Lançamento bem-sucedido – o foguete Falcon Heavy faz história

O foguete da SpaceX se tornou o mais potente desde o Saturn V, que levou pessoas até a Lua.

Publicado 7 de fev. de 2018 13:14 BRST, Atualizado 5 de nov. de 2020 03:22 BRT

Um extraordinário balé foi dançado nos céus da Flórida nessa terça-feira, 07, quando o foguete Falcon Heavy da SpaceX passou em seu primeiro teste de lançamento com nota dez em (quase) tudo.

Com o antecipado primeiro voo feito, o Falcon Heavy é agora o mais poderoso foguete operacional do mundo, capaz de levantar mais de 63 toneladas de carga até a órbita terrestre baixa – o segundo consegue carregar metade disso. Apenas o Saturn V, que levou humanos para a Lua, havia transportado uma carga tão pesada até o momento.

“Eu ainda estou tentando absorver tudo o que aconteceu. Pareceu surreal para mim”, disse o CEO da SpaceX, Elon Musk, em uma coletiva de imprensa após o lançamento na terça. “Eu tinha essa imagem na cabeça da plataforma de lançamento explodindo, uma roda voando pela estrada e o logo da SpaceX caindo em algum lugar – mas felizmente isso não aconteceu.”

Na manhã do voo, a ansiedade no Centro Espacial Kennedy da Nasa era palpável. Cinco horas antes do lançamento, mais de um quilômetro de trânsito se estendia a partir da entrada de visitantes do lugar, contornando a mais nova fábrica da competidora da SpaceX, a Blue Origin.

Às 18h45 do horário de Brasília, os 27 motores de foguete Merlin do Falcon Heavy vieram à vida com um triunfante bramido que pôde ser ouvido a quilômetros de distância. O foguete levantou da plataforma 39A da NASA – o mesmo lugar de onde saíram as missões Apollo para a Lua e os voos do Ônibus Espacial – e começou sua ascensão, carregando consigo um carro Tesla Roadster tocando Space Oddity de David Bowie.

Em oito curtos minutos, os foguetes auxiliares do Falcon Heavy se separaram da parte principal, giraram no ar e retornaram para o chão, como se o lançamento estivesse sendo rebobinado.

A parte central do foguete continuou subindo até seu compartimento superior se soltar e descer em direção à plataforma de pouso flutuante do SpaceX chamada Of Course I Still Love You, que flutuava sobre o Oceano Atlântico. Logo em seguida ao lançamento, ainda havia dúvidas se o compartimento central iria ter sucesso em seu retorno à Terra.

Minutos depois do The Verge anunciar, Musk confirmou que a parte central do Falcon Heavy errou o alvo da plataforma de pouso flutuante, como muitos temiam que acontecesse. Musk atribuiu isso a níveis baixos de Triethylborane – um propelente quente que, basicamente, age como um fluído combustor para os motores do foguete – no foguete auxiliar central. Nem todos os motores do foguete auxiliar reiniciaram durante o pouso, fazendo-o descer mais rápido do que esperado.

“Aparentemente, ele atingiu a água a 480 km/h”, disse Musk, acrescentando que a colisão destruiu dois dos motores da plataforma flutuante.

A aterrissagem fracassada, porém, não acabou com o lançamento. O compartimento superior separou-se perfeitamente do foguete auxiliar central, levando a diante o Roadster e seu boneco-piloto. Agora, o veículo está passando por um período complicado de cinco horas no cinturão de Van Allen, uma enorme área de partículas solares de alta energia capturadas pelo campo magnético da Terra.

A radiação parece não ter prejudicado o compartimento superior. Às 01h46 da manhã no horário de Brasília, Musk confirmou no Twitter que o compartimento superior do foguete decolou com energia suficiente para levar o Tesla para além dos confins da área gravitacional da Terra.

Fiel a Bowie, o carro está, agora, flutuando de uma forma muito peculiar: está caminhando em uma órbita elíptica em torno do Sol que irá passar pela órbita terrestre até o cinturão de asteroides e voltando novamente.

SapceX diz que o Roadster conseguiria flutuar de forma estável por milhões de anos. E por algum período de tempo, nós terráqueos poderemos viajar junto com ele, graças a três câmeras colocadas no Roadster.

“É um carro comum andando no espaço – eu gosto do absurdo disso”, disse Musk. “Eu ainda fico impressionado com isso. ”

Corrida pela reutilização

Como a National Geographic reportou ontem, o Falcon Heavy está destinado a servir como um forte símbolo para a corrida de empreendimentos privados rumo ao espaço – e a SpaceX tem enfatizado na reusabilidade.

A maioria dos foguetes possui múltiplas partes, ou compartimentos, que ajudam a cabine principal a carregar a carga – os satélites e as cápsulas de tripulação – para o espaço. Essas partes geralmente vão se quebrando e caindo para a Terra à medida que são descartadas. Em muitos casos, essas peças não podem ser reutilizadas de forma segura.

Mas, desde 2008, a SpaceX tem conquistado novos terrenos com o Falcon 9, incluindo recuperar e reutilizar algumas das partes do foguete. Assim como empresas aéreas não constroem um novo avião para cada viagem através do país, a ideia é não construir mais um novo foguete a cada lançamento. Nesse caso, reutilizar peças é um ponto chave para diminuir os custos de uma viagem espacial.

Agora que o Falcon Heavy parece funcionar, a SpaceX deve seguir com seu manifesto, que inclui o satélite saudita Arabsat 6a e o da força aérea americana STP-2, um pacote variado de satélites que incluem um relógio atômico hiper-preciso feito para o espaço profundo e uma rede de satélites que deve monitorar a atmosfera terrestre.

“Se tivermos sucesso, é jogo ganho”, comenta Musk. “Seria como uma companhia aérea ter aeronaves reutilizáveis enquanto todas as outras só podem usar suas máquinas uma vez. Todo mundo salta de paraquedas e depois o avião bate em algum lugar aleatório.”

Pense grande

Mesmo com os impressionantes atributos do Falcon Heavy, ele pode voar bem menos missões do que Elon Musk antecipou quando anunciou o foguete em 2011. Isso porque a SpaceX quis tirar tudo o que podia do desempenho do Falcon 9, algo que lhe deu a capacidade de lançar uma variedade maior de satélites.

“Um dos maiores mercados para o Falcon Heavy pode ter desaparecido”, dis Logsdon. “O Falcon Heavy é muito mais um estágio temporário na evolução da SpaceX, e não uma parte concreta de sua linha de produtos.”

O que vem depois? O Big Falcon Rocket (BFR), um gigante capaz de levar quase 30% mais carga que o Falcon Heavy para a órbita terrestre baixa. O BFR é também a base para o plano ambicioso de Elon Musk de levar humanos para a Lua e Marte.

Veja como o SpaceX Falcon Heavy destaca-se contra alguns dos outros veículos de lançamento de carga pesada que levaram com sucesso o material e, em alguns casos, a tripulação em órbita (clique para ampliar).
Foto de Dan Steinmetz

Pode soar ambicioso, mas Musk dis que o BFR está próximo. Para o choque coletivo dos repórteres na cena, Musk disse em entrevista depois do lançamento do Falcon Heavy que ele gostaria de ver a SpaceX começar a testar a nave BFR em curtos saltos no próximo ano. Além disso, ele diz que a SpaceX planeja pousar missões de carga do BRF em Marte em 2022.

No entanto, Musk admite que esse cronograma agressivo é uma aspiração. Considere, também, que o Falcon Heavy foi acometido por anos de redesenhos e atrasos.

Enquanto isso, é possível que o Falcon Heavy sirva a um maior propósito em lançamentos científicos enviando pequenos instrumentos para outros lugares do Sistema Solar a uma velocidade maior. Enquanto o Conselho Espacial de Trump se envolve no futuro da exploração do espaço por humanos, também é possível que o Falcon Heavy tenha proeminência nos planos da Nasa de enviar humanos de volta à Lua, ou talvez mais longe. 

"Ele pode enviar coisas a Plutão e além. Pode enviar satélites – qualquer coisa", disse Musk.

"Se eu fosse um planejador de missões, como fui anteriormente, e tivesse o Falcon Heavy como opção, começaria imediatamente a testar cenários de lançamento – quanto de peso consigo colocar orbitando a Lua?" disse G. Scott Hubbard, especialista em aeronáutica pela Universidade de Stanford e ex-chefe do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa. "Isso iria fazer parte dos planos imediatamente". 

Mas o caminho do Falcon Heavy está longe de ser tranquilo. Para aterrissar voos de alta-prioridade e decisivos, o foguete precisa demonstrar que é confiável. Um único lançamento bem-sucedido mostra que não há erros de desenho fatais, mas outros lançamentos precisam provar a viabilidade do veículo no longo prazo.

"Não importa quando dinheiro você economiza se você perder sua carga, porque o governo não faz seguro disso – ele não pode fazer", disse Casey Dreier, diretor de políticas da Sociedade Planetária. "Confiabilidade será um fator decisivo."

Além disso, a SpaceX não está sozinha. Loren Grush, do The Verge, observou em maio que a SpaceX e seus concorrentes estão no caminho de construir foguetes cada vez mais capazes, alguns com potencial de superar o megafoguete SLS da Nasa.

Independente de qual foguete ganhar corações e contratos, Musk e outros da comunidade espacial continuam resolutos que esses avanços em voos espaciais representam grandes ideias que podem mudar fundamentalmente a experiência humana.

"Por que estamos fazendo isso? Para duas coisas: avançar a presença humana para longe da Terra e ser capaz de enviar naves, telescópios, pessoas para muito além da órbita terrestre baixa", diz Dreier. "Estamos construindo uma capacidade de nos desafiar a explorar e conhecer o cosmos, uma coisa bonita que fazemos como uma espécie."

Musk adicionaria um terceiro componente a essa busca: "Quero uma corrida espacial", diz ele. "Corridas são emocionantes".

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