Ex-escravas sexuais do Isis, mulheres yazidis recuperam a fé e a dignidade

Após anos de terror, as mulheres da minoria religiosa massacrada pelo Estado Islâmico passam por um rebatismo.

É possível sair das sombras do próprio destino? É a pergunta que me faço enquanto escuto uma mulher me contar como ela e um grupo de outras yazidis promoveram uma fuga. Sob um calor de mais de 35 graus, aguardaram anoitecer e então escaparam. Pedras, poeira e escassos arbustos eram tudo que formavam a paisagem. Mas o ritmo que imprimiram na fuga era inalcançável para as possibilidades físicas de Hure Kaso Murad, de 66 anos, e ela acabou ficando para trás. Sozinha, continuou caminhando por um dia e meio até encontrar uma família xiita. Eles a abrigaram e, quando tudo estava mais seguro, ajudaram-na chegar até a região dos curdos.

“Haviam muitos corpos. Eles mataram muitas pessoas lá. Os cães comiam os corpos, as mãos, a cabeça”, conta Hure a respeito dos anos em que viveu como prisioneira do Estado Islâmico, enquanto me serve um chá preto sentada no chão com amigos no templo sagrado de Lalish, norte do Iraque. Ela exibe bom humor e a confiança de quem volta para a segurança de um lar. Hure, assim como outras mulheres yazidis, está renascendo. E é aqui em Lalish, cidade sagrada para seu povo, que elas ganham uma segunda chance de ir em frente. Viverão agora o ritual do batismo para se purificar novamente. Forçadas durante o período de cativeiro a se converterem ao islamismo e violentadas por pessoas que não são da sua tradição, as yazidis precisam passar por este novo batismo para que sejam aceitas novamente em seu grupo. E se reconheçam como yazidis novamente.

“A vida era muito diferente do que é agora”, descreve Turkia Hussein, 25 anos, mãe de dois filhos, sobre a vida antes da chegada do Estado Islâmico. “Tínhamos uma vida muito simples e os campos verdes do Monte Sinjar. Eu não precisava trabalhar, além de cuidar da família. Meu marido era um soldado peshmerga e isso era o suficiente para termos uma vida confortável e em paz. Isso até 03 de agosto de 2014”. Ela relata a madrugada daquele dia quando os militantes do Estado Islâmico (Isis, na sigla em inglês) chegaram a Sinjar. Daquele dia em diante tudo mudaria para os yazidis, um grupo étnico sem território próprio que, além do norte do Iraque, também habita partes da Síria, Turquia, Irã e Armênia.

“Eles falaram que não iriam machucar ninguém. Disseram que eram contrários ao governo do Iraque e que estavam tentando proteger as famílias”. Mas a verdade era bem diferente. Na frente de muitas mulheres, quase metade dos homens yazidis foram executados a tiros, decapitados ou queimados vivos, enquanto os demais morreram de fome, desidratação ou ferimentos. Os que sobreviveram foram obrigados a lutar ao lado dos militantes. As mulheres mais novas seriam usadas como escravas sexuais e as mais velhas ajudariam com serviços de casa. Turkia tentou fugir com a família: todos entraram num carro e aceleraram pela estrada que os levaria ao Curdistão iraquiano. Mas no caminho foram interceptados pelo Isis. Separada da família, Turkia foi levada para a Síria, onde foi forçada a decorar o Alcorão antes de ser levada de volta para o Iraque, onde viria se tornar escrava sexual. Um pesadelo que durou dois anos – período em que foi vendida 13 vezes.

A história destas mulheres é importante para tantas outras que vivem sob um contexto de conflito se reconheçam e encontrem nelas exemplos de resiliência. A coragem talvez seja inspirada em Nadia Murad, também yazidi e que assim como elas foi capturada, tornou-se escrava sexual até finalmente fugir e denunciar para o mundo o horror que viveu. Tornou-se a porta voz das yazidis e foi indicada para o Prêmio Nobel em 2016. “As mulheres agora estão sendo reintegradas à sociedade. Elas têm todo o direito de levar uma vida plena”, diz Silvia Zunino, diretora de uma ONG que contribui nessa recuperação. Segundo ela, as mulheres yazidis foram forçadas durante o período de cativeiro a se converterem a um tipo de islamismo cego dos radicais e agora precisam ser rebatizadas.

Na visão dos terroristas do Isis, o povo Yazidi deve ser extinto da face da Terra. Isso porque os yazidis acreditam em Deus como criador do mundo, que o colocou sob o cuidado de sete anjos, cujo líder arcanjo é Tawûsê Melek (mais conhecido como Melek Taus em publicações em inglês) – ninguém menos que o próprio Diabo ou Satanás, segundo os islâmicos e cristãos. Por isso é comum que os yazidis sejam conhecidos como “adoradores do demônio”, o que lhes custa preconceitos que explicam em parte as diversas perseguições e tentativas de genocídios que sofreram ao longo dos séculos – antes do Isis, eles foram atacados por Saddam Hussein. A verdade, porém, é que não os yazidis não percebem Tawûsê Melek como o Demônio – exceto pelo fato de que reverenciam o arcanjo pela recusa a se submeter a um pedido de Deus de curvar-se para Adão, enquanto os demais anjos se curvaram. Para os yazidis, o bem e o mal existem na mente e no espírito dos seres humanos – depende deles próprios escolher o caminho. Nesse processo, a devoção a Tawûsê Melek é essencial, pois foi ele quem, entre o bem e o mal, escolheu o bem, obedecendo à primeira ordem de Deus.

Turkia tenta encontrar palavras que expliquem o que aconteceu com ela. Depois da captura, os militantes separaram as mulheres jovens das adultas, as que já haviam sido casadas e as solteiras, distinguindo assim entre as virgens e não virgens. A cada vez em que eram negociadas entre os militantes, a violência aumentava em torturas, espancamentos e violência sexual. Após ser negociada por mais de uma dezena de vezes entre diferentes militantes do Estado Islâmico, Turkia elaborou um plano para conseguir sua liberdade. Ela cortou a própria gengiva e deixou sangrar por dias. Ela dizia para seu mais recente proprietário que estava doente, com câncer e, portanto, se tornara um fardo e não valia a pena para ele. Foi quando então, através de uma rede de tráfico de pessoas, a família dela foi chamada e recebeu a oferta de comprar Turkia. Ela estava, enfim, livre novamente.

De volta a Lalish, elas seguem a tradição de seu povo. Pelo menos uma vez na vida, espera-se que os yazidis façam uma peregrinação de seis dias para lá e visitem o túmulo de xeique Adî ibn Musafir, morto em 1162, e outros lugares sagrados. Os yazidis adotaram Adî como seu santo arquetípico, para eles uma encarnação de Tawûsê Melek. É neste templo que fica a fonte sagrada Zamzam, em uma caverna abaixo do santuário do xeique Adî.  

Turkia e Hure estão acompanhadas de familiares, principalmente crianças que haviam deixado no momento que foram raptadas. Outras famílias yazidis que trouxeram seus filhos para serem batizados acenam para elas como um gesto de boas vindas. Elas se dirigem a uma pequena antessala, onde Asmar Asmail irá realizar o batismo com a água que mina de uma pequena fonte. O ritual não leva mais que alguns minutos. Em seguida se dirigem a um outro prédio vizinho. Na entrada, beijam os mármores de sustentação, um gesto repetido por todos os visitantes. Abre-se então um grande salão repleto de tecidos em cores vibrantes, chamados por eles de parys. Cada uma delas deve dar três nós nestes tecidos e pedir desejos para elas mesmas ou para alguém que queiram bem. Em seguida, todas descem por uma passagem estreita até encontrar a segunda fonte sagrada, chamada Zamzam. Ali, Turkia lava seu próprio rosto com as águas sagradas. “Eu já não acreditava que iria sobreviver”. Hure Kaso Murad reza em voz alta para todos os presentes. “Sou yazidi novamente”.

Marcio Pimenta fotografa e escreve histórias de interesse humano, com temas que vão desde a cultura dos povos a impactos ambientais. Esteve por duas vezes na guerra do Iraque para documentar o impacto do conflito armado na vida de pessoas comuns. Esta é a sexta história dele para a National Geographic.

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