Voluntários buscam amenizar a dura realidade dos moradores de rua de São Paulo

Reportagem acompanhou o trabalho de grupos como o liderado pelo padre Júlio Lancellotti, que, em meio à pandemia, luta para alimentar e dar dignidade ao crescente número de pessoas vulneráveis na maior cidade das Américas.

Publicado 6 de mar de 2021 07:00 BRT, Atualizado 8 de mar de 2021 11:19 BRT
Durante o último inverno, um condomínio de barracas se formou na praça Ramos de Azevedo, no ...

Durante o último inverno, um condomínio de barracas se formou na praça Ramos de Azevedo, no centro de São Paulo.

Foto de Gabi Di Bella

Zona Leste de São Paulo, bairro da Mooca, 7h da manhã. O padre Júlio Lancellotti, pároco da paróquia São Miguel Arcanjo, enche um carrinho de supermercado com achocolatados, pães, salgadinhos e outros alimentos doados. Alto, ele tem um caminhar de passadas largas e anda rápido, pois sabe que centenas de pessoas esperam para receber café da manhã no galpão do centro comunitário São Martinho de Lima, a cinco quadras da igreja. Lancellotti tem 72 anos e um ritmo difícil de acompanhar. Durante o trajeto, faz algumas paradas e já vai repartindo o que tem entre os ‘irmãos de rua’ – como costuma chamar as pessoas em situação de vulnerabilidade social que atende.

Esta reportagem poderia começar descrevendo como a pandemia da covid-19 ampliou de forma cruel o abismo entre ricos e pobres no Brasil, que já era, antes de 2020, um dos países mais desiguais do mundo. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, com o fim do auxílio emergencial pago pelo governo federal até dezembro, 12,8% da população vive hoje abaixo da linha da pobreza, com uma renda menor a R$ 246 por mês. Considerando que um botijão de gás custa cerca de R$ 80 e o preço médio da cesta básica na capital paulista era R$ 654,15 em janeiro, fica fácil compreender que a conta não fecha.

Entretanto, a frieza dos dados não é capaz de traduzir as necessidades cotidianas daqueles que acordam sem saber o que vão comer durante o dia. Padre Júlio Lancellotti –voz conhecida há mais de três décadas na defesa dos direitos das pessoas que moram na rua – tem experiência suficiente para saber que é preciso muito mais do que um prato de comida para preencher essas lacunas sociais. Lacunas que envolvem desde a higiene pessoal – elementar em tempos de pandemia – e o simples gesto de ser encarado nos olhos ou abraçado por outras pessoas até a mera capacidade de viver com autonomia. “Os irmãos de rua nunca decidem nada, quem gosta de viver assim? Quem mora na rua come o que os outros dão e só usa roupas de segunda mão”, disse o padre em entrevista à reportagem. “Quando eu ofereço alguma doação com algo novo, demoram para escolher, pois nunca têm a possibilidade de fazer isso.”

Há décadas, o padre recebia a população de rua na igreja. Mas, com a pandemia, o atendimento foi transferido para a o centro comunitário São Martinho de Lima para dar conta da demanda e das novas exigências sanitárias. Foi lá, em janeiro deste ano, que se chegou a um recorde de 700 cafés da manhã servidos num só dia. “Agora, quanto mais abre [o comércio], menos solidariedade tem”, comenta Lancellotti. “As pessoas achavam que a humanidade iria sair melhor dessa pandemia, mas a realidade é que quem era solidário ficou mais solidário, e quem era egoísta ficou mais egoísta.”

Do lado de fora, em frente ao galpão onde são servidas as refeições, forma-se alguma aglomeração. Lá dentro, a linha é organizada e a entrada obedece ao ritmo em que são servidos os cafés. Na fila, onde antes se via mais homens adultos – faixa etária e gênero predominantes entre pessoas em situação de rua –, agora também se observa muitos jovens, crianças e mulheres – em sua maioria negras, parte da população que mais foi dispensada do mercado de trabalho na pandemia.

Mulheres como Luciana Batista, 40 anos, que vive em um albergue com os dois filhos, Rebeca Xavier, cinco anos, e Gregory Enry, de cinco meses. “Estudei só até a quarta série; tinha conseguido trabalho como auxiliar de limpeza em um mercado e me dispensaram logo que a pandemia começou”, diz. Ela conta que pagava o aluguel, mas, com o fim do seguro-desemprego, se viu obrigada a se mudar para o albergue público. “Me inscrevi para receber o auxílio, mas até agora nada. Eu sinto que é eu e Deus.”

Toda manhã, o padre Júlio Lancellotti enche um carrinho de supermercado e distribui alimentos para moradores de rua na região de Belenzinho, Zona Leste de São Paulo. “Quando eu ofereço alguma doação com algo novo, demoram para escolher, pois nunca têm a possibilidade de fazer isso.”

Foto de Gabi Di Bella

O padre Júlio Lancellotti diverte crianças com bolhas de sabão no Centro Comunitário São Martinho de Lima, em Belenzinho, Zona Leste de São Paulo.

Foto de Gabi Di Bella

Batista não está sozinha, a vida de albergada a trouxe a amizade de Caroline Francisco da Silva Miliante, 23 anos. A jovem também leva a tiracolo os filhos, Davi, três anos, e Ana Carolina, dois, e frequenta o centro comunitário há um ano. “Com a quarentena, ficamos sem creche, então desisti de sair para deixar currículos porque não tenho com quem deixar as crianças”, conta.

No café da manhã, a solidariedade entre os que recebem ajuda é visível. Muitos, apesar de depender de doações, também atuam como voluntários. Luís Renato Ribeiro Junior, 25 anos, é um deles. O jovem já tinha passado por uma situação de rua, mas, até março de 2020, acreditava que sua vida estava melhorando. Ele passava os dias vendendo balas de goma e ministrando aulas de flauta doce, instrumento que leva sempre consigo. “Eu vendia cerca de dez caixas por dia, tinha clientes fixos e estava começando a dar aulas. Conseguia pagar por um quarto de pensão e comprar comida”, conta. Com a pandemia, sem as vendas e sem as aulas, Luís Renato voltou a pedir ajuda na paróquia.

Lá, assim como outros voluntários, ele auxilia na hora de organizar e distribuir as doações que chegam. Enquanto espera a retomada das atividades econômicas, divide seus dias entre o café da manhã e a busca por trabalho. “Quero ser assistente social. Eu sei que muitos chegam aqui e mentem sobre sua situação, mas é por necessidade. Acredito que eu, por estar vivendo isso, entenderia melhor o que eles passam”, diz Luís Renato. “Na minha situação, é bom se ocupar. O padre sempre dá bronca se vê que estamos fazendo algo errado, mas também me pede para tocar a flauta e animar quem está na fila.”

O grupo O Amor Agradece produz marmitas em uma casa em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo. A quantidade de comida varia, mas, no último Natal, os voluntários preparam mais de 3 mil refeições em uma semana, um recorde. Desde então, com menos voluntários disponíveis, a produção reduziu.

Foto de Gabi Di Bella

As crianças também ajudam, algumas marmitas são decoradas na sede do grupo O Amor Agradece.

Foto de Gabi Di Bella

Além da música, padre Lancellotti busca humanizar de outras maneiras a dura realidade que vê todos os dias – sopra bolhas de sabão, divertindo tanto adultos quanto as crianças, distribui brinquedos e procura presentear aniversariantes.

“Os albergues recebem 300, 400 pessoas e têm poucos banheiros, horários rígidos para tudo – entrada, saída, banho”, diz Lancellotti. “Não há como fazer distanciamento social e as pessoas não têm seu lado humano respeitado; a única diferença entre o primeiro albergue criado em São Paulo em 1940 e os de hoje é que agora as camas têm tomada para carregar o celular, o resto é igual.”

Condomínio de barracas

Essa desumanização de quem vive pelas calçadas e viadutos da cidade também é um fator que chama a atenção da ex-moradora de rua Eliana Toscano, 48 anos. Ela foi uma das pessoas que organizou, no ano passado, a distribuição de barracas para tentar proteger os moradores de rua do frio. Barracas que chamavam a atenção de quem passava por bairros como a Mooca, Praça da Sé e pelo viaduto Minhocão. Eliana conhece bem o que é não ter um teto. Entre muitas idas e vindas da rua, ela chegou a passar um tempo na cracolândia. Saiu do vício e foi direto para um cargo de assessora da Secretaria Municipal de Direitos Humanos do qual foi exonerada em janeiro deste ano, depois de dois anos de trabalho.

Em um censo de 2019, realizado pela secretaria, estimou-se cerca de 24 mil pessoas em situação de vulnerabilidade social na capital. Mas Eliana, assim como o padre Lancellotti, percebeu que o dado ficou desatualizado com a crise humanitária instalada desde o ano passado. “Passei anos na rua, eu sei quem não é novo, e tem muita gente que claramente apareceu na rua agora, devido a pandemia”, disse em entrevista à reportagem.

Moradora de rua recebe marmita no Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras). Somente no primeiro dia de quarentena, em março de 2020, o local teve uma fila com mais de 2 mil pessoas a espera de comida.

Foto de Gabi Di Bella

Com a pandemia, o Sefras lançou uma campanha de distribuição de alimentos. Até outubro do ano passado, a associação já tinha distribuído 1 milhão de marmitas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Foto de Gabi Di Bella

Quando a encontrei, em setembro de 2020, ainda havia um pequeno ‘condomínio’ em frente ao Teatro Municipal, no centro da cidade. Ali, cerca de dez barracas abrigavam pessoas já acostumadas com a rua e algumas que terminaram na situação devido à quarentena. Entre elas, o enfermeiro alemão Friederich Sebastian, 60 anos, vindo de Frankfurt. Falando bom português, Friederich contou que chegou em março, mas o hotel onde estava fechou antes que ele pudesse começar a trabalhar. Depois, foi assaltado e terminou sozinho nas ruas vazias da cidade, sem documentos ou dinheiro. Com ajuda de Eliana, conseguiu uma barraca para sobreviver. No final do ano passado, ele ainda esperava por ajuda do consulado e de amigos e parentes da Alemanha.

Ao lado dele, também vivia Bruna Patrícia de Santos Souza, 30 anos. Antes da pandemia, Bruna tinha uma vida nômade entre Rio de Janeiro e São Paulo, sobrevivendo de bicos. A covid-19 a obrigou a parar no centro da capital paulista, à espera da retomada das atividades econômicas.

Os moradores do ‘condomínio’ tentavam se ajudar de diferentes maneiras, mas tinham dificuldades para conseguir água e comida. Almoço e janta eram feitos na rua, numa cozinha improvisada com um conjunto de panelas, onde não há uma única torneira para lavar as mãos. Eliana montou uma pequena central de mantimentos, na qual uma das principais funções era justamente receber e doar garrafas d’água.

A partir de outubro, com a flexibilização da quarentena e a reabertura do comércio, o número de barracas diminuiu – foram recolhidas pelo serviço de zeladoria municipal. Também diminuíram as doações e a solidariedade, um movimento inverso ao número de casos de covid-19, que só aumenta, assim como a quantidade de pessoas em situação de vulnerabilidade social e de desempregados, que chegou a cerca de 14 milhões de pessoas.

Em fevereiro de 2021, começou-se a vacinação para covid-19 de moradores de rua acima de 60 anos. Um dos locais escolhidos para aplicação foi o Centro Comunitário São Martinho de Lima.

Foto de Gabi Di Bella

Ao lado de jornalistas, o padre Julio Lancellotti observa vacinação de moradores de rua no Centro Comunitário São Martinho de Lima.

Foto de Gabi Di Bella

Enquanto isso, algumas inciativas particulares passaram a tentar preencher, à sua maneira, a falta do estado durante a crise. Entre elas está o grupo de amigos O Amor Agradece, que há três anos começou a fazer marmitas para distribuir nas ruas, um movimento que ganhou novos adeptos em 2020. “Nós fazíamos um encontro por semana, para cozinhar e distribuir as marmitas”, conta Jô Mainardi, 48 anos, uma das organizadoras do grupo. “Com o isolamento, cada um faz em casa na medida que suas panelas permitem. Também aceitamos mais colaboradores, e assim conseguimos ampliar a quantidade.”

Assim, foram formados vários núcleos de produção de marmita. Em um deles, uma casa no bairro de Pinheiros, Zona Oeste da cidade, uma lousa marca a quantidade semanal produzida pelos voluntários. Em dezembro, no Natal, bateu-se o recorde, com mais de 900 refeições doadas – somando todos os núcleos, foram mais de 3 mil. Com a virada do ano e a época de férias, o número de refeições diminuiu consideravelmente. “Nós tentamos encher bastante os potes porque muitas vezes a comida é dividida entre mais de uma pessoa”, comenta Cristiane Kawasaki Minami, 49, uma das colaboradoras.

As marmitas têm vários destinos, entre eles, uma comunidade a cerca de 40 km dali, no Jardim Robru, Zona Leste de São Paulo. Quem as recebe é a assistente social Ana Paula de Jesus da Silva, 46 anos. Moradora do bairro, ela sempre atuou em ações no centro da capital, e em 2019 foi buscar uma casa para atender a região onde cresceu. “Parecia que sabíamos o que estava por vir, conseguimos esta casinha pequena para descentralizar o atendimento, e logo a pandemia chegou”, conta ela. “Agora, um ano depois, temos uma fila grande e precisamos fazer uma partilha; para uma família de cinco pessoas entregamos três marmitas, de nove, damos cinco.”

Artista russo Fyodor Pavlov-Andreevich em uma performance em homenagem ao padre Júlio Lancellotti, que em fevereiro de 2021 quebrou a marretadas pedras colocadas pela prefeitura de São Paulo sob um viaduto para evitar a presença de moradores de rua.

Foto de Gabi Di Bella

Dose de esperança

Enquanto famílias dividem marmitas e esperam por decisões do governo, no dia 10 de fevereiro teve início a vacinação dos idosos acima dos 80 anos e, dois dias depois, dos moradores de rua com mais de 60. Em estrutura de enfermaria montada no centro comunitário São Martinho de Lima e ao som da música Asa Branca, tocada na flauta de Luís Renato, Sérgio Eduardo Zacharias foi um dos primeiros imunizados. Sérgio vive em situação de rua há mais de 20 anos, e é velho conhecido dos assistentes sociais. “Eu tive covid em maio do ano passado, foram 23 dias de UTI, fui intubado e quem me salvou foram os médicos do hospital de campanha do Pacaembu”, lembra. Aos 61 anos, Sérgio, torcedor orgulhoso do São Paulo, estava emocionado em receber o que ele chamou de uma dose de esperança.

No mesmo dia, o artista russo Fyodor Pavlov-Andreevich convidou o padre Lancellotti para assistir sua performance. Fyodor sentou pelado em cima de um monte de pedras na rua Augusta, esquina com a Oscar Freire, área nobre da cidade. O ato era uma referência às pedras instaladas embaixo de um viaduto por funcionários da prefeitura para evitar a presença de moradores de rua. O padre, que semanas antes removeu as pedras a marretadas, prestigiou o artista, mas observou que, fosse negro, a arte teria logo sido interrompida pela polícia. Os guardas apareceram e ameaçaram acabar com o enveto, mas após alguns minutos de conversa, permitiram que o ato continuasse.

Por coincidência, no caminho de volta para a paróquia, Lancellotti parou para observar uma revista que a polícia fazia em um morador de rua que ele conhece e auxilia. O policial, ao ver que a ação tinha público, solicitou os documentos de todos ali presentes – voluntários, fotógrafos e jornalistas que acompanhavam o padre. Por fim, afirmou desconhecer o trabalho de Lancellotti.

Após checar que ninguém ali devia nada para a justiça, o policial afirmou, aos que tinham câmeras, que tomaria as devidas providências se sua imagem fosse veiculada em algum lugar, pois recebia ameaças no bairro onde morava. “Eu recebo ameaças aqui todos os dias”, respondeu o padre. Lancellotti virou as costas e seguiu seu caminho, com passadas largas de quem, com ou sem pandemia, sabe que não pode parar. Duas horas depois, o ‘desconhecido’ padre Lancellotti estava ao vivo, na televisão, mostrando o seu cartão de vacinação ao lado do governador do estado.

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