Fotografia

O improvável cotidiano dos fotógrafos de guerra

Os bastidores da guerra contra o Estado Islâmico revelam cenas posadas, tédio e emocionantes histórias fora da linha de frente.quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Por Cristina Veit
Em 2 de janeiro, o brasileiro Yan Boechat (no meio, entre os espanhóis Ángel Manuel Sastre e Pablo Cobos) trabalhava em Ganus, a 40 quilômetros de Mosul. O atirador curdo disparava contra posições do Isis logo adiante.

No segundo semestre de 2016, muitos fotógrafos se dirigiram ao norte do Iraque a fim de registrar a luta para libertar Mosul e outras cidades da Planície de Níneve do domínio do Estado Islâmico (Isis, na sigla em inglês). De veteranos em zonas de conflito a jovens freelancers; de fotojornalistas da grande imprensa a fotógrafos fine art com projetos conceituais; passando pelos viciados na adrenalina da linha de frente: esses homens e mulheres são os responsáveis pelas imagens que o mundo todo recebe do conflito. É através do olhar pessoal de cada um deles que podemos nos informar, nos comover, nos indignar. 

[ Assista The State no canal National Geographic. Hoje, 26 de setembro, às 23h20 ]

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As experiências desses profissionais são a base do projeto que batizei de “Fotógrafos em Campo – A Batalha por Mosul”. É meu primeiro ensaio, e o considero uma extensão dos meus anos como diretora de arte e editora de fotos da National Geographic, entre 2001 e 2013. Nunca havia sido atraída pela fotografia de guerra. Mas, em outubro de 2016, me encontrei com dois fotógrafos que partiam para o Iraque: Yan Boechat, experiente em conflitos, e Marcio Pimenta, que veria a guerra pela primeira vez. Fiquei intrigada e, meses depois, também embarquei. A presença brasileira lá era crescente: Mauricio Lima, André Liohn, Alice Martins e Felipe Dana são alguns nomes entre os que se dedicam a essa especialidade até recentemente pouco comum, uma vez que “o país está distante das principais regiões conflagradas do mundo e desde a Segunda Guerra não se envolve militarmente em um conflito”, escreveu o jornalista Diogo Schelp no livro Correspondente de Guerra.  

Assim como todos, fizemos nossa base na relativamente segura cidade de Erbil, no território do Curdistão. A 80 quilômetros de Mosul, Erbil é protegida por vários checkpoints. O Exército controla o trânsito pelas rodovias. Na cidade, hotéis são opção para os profissionais de agências e jornais; já os jovens freelancers alugam quartos em casas, montando repúblicas multinacionais. Compartilhar uma casa facilita dividir os custos do deslocamento até Mosul: o aluguel de um carro, mais o valor da diária de um motorista, tradutor e fixer (uma espécie de produtor de campo), varia entre 80 e 300 dólares por pessoa.

Minha primeira experiência em campo foi marcante: acompanhei os brasileiros João Castellano e Yan Boechat em uma reportagem sobre o Natal de uma família cristã em um campo de deslocados internos. No dia seguinte, assisti à primeira missa realizada em Qaraqosh, cidade cristã recém-retomada do Estado Islâmico – a igreja fora vandalizada pelos terroristas durante a ocupação. Em Erbil, depois de um dia de trabalho, fotógrafos, fixers e jornalistas costumam confraternizar no Teacher’s Club, um misto de restaurante, bar e bingo frequentado também por moradores do bairro cristão Ankawa.

Ao longo dos dois meses e meio em que passei no Iraque, conheci fotógrafos com trabalhos muito particulares. Juntos, levamos alguns sustos: de morteiros caindo próximos ao carro a drones do Isis sobrevoando a área onde entrevistávamos civis.

Quando eu editava a revista, sempre era indagada sobre que tipo de história um fotógrafo devia contar para se destacar. Sempre recomendei que buscassem um assunto com o qual tivessem intimidade. E foi assim que aconteceu este ensaio para mim: à medida que os correspondentes cruzavam o meu caminho, eu estabelecia uma relação para poder registrá-los.  

Confira a reportagem completa: Na linha de fogo na edição de agosto de 2017 da revista National Geographic Brasil.
Publicada por ContentStuff.

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