Estamos transformando crianças em indivíduos germofóbicos?

A pandemia acentuou o medo de germes nas crianças — mas talvez isso não seja um problema.

Por Connie Chang
Publicado 18 de mar de 2021 07:00 BRT
O álcool em gel virou um item indispensável em nossas vidas no último ano.

O álcool em gel virou um item indispensável em nossas vidas no último ano.

Foto de FLY VIEW PRODUCTIONS / GETTY IMAGES

O filho de 7 anos de Meg St-Esprit sempre teve receio de germes. Ela conta que, se um colega de sala “encostasse uma caneta na boca e colocasse-a de volta no cesto”, ele passaria o resto do dia sem pegar a mesma caneta. 

Mas no último ano, a enxurrada constante de notícias sobre a covid-19 transformou esses medos em uma paranoia. “Ele virou um poço de ansiedade”, relata St-Esprit, mãe de quatro filhos, que mora no estado da Pensilvânia. “Ele chegou a um ponto em que, dentro da nossa casa, dizia: ‘não quero que nenhum dos meus irmãos encoste em mim porque eles podem me passar o vírus.’”

A ansiedade do filho de St-Esprit, intensificada pela covid-19, não é um caso isolado. Uma pesquisa publicada recentemente no periódico American Psychological Society relata que mais de 75% dos adultos entrevistados citaram a pandemia como uma fonte significativa de ansiedade; uma publicação do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, divulgada em novembro passado, citou que a proporção de atendimentos em emergências de hospitais relacionados a condições mentais em crianças de 5 a 11 anos aumentou 24% nos últimos 12 meses.

O medo de germes não é necessariamente um problema. Afinal de contas, estar consciente de possíveis perigos — sejam eles germes, aranhas ou estranhos — tem benefícios evolutivos. O problema, segundo os especialistas, é quando uma preocupação saudável se torna uma obsessão que atrapalha a vida normal.

“A diferença entre ter hábitos saudáveis e ter problemas de saúde mental se resume a quanto essas condições ou comportamentos lhe prejudicam”, explica  Joseph McGuire, professor assistente de ciências psiquiátricas e comportamentais da Universidade Johns Hopkins.

Será que a pandemia irá transformar uma geração de crianças em uma multidão de germofóbicos que evitam encostar em maçanetas e têm sempre álcool em gel à mão? Especialistas dizem que não é provável que isso aconteça — mas que, mesmo assim, os pais devem saber reconhecer os sinais e desenvolver estratégias para ajudar as crianças a lidar com medos naturais.

Fobias, ansiedade e crianças

Medos de infância fazem parte do processo de crescimento, aparecendo e desaparecendo em diferentes estágios de desenvolvimento. Bebês, por exemplo, têm medo de estranhos; crianças pequenas têm medo do escuro.

De acordo com Kate Fitzgerald, diretora do Programa de Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Transtornos de Ansiedade Pediátricos, da Universidade de Michigan, a maioria das crianças perde esses gatilhos de ansiedade quando completam 10 anos, época em que ocorre o amadurecimento da região do cérebro responsável pela adaptação comportamental e tomada de decisões. Mas, em alguns casos, a ansiedade permanece e se torna uma condição diagnosticável.

Germofobia é um termo usado por leigos para descrever o medo exagerado de germes. Por outro lado, sintomas de fobias clínicas são “geralmente desencadeados por estímulos externos visíveis”, explica Fitzgerald. Como não conseguimos ouvir, ver ou sentir o cheiro de germes, casos extremos de “germofobia” costumam estar associados a outros distúrbios.

No entanto vamos encarar a realidade: é difícil definir o que pode ser considerado “extremo” nos dias atuais. Crianças que, em épocas pré-covid se recusavam a lavar as mãos antes do jantar, agora se besuntam de álcool em gel e se afastam de pessoas que não sejam seus familiares. E, nesse mundo novo e estranho, essas preocupações são racionais, e não patológicas.

Mas quando esse comportamento começa a afetar a rotina da criança, a germofobia talvez seja algo a mais. Médicos podem diagnosticar uma criança com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), que é caracterizado por pensamentos obsessivos acompanhados de rituais que aliviam a ansiedade que eles causam (“Não posso queimar a casa, então vou ficar conferindo se o fogão está desligado”) ou transtorno de ansiedade generalizada (TAG), em que preocupações sobre várias questões diferentes persistem por pelo menos seis meses.

Ainda assim, explica McGuire, o medo restrito aos germes é raro. “Na maioria dos casos esse tipo de medo específico não é isolado”, ele diz. Por exemplo, se você restringir a alimentação que consome porque tem medo de ser contaminado, não quer dizer que esteja com medo de um determinado tipo de alimento. O mesmo raciocínio se aplica aos transtornos relacionados aos germes: o medo vai muito além de partículas invisíveis invadindo o corpo.

Baseado em estudos de imagem por ressonância magnética funcional, Fitzgerald criou a teoria que crianças com TOC têm circuitos neurais menos sensíveis, que controlam a tomada de decisões baseada em objetivos. Ela a compara com um sistema de alarme para comportamentos irracionais: para essas crianças, o alarme é muito baixo, então elas têm dificuldades para reagir aos medos irracionais de maneira apropriada. A equipe dela também detectou semelhanças neurológicas em crianças afetadas por TAG e TOC: ambas têm rupturas nas conexões entre as regiões do cérebro que processam ameaças e tomam decisões.

Mas, com esses diagnósticos, há esperança para os germofóbicos. Estudos em adultos mostraram que quando o TOC é tratado — com medicação ou terapia — a atividade anormal nesses circuitos neurais desaparece. Atualmente, Fitzgerald está trabalhando para replicar esses resultados em crianças.

Quando pode haver um problema com seu filho

Gatilhos externos, como uma pandemia, podem induzir distúrbios de ansiedade como o TOC nas crianças, de acordo com Sheryl Ziegler, psicóloga no estado do Colorado. Mas a vasta maioria desses casos apresenta uma predisposição a essas condições, mesmo quando a criança nunca foi diagnosticada. Após a condição ser determinada, em grande parte dos casos, os pais conseguem se lembrar de pequenos sintomas que se apresentaram em estágios anteriores do desenvolvimento da criança, como expressar preocupação extrema ao conhecer pessoas novas.

Ainda resta a grande dúvida: em um mundo afetado por uma pandemia que levou todos ao limite, como os pais podem diferenciar entre respostas racionais e irracionais a uma ameaça real? Ziegler aconselha que os pais analisem os impactos que esses medos exercem no comportamento rotineiro da criança. Alguns pontos a considerar:

• Seu filho expressa sentimentos de impotência? (“Não consigo controlar se alguém fica a dois metros de distância de mim.”)
• As preocupações com germes e contaminação são constantes e incontroláveis, e eles utilizam comportamentos compulsivos para lidar com isso? (“Preciso ficar 10 minutos lavando as mãos toda vez que eu encostar em uma maçaneta.”)
• Eles precisam de tranquilização frequente? (“Você promete que eu não vou ficar doente?”)
• As rotinas são interrompidas porque eles evitam situações em que possam estar em contato com germes? (“Não vou para a escola porque não quero usar o banheiro lá.”)
• Eles exibem sintomas físicos como mãos suadas, coração disparado, falta de ar e dores de barriga e cabeça?

Especialmente agora, explica Ziegler, as respostas podem se encaixar em um amplo espectro de possibilidades e ainda serem consideradas normais. No entanto se a criança se sente ansiosa durante a maior parte do dia, com uma intensidade grande, e não consegue ficar tranquila com uma conversa racional, recorra a um profissional de saúde mental.

O que os pais podem fazer para ajudar os germofóbicos ‘normais’

Até mesmo as crianças com germofobia leve — cuja preocupação saudável com os germes pode ser um pouco obsessiva, mas não afeta a rotina delas — podem se beneficiar com um pouco de ajuda.

Ziegler incentiva os pais a perguntarem para as crianças como elas se sentem e ouvirem as respostas sem interromper ou julgar. Valide as preocupações delas sem fortalecê-las: “sim, a covid-19 ainda está presente na nossa sociedade; ainda é um risco relativo.”

Faça um acompanhamento com pequenos desafios para aliviar a ansiedade: “se você precisar encostar em algo considerado uma área de muito contato, pode lavar as mãos por 20 segundos. Nós realmente achamos que essa é uma maneira segura de remover  das suas mãos tudo que possa ser prejudicial.”

Por fim, exponha-os aos seus medos aos poucos, de maneira segura e controlada. Por exemplo, pode levá-los com você até o supermercado durante períodos com pouco movimento e mostrá-los maneiras sensatas de manter a segurança.

Essas estratégias são boas se os seus filhos têm um nível normal de germofobia ou se a condição deles é mais séria. Elas estão presentes nos tratamentos considerados padrão de referência para TOC e transtornos de ansiedade, que envolvem identificar e desafiar pensamentos negativos, assim como suprimir comportamentos que trazem alívio temporário (como lavar as mãos constantemente).

Os pais também precisam chegar a um equilíbrio saudável entre a preocupação normal e a exagerada, explica Carolyn Ievers-Landis, psicóloga da University Hospitals, em Ohio. “Se você está sempre comentando as notícias ou fazendo certos rituais, seu filho pode pensar: ‘estou mesmo em perigo; isso com certeza vai me afetar’”, esclarece ela.

Distrações também podem ajudar a quebrar o ciclo da obsessão com germes. “Planeje atividades, divirtam-se juntos e certifique-se de que a criança tenha algum tipo de acesso aos amigos e  membros família mais próximos”, sugere Ievers-Landis. Por exemplo, quando a família dela passou meses resgatando sapos de uma piscina que ia ser destruída, a quantidade de notícias negativas sobre o vírus que eles consumiam diminuiu bastante.

Quando a pandemia passar, como será a adaptação de crianças que aprenderam a lavar as mãos constantemente e manter uma distância de dois metros das outras pessoas? Voltar à vida em sociedade será difícil para todos, mas crianças que apresentaram níveis maiores de ansiedade durante a pandemia talvez precisem de tratamento e suporte adicional, argumenta Ievers-Landis.

Mesmo assim, “crianças são incrivelmente adaptáveis e flexíveis, mesmo as mais jovens”, ela adiciona. “Elas irão se adaptar ao novo normal.”

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