Cinco anos depois, desalojados por barragem de Mariana ainda não foram reassentados

Acordo entre Justiça e empresas determinou que nova vila ficasse pronta até março de 2019. Mas depois de sucessivos atrasos, o Novo Bento ainda está longe de ser concluído.

Publicado 5 de nov de 2020 09:54 BRST
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Após sucessivos atrasos, a data final é 27 de fevereiro de 2021. Mas esta imagem aérea feita em 1 de novembro mostra que ainda há muito o que construir.

Foto de Gustavo Basso

Em meio ao silêncio das ruínas, cada vez mais tomadas pela vegetação, duas casas movimentadas chamavam atenção em Bento Rodrigues durante o feriado de Finados, na última segunda-feira. Há exatos cinco anos, o distrito, que é parte do município de Mariana, Minas Gerais, tornou-se uma vila fantasma. Em 5 de Novembro de 2015, a barragem de rejeitos de minério de ferro de Fundão, da mineradora Samarco, se rompeu, arrasando dezenas de casas em um tsunami de 55 bilhões de litros de lama contaminada. As poucas construções que ficaram de pé, na parte mais alta da região, foram saqueadas poucas semanas após a retirada dos corpos das 18 vítimas de um dos maiores desastres socioambientais do país e uma das maiores tragédias envolvendo barragens de mineração no mundo. Uma pessoa jamais foi encontrada.

Mas Sidnei Sobrero ainda resiste. Ele passa seu tempo livre na antiga sede da Ahobera, associação que produz geleia de pimenta biquinho, uma iguaria local. “Minha casa, próxima à igreja de São Bento, foi destruída, então a associação virou minha casa aos finais de semana”, conta, lamentando o abandono da parte alta do Bento Rodrigues. “Se minha casa ainda estivesse de pé, jamais deixaria assim, com o mato tomando conta.”

Sobrero conta que não acreditou quando ouviu, naquele 5 de novembro, que a barragem havia rompido. “Era uma piada velha, falava-se muito que ‘rompeu a barragem do Bento’, como se fosse engraçado”, disse Sobrero, que estava no centro de Mariana – em outra unidade da Ahobera, onde ainda trabalha – na hora do desastre. “Mas, quando cheguei perto, já senti aquele cheiro forte de soda cáustica da lama, ardia até os olhos, e aí a piada perdeu toda a graça.”

Na casa vizinha à associação, também aos fins de semana e feriados, vive Terezinha Quintão, que abriga outros sete parentes, muitos desalojados pela lama. Sem água sequer para regar os pés de milho, que acabaram devorados por carcarás, Quintão depende dos caminhões-pipa providos pela Renova para abastecer as garrafas que armazenam água no quintal. “É um ato de resistência. A gente empurra a semana toda vivendo a vida dos outros, na casa dos outros, na cidade dos outros, esperando chegar o fim de semana”, conta a aposentada.

Novo Bento atrasado

Ela diz não se esquecer por um só dia do cenário da tragédia e conta que a sobrinha, com três anos à época, até hoje tem pesadelos. Mas do que se lembra com maior nitidez é a sensação de humilhação. “A polícia nos conduziu no dia seguinte para fora daqui em fila, como se fôssemos criminosos”, diz Quintão. E essa sensação continua até hoje, com a população de Mariana colocando a culpa em nós pela parada da mineração da Samarco e a demora em entregar nossas novas casas."

Sidnei Sobrero hoje aluga sua escavadeira para a construção do Novo Bento Rodrigues. “Não sei por que demora tanto a construção, porque dinheiro e material não falta.”

Foto de Gustavo Basso

A casa de Terezinha Quintão foi a única, dentre as de quatro irmãs, que permaneceu de pé em Bento Rodrigues. Elas visitam o lugar, que não tem luz elétrica ou água, aos fins de semana e feriado.

Foto de Gustavo Basso

A Fundação Renova está construindo as novas casas em uma nova vila, a 10 km do antigo distrito, numa região conhecida como Lavoura. Criada em 2016 sob o Termo de Transação e de Ajustamento de Conduta firmado entre a Samarco e suas controladoras – a brasileira Vale, maior produtora de minério de ferro do mundo, e a anglo-australiana BHP, segunda maior –, a Renova é responsável pelos esforços de recuperação do meio ambiente e reparação dos danos dos moradores atingidos em 45 municípios em Minas Gerais e Espírito Santo.

O Novo Bento foi prometido para março de 2019 em acordo entre a Justiça de Minas Gerais e a Renova, mas sofreu sucessivos atrasos. Pouco antes de findar o prazo original, a data foi estendida para 27 de agosto de 2020. No entanto, com a pandemia, a Renova suspendeu voluntariamente as atividades em 23 de março, que chegaram a ser retomadas no dia 5 de maio, mas foram interrompidas novamente por determinação da prefeitura de Mariana. Somente em 15 de junho as obras voltaram.

O novo prazo definido pela 2ª Vara Cível da Comarca de Mariana é 27 de fevereiro de 2021, mas é improvável que ele se cumpra. Imagem aérea feita nesta semana mostra que ainda há muito a ser construído em apenas poucos meses.

Segundo a fundação, a previsão é de que, até o fim de 2020, 95% da infraestrutura urbana do novo bairro esteja concluída. Em nota, a assessoria disse que “o programa de reassentamento tem como missão restabelecer os modos de vida e a organização das comunidades que perderam suas casas nos distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, em Mariana; Gesteira, em Barra Longa; e as comunidades rurais dos respectivos municípios”. Além disso, afirma que, até que as vilas e as propriedades sejam reconstruídas, todos têm o direito à moradia assegurado pela fundação na região de Mariana e Barra Longa.

A antiga casa e bar de José Barbosa está marcada com a altura que a lama da Samarco atingiu.

Foto de Gustavo Basso

Vegetação toma conta das construções de Bento Rodrigues cinco anós após uma das piores tragédias socioambientais da história do país.

Foto de Gustavo Basso

Ainda de acordo com a Renova, cerca de R$ 1 bilhão foram desembolsados para os reassentamentos até agosto desse ano, e os projetos deverão receber 300 famílias quando finalizados.

Estrago ampliado

Além de Bento Rodrigues, os distritos de Paracatu de Baixo, em Mariana, e Gesteira, no município de Barra Longa, também foram destruídos. Este último foi o único cuja região central foi invadida pelo barro. Já ao atingir a bacia do rio Doce, os rejeitos passaram a afetar a renda de centenas de milhares de pessoas que vivem no trecho de 682 km de rio que vai desde Mariana até sua foz no distrito de Regência, em Linhares, no Espírito Santo.

Estudos indicam que a recuperação do ecossistema poderá levar até 100 anos, devido à perda da “memória ecológica” e o vasto período de permanência e ação dos Elementos e Substâncias Potencialmente Tóxicos despejados pelo rompimento da barragem de Fundão.

A poluição da água e do solo tem prejudicado pescadores e agricultores ao longo de toda a bacia do rio Doce. O relatório de um estudo da Universidade Estadual de Feira de Santana com girinos coletados em diferentes pontos da bacia, realizado em 2017, apontou contaminação por metais pesados mesmo em áreas onde a lama não atingiu diretamente. E pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro divulgaram um relatório em abril daquele ano que identificou contaminação por ferro e manganês na água de poços artesianos da região.

Ao todo, cerca de 500 mil pessoas foram diretamente afetadas pelo rompimento, segundo cálculos da Justiça. A Renova afirma ter destinado R$ 2,6 bilhões em indenizações e auxílios financeiros emergenciais para aproximadamente 321 mil pessoas até setembro deste ano.

Um levantamento feito pela consultoria dinamarquesa Ramboll a pedido do Ministério Público Federal (MPF) aponta que menos da metade das quase 65 mil solicitações de cadastro de famílias atingidas pela lama entre Barra Longa e Regência foram contemplados. Desses cadastros, apenas 31% incluem informações de renda antes e depois do desastre, uma informação essencial para destinar indenizações justas. Na última semana, o MPF entrou com um mandado de segurança contra "reiteradas condutas abusivas praticadas pelo juízo da 12ª Vara Federal e Agrária da Seção Judiciária do Estado de Minas Gerais". De acordo com a procuradoria federal, mineradoras, juiz federal e uma advogada capixaba combinaram ações judiciais de modo a agilizar indenizações abaixo valor do devido a atingidos de Baixo Guandu, no Espírito Santo, e Naque, Minas Gerais.

Cavalos desfrutam da pastagem abundante que encobre a antiga vila.

Foto de Gustavo Basso

Gado pasta no vasto pasto que cresce no antigo Bento Rodrigues. O distrito foi o mais afetado pela lama, que também encobriu Paracatu de Baixo, em Mariana, e Gesteira, em Barra Longa, Minas Gerais.

Foto de Gustavo Basso

No município de Mariana, o cadastro está sendo realizado pela assessoria técnica dos atingidos da organização Cáritas, que utiliza metodologia participativa e é um exemplo de conquista dos atingidos.

A Renova alega que os moradores que requerem indenização por danos decorrentes do rompimento precisam comprovar residência nos locais atingidos à época. Até 31 de agosto, 382 famílias aceitaram as propostas de indenização, somando 345 pagamentos realizados em Mariana – um total de R$ 161 milhões.

Enquanto o Novo Bento Rodrigues não fica pronto, Sobrero e a família Quintão observam os cavalos e vacas que, soltos pela área, aproveitam a oferta irrestrita de pasto em meio às ruínas que, em pouco tempo, devem desaparecer. “Eu já não tenho esperança de ver a cidade pronta”, lamenta Sobrero. “Pra mim, isso vai ficar para os meus filhos porque eu já tenho 50 anos. Até receber minha casa, já estarei andando de bengala”.

Entre uma prosa e outra,“quase sempre sobre o mesmo tema”, ao lado do fogão à lenha , Simaria Quintão diz não compreender o efeito da pandemia sobre as obras do bairro tão aguardado. “A Vale teve lucro três vezes maior em 2020 que em 2019, mantendo a produção. Nenhuma mineradora parou durante a pandemia, só parou as obras do Novo Bento.”

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