Desvendando o mistério do papel perfeito do Japão

Ecologicamente correto e adaptável, o washi dá vida à tradição em cidades repletas de história.

O mestre calígrafo Tadashi Kawamata escreve em um washi, tipo de papel tradicional que ainda é feito à mão em algumas regiões do Japão.

Foto de JAMES WHITLOW DELANO
Por Rob Goss
Publicado 10 de jul. de 2021 07:00 BRT

No mês de agosto, bonecos gigantes de guerreiros percorrem a cidade japonesa de Aomori. Esses formidáveis carros alegóricos iluminados feitos de papel são a figura central do Nebuta Matsuri, um dos maiores eventos sazonais do Japão. O festival noturno dura uma semana.

Acompanhado por percussionistas tocando taiko e dançarinos, os carros alegóricos retratam cenas de cabúqui e da mitologia japonesa. De acordo com o fabricante Hiroo Takenami, são necessários meses para projetar e fabricar cada carro alegórico. Durante grande parte dos 300 anos de história do Nebuta Matsuri, esses guerreiros gigantes foram cobertos apenas por washi, um tipo de papel extraído da amoreira e produzido à mão.

Mas Takenami admite que, hoje em dia, os carros alegóricos são apenas parcialmente fabricados com washi. “Já tivemos casos em que chuvas repentinas estragaram o papel durante o desfile, então usamos também um papel que não é feito à mão e que possui fibras sintéticas que tornam a estrutura do carro alegórico mais resistente à chuva. Ainda é possível ver as fibras de washi feito à mão, e ele é de muita qualidade. Mas não é washi puro.”

Esse ajuste é compreensível e se tornou mais comum conforme o papel fabricado à máquina foi substituindo o washi no Japão. Mas o processo meticuloso de fazer o papel à mão ainda é praticado em muitas cidades e vilas. O washi, fabricado em três comunidades japonesas, recebeu a classificação de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco em 2014.

“É importante que as técnicas de fabricação do washi sobrevivam”, diz Takeshi Kano, um dos muitos artesãos que fazem com que essa tradição continue viva. “É muito importante nutrir a próxima geração de artesãos, transmitir o conhecimento de forma adequada e gerar uma indústria que nos dê retorno econômico também.”

Raízes da fabricação de papel

De acordo com o livro Nihon Shoki (“Crônicas do Japão”) — a segunda crônica mais antiga sobre a história do país, escrita em 720 d.C. — o papel foi introduzido por monges budistas coreanos no início da década de 600 d.C. Foi nessa época que o Budismo criou raízes no Japão, e o papel era usado principalmente para a escrita de textos sagrados.

Com o tempo os japoneses desenvolveram novas adaptações, empregando fibras mais fortes de plantas, como a amora e, por ter maior durabilidade, o washi se popularizou. A textura resistente e absorvente do washi é ideal para caligrafia e outras artes em que se usa tinta.

O washi é um ótimo filtro de luz e suas fibras entrelaçadas o tornam bastante resistente. Por isso começou também a ser usado na produção de telas de papel em janelas e portas, lanternas e lâmpadas. Até a modernização e ocidentalização do Japão na era Meiji (de 1868 a 1912), o washi era um material onipresente no Japão.

E ele não é apenas versátil; também é ecológico. Ao contrário do papel produzido de forma industrial, o processo de produção do washi usa apenas galhos de árvores, o que não exige o corte da árvore inteira. Enquanto a produção regular de papel costuma usar produtos químicos, o washi feito à mão não contém produtos químicos e é biodegradável.

Mas, quando o Japão se tornou uma nação industrial moderna, o washi foi substituído por outros tipos de papel mais econômicos para produção em massa. A maioria das portas de tela hoje, por exemplo, são feitas com papel fabricado à máquina.

O washi mais de perto

A cidade de Mino é conhecida por sua história com o washi. Na era Edo (de 1603 a 1868), o bairro comercial, repleto de lanternas, brilhava durante o Festival de Arte Washi Akari da cidade, que acontece em outubro. As lanternas são produzidas por todos, desde alunos do ensino fundamental até artistas qualificados. Todos usam o Mino Washi, nome dado a vários tipos de washi produzidos na região há mais de mil anos.

Takeshi Kano é um dos apenas oito artesãos em Mino qualificados para produzir o honminoshi, a forma mais pura e tradicional de Mino Washi, que representa 10% de todo o papel produzido na cidade. Para receber essa qualificação, um papeleiro deve treinar por pelo menos 10 anos sob a orientação de um membro da Associação de Preservação do Honminoshi.

Em 2014, essa tradição de fazer honminoshi recebeu a classificação de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, junto com o papel sekishubanshi, de Hamada (na província de Shimane) e o papel hosokawa de Ogawa/Higashi-Chichibu (na província de Saitama). Ao indicar essas regiões, a Unesco escreveu: “as pessoas que vivem nessas comunidades se orgulham de sua tradição ligada à produção de washi e a consideram o símbolo de sua identidade cultural”.

“[A indicação] não foi feita por causa do washi em si ou das pessoas que o produzem; na verdade a indicação da Unesco se refere às técnicas de produção do washi”, explica Kano. “O Honminoshi, por exemplo, deve ser produzido inteiramente à mão e usar apenas três ingredientes: kozo (papel da amoreira), água e neri, uma mucilagem vegetal que garante a distribuição uniforme das fibras do papel.”

Como o honminoshi, sekishubanshi e hosokawa também são totalmente feitos à mão e usam apenas kozo. Eles foram utilizados de maneiras semelhantes ao longo dos anos, embora o sekishubanshi seja particularmente utilizado para produzir as máscaras dos artistas da Iwami Kagura, uma dança teatral regional com raízes em rituais xintoístas. Outros tipos de washi, como o papel não honminoshi feito em Mino, são compostos por uma combinação de kozo, mitsumata (papel extraído de arbusto) ou uma fibra de papel extraída de um tipo de arbusto chamado gampi. A produção desses outros tipos de papel pode incluir corantes para criar cores diferentes.

Os papéis indicados pela Unesco são todos feitos a partir de um processo minucioso que os artesãos usam há séculos: primeiro o kozo deve ser cozido no vapor até que a casca fique macia o suficiente para ser retirada. Tradicionalmente, a casca interna é enxaguada em geladas águas correntes de rios ou riachos, onde é também exposta à luz do sol, que a clareia naturalmente.

A casca esbranquiçada é fervida em uma solução alcalina de carbonato de sódio para remover a pectina que une as fibras da casca. Em seguida, os papeleiros começam um processo minucioso chamado chiritori, em que as fibras são colocadas na água fria, enquanto o papeleiro retira com cuidado as partículas remanescentes de sujeira e poeira.

A partir daí, os fabricantes amolecem as fibras batendo e misturando o material em uma cuba com água e neri para formar uma polpa. Uma moldura articulada de madeira chamada suketa é mergulhada na polpa para formar as folhas. A moldura se fecha para segurar uma esteira de bambu, sobre a qual as fibras da polpa se cruzam com um leve movimento de balanço. Por fim, a folha é removida da moldura, prensada durante a noite e colocada sobre placas para secar. Ao todo, pode levar várias semanas até que um lote desse material passe da polpa ao papel.

No rastro do papel

No Distrito Histórico do Muro de Udatsu (cujo nome faz alusão às paredes corta-fogo peculiares que se projetam entre os edifícios), lojas de artesanato exibem usos contemporâneos e tradicionais de washi. Entre as preciosidades que podem ser encontradas lá, estão roupas, bolsas, guarda-chuvas de papel, decoração de interiores e cartões de visita. No ano passado, a fabricante têxtil japonesa Takebe chegou a lançar máscaras reutilizáveis feitas de washi.

Em lugares como a feira chamada Ishikawa Mino Washi Paper Goods Workshop, localizada em um dos edifícios históricos, os visitantes aprendem a fazer bonecos de washi e outros artesanatos. No Museu Mino-Washi, os visitantes podem tentar fazer o papel usando uma versão pequena do tipo de suketa que Kano usa. Para conhecer ainda mais de perto a tradição japonesa, a loja Washi-nary faz um passeio que leva a uma plantação de amoreira (de onde extraem o papel), uma feira de artesanato e uma fábrica de papel.

Na área rural de Echizen Paper Village, na província de Fukui, cerca de 60 fábricas produzem washi — algumas com fabricações totalmente feitas à mão, outras também usam tecnologia moderna. Todo mês de maio, o santuário local realiza um festival de três dias para celebrar a deusa do papel. Mas, ao longo do ano, os visitantes podem fazer washi com artesãos locais no Museu do Papel e Artesanato de Udatsu ou visitar algumas das fábricas da região. Mesmo em Tóquio, a loja Ozu Washi fabrica washi e estoca folhas feitas à mão vindas de todo o Japão desde o século 17.

O washi pode não ser mais o único tipo de papel utilizado no Japão atualmente, mas ainda é uma tradição forte: é utilizado até em credenciais olímpicas. Se os  Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Tóquio, adiados em um ano devido à pandemia, acontecerem neste mês de julho, os atletas que terminarem entre as oito primeiras colocações em seus eventos receberão um certificado impresso em honminoshi.

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