‘Lado oculto’ da Lua é alcançado pela primeira vez por sonda chinesa. E agora?

Nenhum humano ou robô havia alcançado essa parte do satélite natural até agora. Descubra o que a sonda pretende fazer lá e o que deve ocorrer na superfície lunar.quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Na noite de 2 de janeiro de 2019, uma espaçonave chinesa batizada em homenagem a uma antiga deusa lunar tocou o ‘lado oculto’ da Lua, onde nenhum homem ou robô havia chegado antes. A missão Chang’e-4 foi lançada em direção ao satélite natural em 7 de dezembro do ano que passou e entrou em sua órbita em 12 de dezembro. Agora, a sonda pousou na superfície lunar.

Até este momento histórico, eram poucos os detalhes sobre a Chang’e-4. A Administração Espacial Nacional da China (China National Space Administration, em inglês) é notoriamente reservada; a última atualização dada foi em 30 de dezembro, quando oficiais da companhia anunciaram que a espaçonave havia entrado em sua órbita imediatamente antes do pouso. Ao redor do mundo, cientistas e entusiastas se juntavam no Twitter e em fóruns online antes da aterrissagem para trocar informações enquanto liam as últimas notícias dadas por jornalistas bem informados, contas de Weibo e astrônomos amadores que rastreavam a órbita de Chang’e-4.

Uma vez que a confirmação de que Chang’e-4 havia pousado chegou, no entanto, a incerteza deu lugar à alegria.

“É realmente um momento histórico e estou muito, muito animado!”, escreveu Long Xiao, geocientista planetário na Universidade China de Geociências, em e-mail para a National Geographic, logo após ter recebido a notícia do pouso. “Com a aterrissagem de sucesso e as fotos tiradas pelo lander e pelo rover logo mais, eu estou muito ansioso para ver a verdadeira face do lado mais distante da Lua”.

“Eu pessoalmente me sinto muito animado e orgulhoso pelo êxito da operação do Chang’e-4, já que esta não é apenas uma conquista impressionante, mas também por conta do potencial científico da missão”, disse Le Qiao, geólogo lunar na Universidade de Shandong, em Weihai.

Quer saber mais sobre a missão, seus objetivos científicos e seu significado global? Nós ajudamos você.

O que é a Chang’e-4 e o que há de significativo sobre seu pouso?

A sonda Chang’e-4 é a última missão enviada para a Lua pela CNSA, a agência espacial chinesa. As primeiras duas missões lunares foram orbitárias, e a terceira foi um conjunto de lander e rover que aterrissaram com sucesso no lado mais próximo do satélite natural em 2013. A Chang’e-4 consiste de um lander e um rover, assim como um satélite de retransmissão, e seu objetivo é descer com sucesso no lado mais distante da Lua.

“É o primeiro do tipo”, diz o cientista planetário de Notre Dame Clive Neal, especialista na geologia da lua. “A Chang’e-4 representa a primeira vez que qualquer nação já tentou colocar um lander no lado mais distante da Lua para então liberar um rover para exploração”.

“Os dados enviados devem nos prover informações importantes para desvendar os segredos de nossa Lua, do lado nunca antes visto!”, escreve Xiao. “Meus dedos estão cruzados!”.

O que é exatamente o lado mais distante, ou ‘lado oculto’, da Lua?

A Lua tem orbitado a Terra por mais de 4,5 bilhões de anos e, durante esse tempo, a força gravitacional vem forçando a rotação lunar a sincronizar com a sua. Como resultado, a Lua rotaciona tanto em volta de seu eixo quanto na órbita da Terra a cada 28 dias. Isso quer dizer que o mesmo lado da Lua sempre fica de frente para nós, e o lado mais distante, ou ‘oculto’ é sempre a mesma metade que não conseguimos ver daqui.

Você pode ter ouvido alguns se referirem a essa área como o “lado escuro” da Lua, mas isso está errado. À medida que o satélite orbita a Terra, precisamente metade dela é banhada pela luz do sol a todo o tempo. Durante a Lua nova, o lado mais perto de nós é encoberto pela escuridão, mas o lado mais distante é completamente iluminado. De fato, o lado oposto a nós é mais claro em seus tons, já que não possui as bases escuras que ficam na parte virada para a Terra.

O que é uma Superlua?
A superlua ocorre quando a lua cheia está no ponto da sua órbita mais próximo à Terra. Esta posição da lua, em qualquer uma de suas fases, é chamada de perigeu. Normalmente, acontece  uma vez a cada 14 meses. Então, fique de olho para não perder uma visão estonteante da lua.

Por que ninguém pousou no lado mais distante antes?

É difícil manter comunicação com a Terra enquanto se está naquele lado, já que a própria Lua bloqueia o contato por rádio. Quando os astronautas da Apollo orbitaram aquela parte, eles foram totalmente desconectados de toda humanidade.

A missão Chang’e-4 resolveu esse problema com um satélite de retransmissão. Em maio de 2018, a CNSA lançou um satélite chamado Queqiao na órbita ao redor de L2, um ponto neutro além da Lua onde a gravidade da Terra e do satélite natural cancelou a força centrípeta de um objeto parado ali, permitindo-o estacionar no lugar correto. Já que o Queqiao possui boas linhas de visão tanto para a Terra quanto para o lado mais distante, ele irá fazer a ponta entre o controle da missão e o lander da Chang’e-4.

Dito isso, adicionar um satélite de retransmissão significa que os sinais de rádio devem cruzar uma distância maior, o que aumenta o atraso das comunicações. Isso significa que qualquer lander e rover no lado mais distante, incluindo os do Chang’e-4, devem selecionar sua área de aterrissagem e evitar acidentes por conta própria.

O que vem por aí?

A China possui grandes planos para a exploração lunar. Em sua próxima missão, o Chang’e-5 deve tentar aterrissar e enviar amostragens para a Terra. Se tiver êxito, será o terceiro país a enviar material da Lua e o segundo a fazer isso utilizando robôs. Além deles, a Agência Espacial Europeia anunciou estar trabalhando em um projeto de “vila lunar” para humanos. A agência espacial da Índia irá lançar logo uma sonda para o polo sul do satélite e a Nasa vem dando indícios vagos de querer construir uma estação espacial em 2020 no lugar.

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