Espaço

Buzz Aldrin odeia ser chamado de 2º homem a pisar na Lua

Para o astronauta da Apollo 11, ir para o espaço era fácil. Voltar para a Terra que era difícil.Monday, March 19, 2018

Por Simon Worrall
Durante a missão Gemini XII em 1966, Buzz Aldrin tornou-se a primeira pessoa a tirar uma selfie no espaço.

Buzz Aldrin é uma lenda: um herói americano de boa-fé e um incansável funcionário público. O astronauta da missão Apollo 11 caminhou pela lua e tirou a  primeira selfie no espaço. Ele até apareceu em séries como 30 Rock, Os Simpsons e em um videoclipe norueguês. Em todos os lugares que ele vai, as pessoas o adoram e o admiram. Mas, como ele revelou em Nenhum sonho está longe demais: Lições de vida de um homem que pisou na Lua, publicado originalmente pela National Geographic e, no Brasil, pela editora Benvirá, a sua vida teve desafios e tragédias. A sua mãe tirou a própria vida. Ele lutou contra a depressão e o alcoolismo. Mas hoje, aos 86 anos, ele ainda sonha grande.

Quando estava na Filadélfia, durante uma pausa na turnê do livro, ele explicou por que ser chamado de “o segundo homem a pisar na Lua” o incomoda, como histórias sobre ele ter visto um óvni a caminho da Lua não têm fundamento e por que ele está convencido de que os Estados Unidos enviarão um homem para Marte em duas décadas.

Tem um momento incrível no seu livro quando você olha para Terra da Lua e percebe que, de todas as bilhões de pessoas na Terra, mortas e vivas, você, o Neil Armstrong e o Michael Collins são as únicas três pessoas que não estão lá. Explique esse sentimento para nós, Buzz.

Foi um sentimento intelectual. Com certeza, ele não fez me sentir sozinho, mas sim perceber que nós estávamos mais longe do que jamais alguém tinha ido antes. Uma vez que estávamos na superfície da Lua, podíamos olhar para trás e ver a Terra, um pequeno ponto azul no céu. Nós somos uma parte muito pequena do sistema solar e de todo o universo. O céu era o mais preto possível e o horizonte era tão bem definido que curvava por quilômetros de distância na nossa frente em direção ao Espaço.

A caminho da Lua, um acontecimento estranho aconteceu e foi mantido em segredo pela Nasa durante muitos anos. Qual é a sua opinião hoje sobre o óvni que você pensou ter visto?

Estou surpreso que você esteja dizendo que vimos um óvni e depois acobertamos isso. Nada foi acobertado. Olhei para fora e vi uma luz se movendo em direção às estrelas. Não queríamos falar nada que faria com que as pessoas pensassem: “oh, Houston, tem uma luz nos seguindo até a lua!” Isso chocaria muitas pessoas na Terra. Mas nós queríamos fazer uma observação, então, inocentemente, nós perguntamos: “Controle de solo, o quão longe está o estágio superior do foguete?” Eles responderam e disseram que estava a cerca de 9.600 km de distância. Pela minha experiência, eu sabia que tinham quatro objetos lá fora, que eram os painéis que foram lançados para fora do foguete para expor a nave. Depois, quando estávamos em quarentena após retornarmos da Terra, a gestão de alto nível veio conversar conosco por detrás de uma janela. O Neil disse: “Gente, vocês provavelmente estão se perguntando por que nós perguntamos o quão distante estava o terceiro estágio do foguete.” Eles disseram: “Sim, aquilo foi um enigma.” O Neil explicou que foi porque nós tínhamos visto uma luz, que eram obviamente os painéis sendo lançados para fora.

Pensávamos que todos sabiam disso e, durante uma entrevista com a BBC, eu contei a história toda. Os ufólogos dos Estados Unidos ficaram muito bravos comigo por não lhes ter contado primeiro! [Risadas.] Nós sabíamos que não era um óvni. Mas isso não impede a história de se espalhar pelas pessoas que estão procurando por qualquer coisa que eles possam chamar de um encobrimento ou de um óvni.

A famosa frase que você usou para descrever a Lua foi “magnífica desolação. Você poderia falar sobre isso?

Aldrin – fotografado aqui na sede do National Geographic em Washington, D.C. – acredita que dentro de duas décadas os Estados Unidos levarão equipes internacionais para aterrissar em Marte.

Como o comandante de voo, Neil ia ser o primeiro a pisar na Lua e a dizer algo histórico, o que ele fez. Então eu desci, olhei em volta e nada estava preparado. Se eu tivesse sido o primeiro a descer, eu não teria consultado filósofos ou historiadores para me ajudar a dizer a coisa certa. Mas eu não fui o primeiro. Então, eu só juntei as palavras que vieram na minha cabeça para representar a magnificência da conquista humana. Ao longo da história, nós sonhamos com a Lua e nos perguntávamos se as pessoas algum dia iriam lá. A magnificência da nossa conquista para a humanidade era que nós estávamos lá. Mas quando eu olhei ao redor, vi a vista mais desolada possível. Sem oxigênio, sem vida, apenas a superfície lunar, que não muda há milhares de anos, e a escuridão do céu. Foi a coisa mais desoladora que eu já vi. E foi por isso que eu disse aquelas palavras: a magnificência da conquista e a desolação de onde estávamos.

Você, controversamente, comungou na Lua com vinho e óstia que você tinha “contrabandeado” a bordo da espaçonave. Fale sobre aquele acontecimento e se você o faria de novo hoje.

Nada foi contrabandeado a bordo. [Risadas.] Todas as lembrancinhas, todas as bandeiras ou moedas que carregamos foram contadas, documentadas e estocadas cuidadosamente na espaçonave. Então, algumas semanas antes de decolarmos, pensei que seria uma boa ideia se eu contasse ao cara responsável pela equipe de bordo o que eu ia fazer. Ele disse: “Só não fale sobre isso quando você estiver na lua”. Quando a equipe do Apollo 8 leu Gênesis na véspera do Natal, algumas pessoas reclamaram que, como uma instituição financiada pelo governo, a Nasa não deveria promover a religião. Então foi só alguns anos depois que eu me senti bem para falar sobre isso.

Eu estava envolvido, assim como John Glenn e alguns outros astronautas, com uma igreja em particular. Senti que era apropriado demostrar a minha criação cristã. Hoje a minha filosofia é mais parecida com o que Albert Einstein chamou de sentido cósmico de um grande poder envolvido na criação do universo. Não é nada específico.

Após voltar para a Terra, Aldrin (à direita) e os outros astronautas do Apolo 11 ficaram em quarentena para assegurar que não tinham trazido doenças desconhecidas para a Terra.

Uma das surpresas no seu livro é que, após o triunfo da chegada à Lua, as coisas se desmoronaram para você. A sua mãe se matou e você lutou contra o alcoolismo. Você poderia falar sobre esse período da sua vida?

O título da minha primeira autobiografia não era Viagem para a Lua. Era chamada de Volta à Terra, que descrevia melhor a minha situação ao voltar. Depois de deixar a Nasa, esperei ser escolhido o comandante de cadetes da Academia da Força Aérea dos Estados Unidos. Eu estava estacionado lá há alguns anos e eu era assessor do decano do departamento. Mas esse cargo foi para um colega de classe de West Point, cujo pai era um general de quatro estrelas da Força Aérea dos Estados Unidos.

Em vez disso, fui encarregado de comandar uma escola de pilotos de teste, o que era irônico porque eu era o único da equipe que nunca foi treinado como um piloto de teste, como foi pedido para todos os astronautas anteriores. Eu estava interessado no espaço e não em aviões. Então, após um ano, decidi me aposentar da Força Aérea. Eu já tinha deixado a Nasa e não estava ansioso para me juntar a alguma corporação. Eu não tinha certeza de como o resto da minha vida seria.

Quando voltei da Lua, tornei-me uma celebridade, um herói com desfiles em carro aberto e discursos. Mas aquilo não era o que eu realmente queria ou desejava. A minha mãe tinha ficado inquieta com a minha fama depois do meu primeiro voo ao espaço com a Gemini XII, alguns anos antes. Eu e a minha irmã mais velha concluímos que talvez, junto com outras coisas, isso causou o suicídio da minha mãe. O pai dela, o meu avô, também cometeu suicídio e o meu tio teve filhas que se mataram.

Comecei a pensar que era uma tendência genética e herdada. Isso fez com que eu consumisse mais e mais álcool e, claro, você não pode ajeitar algo na sua cabeça a não ser que tenha uma mente limpa. Primeiro você precisa ficar sóbrio e depois lidar com as outras situações que o estão perturbando. Estou sóbrio a 37 anos. Se a minha mente acha que o mundo ao redor está fazendo algo que eu não quero que ele faça, posso desaparecer por um dia ou até uma semana. Isso é algo com o qual tive que lidar.

“Quando voltei para a Terra, tornei-me uma celebridade, um herói com desfiles em carro aberto e discursos,” relembrou Aldrin, fotografado aqui durante a Turnê da Boa Vontade em Tóquio, em 1969. “Mas aquilo não era o que eu realmente queria ou desejava.”

Claro que foi o Neil Armstrong que fez aquele “grande salto para a humanidade” ao se tornar o primeiro homem a pisar na Lua. Você fica chateado de ser conhecido como o segundo homem a pisar na Lua?

Na época, de jeito nenhum. Como o membro mais veterano da equipe, era apropriado ele ser o primeiro. Mas após anos e anos de ser chamado para falar para um grupo de pessoas e ser apresentado como o segundo homem a pisar na Lua, isso começou a ficar um pouco frustrante. Era realmente necessário chamar a atenção da multidão para o fato de que outra pessoa foi a primeira, quando todos nós passamos por treinamento, todos aterrissamos ao mesmo tempo e todos contribuímos? Mas pelo resto da minha vida sempre vou ser lembrado como o segundo homem a pisar na Lua. [Risadas.]

A sua camiseta favorita diz: “Vá para Marte.” Fale sobre a sua visão de um assentamento permanente no Planeta Vermelho. Esse não é um sonho muito longe de ser alcançado?

Nenhum sonho está longe demais. Mas, claro, ir para Marte é muito mais difícil do que ir para Lua. Não irá acontecer enquanto estiver vivo, a não ser que eu morra com 110 anos. [Risadas.] Mas o meu filho estará por perto para ver isso. Ele está trabalhando muito diligentemente com o  Instituto Espacial Buzz Aldrin que fundei junto com o Instituto de Tecnologia da Flórida.

Estamos desenvolvendo o meu plano que chama Ciclo de Caminhos para Marte. Primeiro, nós teremos uma espaçonave que fará uma órbita baixa terrestre. O segundo ciclo será uma base na Lua que os Estados Unidos projetarão, mas outros países vão ajudar a construir e aterrisar. Equipes ficarão lá de seis meses a um ano, e então voltarão para a Terra para começar a treinar para ser a primeira equipe a aterrissar em Marte. Acredito que dentro de duas décadas os Estados Unidos levarão equipes internacionais para aterrissar em Marte.

Buzz Aldrin anda pela Lua e deixa suas pegadas. Ele é famoso pela descrição da paisagem lunar como “magnífica desolação”.

Quais são as lições chaves que você gostaria de passar para a próxima geração?

Não tive uma vida perfeita. Tive que lidar com muitas mudanças e desafios. Fiz missões de combate durante a Guerra da Coréia, vivi sob a ameaça de aniquilação nuclear e encarei vários desafios no programa espacial e na minha própria vida. Ao longo do caminho, descobri que eu poderia contribuir usando a minha inovação para pensar fora da caixa para servir melhor o meu país. Fiz um juramento de fazer isso quando eu tinha 17 anos e eu continuo motivado por isso, não pelo ganho financeiro. Não sou conduzido pelo o que volta para mim. É a satisfação de saber que estou ajudando a traçar um curso para outros, para juntar as nações.

É uma parte muito importante disso. Passei muito tempo procurando maneiras de aumentar a nossa parceria amigável com a China, do jeito que fizemos com a União Soviética, com uma missão conjunta no espaço. Podemos fazer com os chineses e com outras nações de uma maneira igual e produtiva que seja melhor ainda do que o programa Apollo.

Que vida mais significativa uma pessoa poderia pedir? É uma vida muito agitada, mas é uma oportunidade enorme para eu prestar serviços para outras pessoas.

Essa entrevista foi editada para maior facilidade de sua leitura.

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