviados pelo nosso público. O evento virtual homenageia a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior do gênero no mundo.

Quer mais? Esses 10 livros de viagens escritos por autores e autoras LGBTQIA+ compartilham o que nos une e o que nos torna únicos, seja em uma viagem de carro cruzando o interior dos Estados Unidos ou em uma viagem de ônibus até a extremidade do mundo.

O Quarto de Giovanni, James Baldwin, 1956. Situado na França, em meados do século 20, este romance revolucionário aborda assuntos como orientação sexual, raça e origem. David, um jovem norte-americano noivo de uma garota, se apaixona por um garçom italiano, mas não consegue imaginar uma vida com ele. O caso deles parece limitado à desolação do quarto que dá nome ao livro. Lutando com o conceito e a construção de “masculinidade”, David sofre o desgosto e a dor de magoar as pessoas que ama. Quando o livro foi publicado, Baldwin, um afro-americano, foi criticado por escrever sobre personagens homossexuais e brancos, mas seu trabalho trouxe à luz realidades obscuras, tornando-o um clássico conhecido amplamente.

Foto de Courtesy of Little Brown

Real Queer America: LGBT Stories from Red States (América Verdadeiramente Queer: Histórias LGBT dos Estados Republicanos, em tradução livre), Samantha Allen, 2019. Tendo crescido como Mórmon e sido criada como um garoto, Allen “renasceu em um carro”. Durante a faculdade em Provo, Utah, ela fugia do dormitório masculino, dirigia o Honda do pai até estacionamentos remotos e vestia roupas femininas — sua verdadeira identidade. “Foi assim que comecei o confuso processo de me tornar Samantha... e me apaixonei pela estrada,” ela escreve. Neste picaresco livro de memórias, Allen volta ao campus da faculdade e percorre os estados tediosos do interior rumo ao sul, determinada a fazer “algo gay todos os dias”. Parando para fazer manifestações políticas, frequentar boates e tudo que for LGBTQIA+, ela encontra o florescimento de uma cultura queer.

The Ice Cave: A Woman’s Adventures from the Mojave to the Antarctic, (A Caverna de Gelo: As Aventuras de uma Mulher do Mojave à Antártica, em tradução livre), Lucy Jane Bledsoe, 2006. Aos três anos de idade, a pequena Lucy Bledsoe se afastou de sua família durante um passeio e foi parar em uma escondida caverna de gelo. “Lembro-me de me sentir completamente feliz... Esta é a minha lembrança mais antiga de encontrar um ambiente espiritual em um território selvagem,” ela escreve. Nas décadas posteriores, Bledsoe ficava mais confortável sozinha na natureza. Porém, após uma terrível experiência de acampamento na neve nas High Sierras, a prolífica escritora lésbica perdeu a confiança e iniciou um processo de investigação pessoal sobre seu “relacionamento com a natureza.”

Trans New York: An Extraordinary Visual Essay on Love, Courage and Finding Oneself (Nova York Trans: Um Extraordinário Ensaio Visual sobre Amor, Coragem e Busca pela Identidade, em tradução livre), Peter Bussian, 2020. Nem todas as viagens são geográficas: as “transições” entre identidades de gênero refletem os complexos itinerários do coração. “Afinal”, escreve Abby Chava Stein no prefácio desta coleção de fotografias e entrevistas, “deixar a comunidade hassídica e fazer a transição é como imigrar para um novo país... Há um novo idioma, uma cultura radicalmente nova, uma nova culinária, novas marcas e novas roupas.” Os imprevisíveis retratos de Bussian mostram nova-iorquinos em locais icônicos, como Washington Square e Grand Central Station, e geralmente incluem modais de trânsito — metrôs, trens, carros — que definem a vida nessa cidade.

Foto de Courtesy of University of Wisconsin Press

The Black Penguin (O Pinguim Preto, em tradução livre), Andrew Evans, 2017. Realizando o sonho de chegar ao “ponto mais extremo do mundo”, Evans empreende uma épica jornada com mais de 16 mil quilômetros por 65 dias partindo da sede da National Geographic em Washington, D.C. rumo à Antártica— usando principalmente ônibus. Entrelaçada com esta aventura está a jornada pessoal dele para se aproximar de sua família Mórmon e de luta pela igualdade no casamento. Seu vídeo de um raro pinguim preto na ilha Geórgia do Sul viraliza — e, para Evans, se torna um símbolo de celebração das diferenças.

As desventuras de Arthur LessAndrew Sean Greer, 2017. Neste romance vencedor do prêmio Pulitzer, um infeliz e fracassado escritor recebe um convite de casamento de seu (muito mais jovem) ex-namorado. Arthur Less enfia na mala um terno azul deslumbrante (com forro de fúcsia!) e foge, tropeçando em desventuras do México à Índia, e da Alemanha ao Japão. Ao longo do caminho, ele perde sua saúde e sua aliança de casamento, mas encontra seu próprio coração.

Leche (Leite, em tradução livre), R. Zamora Linmark, 2011. Visitando novamente as Filipinas após mais de uma década morando no Havaí, Vince é uma alma espirituosa e inquieta, que procura o significado de lar. Suas aventuras incluem uma aparição em um programa de celebridades, uma incursão em uma infame boate gay e várias fugas de perguntas constrangedoras feitas por parentes curiosos sobre seu estado civil. A narrativa é intercalada com dicas turísticas (“Nunca recuse quando filipinos lhe convidarem para jantar.”) e cartões postais. No fim das contas, esse romance é uma carta de amor a barulhenta, contraditória e caótica Manila, assim como para os filipinos que trabalham e vivem em todo o mundo, “espalhados como as estrelas”.

Enigma: História de Uma Mudança de Sexo, Jan Morris, 1974. As memórias de Morris foram publicadas no mesmo ano em que a homossexualidade foi removida como doença mental no DSM (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Porém Morris, uma bem-sucedida escritora britânica de viagens, estava à frente de seu tempo ao perceber que não era homossexual, mas “transexual”. Em seu relato pioneiro sobre a transição de gênero, ela relembra ser “James” e frequentar a Cathedral Choir School em Oxford e cantar na Christ Church Cathedral. “Um antigo edifício sagrado é propício para segredos, e o meu ficou tão misturado com as formas, sons e padrões da catedral que, até hoje, quando eu volto para as Vésperas, sinto um ar de cumplicidade,” ela escreve. As profundas reflexões de Morris — revolucionárias e radicais em sua época — deram coragem e esperança a diversas gerações de pessoas trans.

Foto de Courtesy of University of Wisconsin Press

The Blind Masseuse: A Traveler’s Memoir from Costa Rica to Cambodia, (O Massagista Cego: As Memórias de um Viajante da Costa Rica ao Camboja, em tradução livre), Alden Jones, 2013. Jovem e bi, sincera e entusiasmada, Jones se aventura, ciente de seu privilégio e da insalubre influência dos Estados Unidos em muitas partes do mundo. Ela se pergunta se há uma maneira certa ou errada de viajar: “Algumas pessoas têm o diabo em um ombro, cutucando sua identidade e o anjo no outro, apelando ao superego. Eu tinha o turista e o viajante, duas entidades que, na minha opinião, eram igualmente polarizadas.”

Thru-Hiking Will Break Your Heart: An Adventure on the Pacific Crest Trail, (Trilhas de Longa Distância vão Despedaçar Seu Coração: Uma Aventura pela Pacific Crest Trail, em tradução livre), Carrot Quinn, 2015. Criada no Alaska por uma mãe esquizofrênica, Quinn conhecia bem circunstâncias desafiadoras ou dificuldades físicas. Mas como jovem adulta queer, ela se via imersa nas redes sociais, mas distante de relações com intimidade. Solitária e desesperada para sentir alguma coisa, ela parte para a Pacific Crest Trail, com mais de 4,2 mil quilômetros de extensão, do México ao Canadá. Ela narra desertos e tempestades, bolhas nos pés e churrascos, a Via Láctea e mosquitos. Se a jornada contada por Cheryl Strayed em Livre era sobre autodescoberta, a de Quinn era sobre conexão — pois as outras pessoas que ela encontra ao longo do caminho acabam se tornando sua “família de trilha”.

Continuar a Ler