Dian Fossey: a renegada cientista que nos ensinou a amar os gorilas

Uma viagem pelos arquivos da National Geographic revela como a pesquisadora não deixou ninguém subestimar os incompreendidos primatas.

Dian Fossey: Mistérios de Uma Vida, uma série em três partes que vai ao ar em 14 de janeiro (domingo), às 20h30, no National Geographic.

Antes de ser conhecida no mundo todo por viver com gorilas da montanha, Dian Fossey penou para chamar a atenção às diminutas quantidades do animal.

Certa de que os gorilas estavam à beira da extinção, ela adotou uma impetuosa abordagem de comunicação e proteção que irritava muita gente – e provavelmente contribuiu para seu assassinato em 1985, crime ainda não solucionado. Mas essa dedicação ardente também ajudou a reviver os sitiados primatas. Hoje, milhares de turistas visitam Ruanda, Uganda e a República Democrática do Congo para vê-los.

Dian Fossey observa Pucker Puss, gorila da montanha fêmea de dois anos, e Coco, macho de 16 meses, na selva do Parque Nacional dos Vulcões, em Ruanda. Ela cuidou dos dois até ficarem saudáveis, depois que suas famílias foram mortas por caçadores.
Dian Fossey observa Pucker Puss, gorila da montanha fêmea de dois anos, e Coco, macho de 16 meses, na selva do Parque Nacional dos Vulcões, em Ruanda. Ela cuidou dos dois até ficarem saudáveis, depois que suas famílias foram mortas por caçadores.

Em 1969, a cientista de 35 anos recebeu três doações da National Geographic Society para pesquisar sobre os evasivos gorilas, e os editores da revista decidiram publicar as descobertas dela. Eles logo souberam que Fossey não tem medo de ofender alguém para defender os gorilas.

Em 1º de junho de 1969, uma carta de Fossey chegou ao escritório da National Geographic em Washington, D.C., uma das centenas de páginas de correspondência e diários de observação que preenchem uma prateleira no arquivo da Society. O destinatário da carta era W. Allan Royce, um editor de ilustração que havia lhe enviado um rascunho do trabalho de arte para a reportagem, e a carta era cruel.

“Minhas reações iniciais ao patético”, ela escreveu, “foram de aplaudir o selo ‘Não é para publicação’ nos slides de dois esboços e sublinhar a palavra ‘tentativa’ na primeira página.”

Em 1967, Dian Fossey mudou-se para a República Democrática do Congo, para começar sua pesquisa sobre …
ver galeria

Ela estava enojada, disse Fossey ao editor de texto em outra carta, sobre como os gorilas estavam sendo retratados. “Por favor, não subestimem esse animal”, ela escreveu. As ilustrações, perdidas com o tempo, talvez tenham pintado o gorila prestes a atacar Fossey, com uma legenda descrevendo-os como “selvagens”. Esse incidente aconteceu apenas uma vez, ela observou, em mais de duas mil horas de observação dos gorilas..

“O propósito [do esboço] era mostrar que, independente do comportamento do gorila, seu trabalho não está livre de incidentes, potenciais riscos à vida e vulnerabilidade”, Royce lhe assegurou.

O registro em primeira pessoa da vida de Fossey com os gorilas da montanha foi capa da edição de janeiro de 1970 da National Geographic.
O registro em primeira pessoa da vida de Fossey com os gorilas da montanha foi capa da edição de janeiro de 1970 da National Geographic.

Os problemas com a edição da National Geographic de Janeiro de 1970 (em inglês) —que contou com Fossey na capa – haviam apenas começado. Dois meses depois da discussão inicial sobre as imagens, um editor chamado RL Conly deu uma olhada na reportagem de Fossey e lançou sua crítica: “A autora escreveu um relato incoerente sobre aventuras estranhas nas Montanhas Virunga”, ele escreveu. “Sua casa pega fogo. Ela sequestra um garoto nativo. O pai do garoto rouba seu cachorro. Ela ‘sequestra para pedir resgate’ outro rebanho do nativo (para conseguir seu cachorro de volta). Ela veste uma máscara de Halloween para assustar os nativos; eles estão incomodando seus gorilas.”

As descobertas científicas de Fossey ausentavam-se de sua escrita, e Conly ficou preocupado de que ela fosse comparada, prejudicialmente, a Jane Goodall e seus artigos populares a respeito das pesquisas sobre chimpanzés em Gombe, Tanzânia. Então, Fossey negociou aventuras de pesquisa e observação, e o departamento de ilustrações da National Geographic apagou a palavra “selvagem” das páginas de esboço.

Na época em que Fossey fundou seu centro de pesquisa chamado Karisoke, no que hoje é conhecido como Parque Nacional dos Vulcões em Ruanda, décadas de caça já haviam acontecido. Ela temeu que os gorilas fossem extintos em 30 anos se nada fosse feito para protegê-los, e assumiu a responsabilidade de ser protetora, porta-voz e detetive. Nas patrulhas diárias pelo parque, ela e sua equipe de pesquisa recolhiam centenas de armadilhas de arame instaladas pelos caçadores para apanhar gorilas e vender partes do corpo e filhotes.

Fossey caminha pela floresta do Parque Nacional dos Vulcões carregando dois gorilas. O parque era um lugar muito mais perigoso para os animais naquela época, com caçadores e madeireiros ilegais impunes com a vista-grossa de guardas-florestais.
Fossey caminha pela floresta do Parque Nacional dos Vulcões carregando dois gorilas. O parque era um lugar muito mais perigoso para os animais naquela época, com caçadores e madeireiros ilegais impunes com a vista-grossa de guardas-florestais.

Ela não se preocupava tanto com os humanos. Seu comportamento para com ruandeses locais era frequentemente ofensivo; nas cartas, ela às vezes chamava de “meus africanos” membros da equipe de pesquisa e funcionários do parque. Seus diários e cartas ferviam de ódio com a equipe precariamente treinada e, por vezes, corrupta. Em uma carta a um pesquisador da National Geographic, ela escreveu: “O termo ‘Serviço de Parque’ é um pouco floreado para descrever os serviços de seis maltrapilhos e alcoólatras que medonhamente tentam ser guardas nessa região.” Os guardas frequentemente ficavam meses sem receber os salários do governo. Em vez disso, eles aceitavam o pagamento de caçadores para liberar a entrada no parque – e até mesmo lhes vendiam armas.

Em 1968, na época em que Fossey se instalava no centro de pesquisa, o diretor da Comissão Internacional de Parques Nacionais visitou a região dos gorilas e rascunhou um relatório desanimador. O Parque Nacional Albert – o nome de toda a área durante o período colonial – foi criado em 1925 “para criar um mundo mais seguro para os gorilas”, ele escreveu. Mas falhou. O relatório descreve festas de caça esportiva, uma estação de guardas-florestais saqueada e recursos insuficientes: “Tendas, cintos reservas, bandagens de joelho, sapatos, mochilas, quepes, insígnias, tudo se esgotou.”

Na ausência de guardas eficazes, Fossey passou a investigar por conta própria. Ela percebeu que cartuchos de munição eram removidos da cena do assassinato de gorilas, para prevenir que o calibre da arma fosse traçado. “Por essa razão, aumenta a possibilidade de que a arma envolvida recentemente seja uma arma conhecida e ‘emprestada’ para as execuções, talvez pelos guardas do parque?”, ela escreveu.

Em uma conversa com o diretor do parque, em 1978, ele disse a Fossey que não tinha autoridade para invadir os acampamentos de caçadores fora dos limites do parque, ou para atirar neles de dentro do parque. Em resposta, ela sugeriu que ele e seus colegas fossem demitidos.

Seus diários não são apenas frustrações. Relatórios diários são salpicados com pesquisas inovadoras. Um trecho de 1971, intitulado “Incidente de Espelho”, descreve a observação de seu gorila favorito, um jovem macho chamado Digit, enquanto se olhava no espelho: “Ele começou a mexer a cabeça de um lado para o outro, como um adolescente se preparando para a formatura”, ela escreveu. Quando, seis anos depois, Digit foi morto por caçadores, ele se tornou a cara da campanha global de Fossey para salvar os gorilas. Ela fundou a Digit Fund, que agora se chama Dian Fossey Gorilla Fund e atualmente continua a preservar o trabalho dela. 

Dian Fossey: Mistérios de Uma Vida: O Gorila da Montanha
Dian Fossey: Mistérios de Uma Vida: O Gorila da Montanha
A zoóloga Dian Fossey apresentou seu documentário da National Geographic em 1973, em Washington D.C. No filme, ela relata a vida íntima dos gorilas, especialmente de Digit, morto por caçadores em 1977.

Em 1980, houve um aumento de 130% no número de turistas que visitavam os gorilas no parque. Existiam quatro guias dos gorilas, que trabalhavam em um novo escritório com novos uniformes e rádios. “Pela primeira vez na história, o PNV [Parque Nacional dos Vulcões] está recebendo mais dinheiro do que [é] gasto para administrar o parque”, informava um comunicado.

Dois anos depois, Fossey descreveu um caçador preso enquanto tentava sair escondido do parque com um bebê gorila de um mês. Pela primeira vez, um guarda atirou e matou um dos caçadores. Esse era o tipo de proteção ativa pela qual Fossey tanto lutava.

Em 1986, o ano seguinte ao assassinato de Fossey, havia 280 gorilas da montanha em uma área que se estende por Ruanda, Uganda e República Democrática do Congo. Hoje, existem 880 gorilas – e os números continuam a crescer. Os três parques ainda praticam um estilo agressivo de proteção. Quando Fossey trabalhava lá, Ruanda era um dos países mais pobres da África, mas desde então a nação está entre as maiores histórias de louvável sucesso econômico. Os gorilas têm sido protegidos e, em troca, Ruanda espera gerar 444 milhões de dólares em turismo neste ano.

Dian Fossey: Mistérios de Uma Vida: Trailer
Dian Fossey: Mistérios de Uma Vida: Trailer
Uma história de preservação e amor aos gorilas interrompida por um assassinato brutal. Estreia em 14 de janeiro, às 20h30, no National Geographic.
Continuar a Ler