O que os rostos impressos nas cédulas podem revelar sobre um país?

Símbolos tangíveis da identidade de uma nação, as cédulas de dinheiro são fragmentos de sua história – do acerto de contas da África do Sul com o apartheid aos desafios de unir um país após a Guerra da Bósnia.

Por Amy McKeever*
Fotos de Janusz Pieńkowski
Publicado 27 de mar. de 2021 12:00 BRT

 

 

Foto de JANUSZ PIEŃKOWSKI

Adornado com citações, emblemas e imagens históricas, o dinheiro é um dos símbolos mais tangíveis da identidade de uma nação. Assim como a identidade, o modelo das moedas e cédulas de um país também evolui – e o processo pode ser delicado.

Foi assim nos Estados Unidos, com o plano de colocar o rosto da abolicionista Harriet Tubman na cédula de 20 dólares, em substituição ao antigo presidente americano Andrew Jackson. Embora o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos esperasse lançar o novo modelo a tempo da comemoração do centenário do sufrágio feminino em 2020, o plano foi por água abaixo com a crítica do então presidente Donald Trump, que considerou o ato “politicamente correto”. Agora, no entanto, a equipe do governo de Joe Biden anunciou que vai seguir em frente com o novo modelo.

Esta semana, o Banco Central da Inglaterra anunciou a nova nota de 50 libras, que estampará o retrato de Alan Touring, matemático pioneiro da ciência da computação morto em 1954 que, em vida, foi perseguido pelo governo britânico por sua orientação sexual.

Mas como os países determinam quais rostos estamparão suas moedas e o que isso nos revela sobre o passado? Veja a seguir algumas cédulas do mundo inteiro e as histórias por trás das suas criações – desde as negociações delicadas para criar uma moeda na Bósnia após uma guerra civil, até as nações que usaram suas moedas como um meio para superar o colonialismo e acertar as contas com o passado racista.

Esquerda | O médico sanitarista Oswaldo Cruz estampou a face das notas de 50 mil cruzados impressas entre 1986 e 1990. O prédio da Fiocruz, fundação que leva seu nome e hoje está em evidência por conta da fabricação de vacinas para covid-19, ilustra o verso.

 

Direita | A cédula de 100 cruzados novos com o rosto de Cecilia Meireles foi produzida apenas em 1989. Junto com a princesa Isabel, a poeta é uma das únicas duas mulheres a aparecerem nas notas brasileiras.

Foto de JANUSZ PIEŃKOWSKI

Brasil

As primeiras cédulas brasileiras foram impressas no século 19 e estampavam os imperadores da época. Com o fim da monarquia, em 1989, uma figura passou a aparecer com frequência nas diferentes moedas que circularam desde então: a efígie da República, símbolo da Revolução Francesa.

Mas, junto com ela, dezenas de personalidades brasileiras apareceram nas incontáveis denominações criadas para estabilizar a inflação, um problema crônico da economia do país. A maioria fazia parte da elite política, mas também se imprimiu dinheiro com cara de artista – entre eles, Carlos Drummond de Andrade, Mario de Andrade, Cândido Portinari e Cecília Meirelles, que enfeitaram notas de cruzeiros, cruzados e cruzados novos.

A partir de 1995, com o Plano Real, a efígie passou a dividir as cédulas com animais símbolos da fauna local. O último a ser incluído, o lobo-guará, está ameaçado pelo destruição do seu principal habitat: o Cerrado.

Nas notas atuais, a efígie – batizada como Mariana, nome comum na França de então – usa um gorro. Trata-se do barrete frígio, peça associada a escravos gregos e romanos emancipados e cujo uso foi resgatado pelos revolucionários franceses.  

Esquerda | Celebrado como o “pai da nação”, Michael Somare foi o político que liderou o movimento para tornar a Papua-Nova Guiné independente da Austrália. Somare, que agora estampa a nota de 50 kinas, foi o primeiro-ministro que ficou mais tempo em atividade e o primeiro a ocupar esse cargo.

 

Direita | Muitos países usam cédulas de dinheiro para honrar antigos líderes. Seewoosagur Ramgoolam liderou o movimento para acabar com o colonialismo britânico nas Ilhas Maurício. Em 1968 ele se tornou primeiro-ministro e agora aparece na nota de 2 mil rupias.

Foto de Janusz Pieńkowski

Estados Unidos

Em 1866, houve uma polêmica quando o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos lançou uma nota de cinco centavos com o retrato de Spencer Clark, o primeiro diretor da instituição que hoje é conhecida como Departamento de Impressão e Gravura. Alguns membros do Congresso não gostavam de Clark, tendo o acusado alguns anos antes de fraude e “grave imoralidade”. (Um comitê do Congresso indeferiu as acusações.)

Após protestos da população, em 7 de abril de 1866, o Congresso aprovou uma lei que proibia a representação de “retratos de pessoas vivas” nas moedas do país. A lei norte-americana proíbe até hoje o uso de representações de pessoas vivas, nem mesmo moedas comemorativas em homenagem a antigos presidentes podem ser lançadas em um prazo inferior a dois anos após a morte de um presidente.

Hoje o país celebra presidentes antigos e os founding fathers (pais fundadores) em sua moeda – com retratos de George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln, Alexander Hamilton, Ulysses S. Grant e Benjamin Franklin decorando as cédulas.

Bósnia e Herzegovina

As cédulas da Bósnia e Herzegovina carregam imagens de escritores famosos do país, mas essa decisão foi motivada mais pelo desejo de evitar conflitos do que por admiração literária. Em 1995, o Acordo de Dayton encerrou anos de guerra civil na Bósnia e criou um único Estado com duas partes, a República Sérvia e a Federação da Bósnia e Herzegovina.

De maneira similar, a nova nação teria uma única moeda, o marco conversível da Bósnia, mas emitiria duas versões, para refletir a identidade cultural de cada parte do Estado. Porém as cédulas precisavam ser conexas e os primeiros modelos foram rejeitados por violarem essa exigência – incluindo um modelo controverso representando o herói sérvio Gavrilo Princip, famoso por iniciar a Primeira Guerra Mundial ao assassinar o arquiduque austro-húngaro Francisco Ferdinando.

Esquerda | Na sequência de uma guerra civil implacável, Bósnia e Herzegovina criaram duas versões de cada cédula para representar sua identidade cultural dividida. Por isso, algumas das notas de 50 marcos mostram o poeta bósnio do século 20 Musa Ćazim Ćatić, e outras honram o poeta sérvio Jovan Dučić.

 

Direita | Da mesma maneira, uma versão da nota de 100 marcos estampa o escritor e ativista sérvio Petar Kočić, acima, e a outra carrega a imagem do poeta bósnio-croata Nikola Šop.

Foto de Janusz Pieńkowski, Alamy

As discussões sobre os modelos das cédulas se arrastaram por tanto tempo que, quando o banco foi aberto em 1997, teve que emitir cupons em vez de cédulas, de acordo com o economista norte-americano Warren Coats, que ajudou a criar o banco. Finalmente os dois lados concordaram em usar retratos de escritores – e até entraram em consenso quando ambos escolheram o romancista Meša Selimović para estampar a nota de cinco marcos. Essa nota já foi descontinuada, mas em 2002 o país criou uma nova nota de 200 marcos com o rosto do escritor vencedor do Prêmio Nobel Ivo Andric.

Nova Zelândia

O modelo de cédula da Nova Zelândia foi um “teste despropositado da evolução da autoimagem do país” desde que ele começou a emitir sua moeda em 1934, de acordo com o historiador Matthew Wright. As primeiras cédulas do território de domínio britânico refletiam uma identidade dividida, representando temas locais e britânicos. As primeiras cédulas carregavam um retrato do rei maori Tawhaio, cuja imagem foi substituída em 1940 pelo retrato do capitão James Cook, o explorador britânico que “descobriu” a Nova Zelândia.

A Nova Zelândia se tornou uma nação autônoma em 1947. No entanto, mais de 20 anos depois, ainda restava algum orgulho em estar associada à Grã-Bretanha. Em 1967, a rainha Elizabeth II substituiu Cook em todas as denominações, junto com plantas e pássaros nativos.

Esquerda | A Rainha Elizabeth II aparece em uma nota canadense de dois dólares. O Canadá foi o primeiro país a representar a imagem da rainha em sua moeda, em 1935. A Grã-Bretanha imprimiria sua primeira nota com o rosto da rainha 25 anos mais tarde.

 

Direita | A rainha Elizabeth II foi representada em moedas de mais de 30 países, porém muitos deles substituíram sua imagem após deixarem de ser colônias britânicas. Em 1991, a Nova Zelândia reformulou sua moeda para mostrar figuras locais, como o líder político e cultural maori Sir Apirana Ngata, que aparece na nota de 50 dólares.

Foto de Janusz Pieńkowski

No final do século 20, a Nova Zelândia passou a se considerar uma nação diversificada e soberana. Em 1991, cinco anos após conquistar  independência total da Grã-Bretanha, a Nova Zelândia tirou a imagem da rainha de todas as notas, com exceção da nota de 20 dólares, e a substituiu por neozelandeses conhecidos – a líder do sufrágio feminino Kate Shepperd, o montanhista Sir Edmund Hillary, o líder cultural e político maori Sir Apirana Ngata e o físico vencedor do Prêmio Nobel Ernest Rutherford –, que ainda estão presentes nas notas atualmente.

África do Sul

Assim como a Nova Zelândia, a evolução das cédulas sul-africanas são um reflexo do acerto de contas do país com sua história como colônia. Em 1961, as primeiras cédulas foram emitidas após a independência da Grã-Bretanha. Em homenagem a seu histórico colonial, no entanto, cada nota carregava o retrato de Jan van Riebeeck, um explorador holandês que, em 1962, fundou uma estação de comércio que se tornaria a Cidade do Cabo.

Van Riebeeck foi o rosto da moeda da nação durante três décadas. Porém, em 1992, quando a África do Sul lutava para desmantelar o sistema racista do apartheid, ele foi finalmente substituído por cinco animais icônicos – rinoceronte, elefante, leão, búfalo-africano e leopardo –, figuras consideradas mais representativos (e aceitáveis) para o povo sul-africano.

A África do Sul fez outra grande mudança 20 anos depois. Em 2012, o país apresentou novas cédulas de dinheiro com o rosto do primeiro presidente negro do país, o ativista contra o apartheid Nelson Mandela. “A moeda de um país é um componente fundamental da sua identidade nacional”, apontou Gill Marcus, diretor do Banco Central da África do Sul, explicando que o novo modelo “reflete o orgulho da África do Sul como nação.” Mandela continua sendo o rosto da moeda sul-africana – e, em 2018, o país emitiu uma série de cédulas comemorativas representando cenas da vida de Mandela, para celebrar o 100º ano do seu nascimento.

Esquerda | Em alusão a seu passado colonial, as primeiras cédulas da África do Sul emitidas após sua independência em 1961 mostravam o rosto de Jan van Riebeeck, um explorador holandês do século 17 que fundou o posto comercial que daria origem à Cidade do Cabo. Seu rosto permaneceu nas cédulas por 30 anos.

 

Direita | Hoje, Nelson Mandela, o primeiro presidente negro do país, aparece em todas as cédulas da África do Sul, como símbolo do movimento contra o apartheid.

Foto de Janusz Pieńkowski

Mongólia

A história do dinheiro na Mongólia tem origem no reinado de Genghis Khan, durante o século 13. Ele transformou a nação de comunidades rurais em potência global, criando o maior império contíguo da história. Embora Genghis Khan tenha introduzido moedas de ouro e prata no império, foi seu neto, Kublai Khan, que implementou o dinheiro em papel em larga escala.

A Mongólia manteve apenas duas figuras importantes nas suas cédulas de dinheiro: seu famoso governante, Genghis Khan, e o herói revolucionário Damdin Sükhbaatar, que liderou o exército mongol à vitória sobre os ocupantes chineses em 1921.

Esquerda | Alguns países fazem do orgulho nacional um reflexo de sua história antiga. Na Mongólia, Genghis Khan aparece nas cédulas mais valiosas da moeda mongol, entre 500 e 20 mil tugriks. O governante do século 13 conquistou a maior parte da Eurásia para construir o maior império contíguo da história.

Direita | Na Tunísia, a nota de cinco dinares tem o rosto de outro comandante militar antigo que ajudou a construir um império. O general cartaginês Hannibal é famoso até hoje for suas batalhas heroicas contra Roma na Segunda Guerra Púnica, em 218 a.C.

Foto de Janusz Pieńkowski

O retrato de Sükhbaatar estampou as notas do país pela primeira vez em 1939, em comemoração ao seu papel no estabelecimento de um governo comunista na República Popular da Mongólia. O herói de guerra continuaria a dominar a moeda por mais de 50 anos, até a democracia ser instalada na Mongólia na década de 1990. Desde 1993, Genghis Khan aparece nas notas de maior valor – entre 500 e 20 mil tugriks – enquanto Sükhbaatar ainda aparece em notas de valores menores.

República Dominicana

A nota de 200 pesos da República Dominicana presta homenagem a três irmãs que organizaram um movimento de resistência contra o ditador Rafael Trujillo – e cujos assassinatos foram o pontapé inicial para uma revolução.

Após chegar ao poder em 1930, Trujillo tiranizou a República Dominicana. Ele aprisionava, torturava ou assassinava qualquer pessoa que se opusesse a seu governo. Na década de 1950, as irmãs Mirabal – Patria, Minerva e María Teresa – tornaram-se líderes do movimento de resistência que buscava acabar com o regime brutal. Trujillo as prendeu e aprisionou repetidas vezes antes de ordenar seus assassinatos, em 25 de novembro de 1960.

Esquerda | Maria Teresa Mirabal e suas irmãs mais velhas, Patria e Minerva, que aparecem na nota de 200 pesos da República Dominicana, são símbolos não apenas da revolução do país, mas também do esforço global para acabar com a violência contra a mulher após o assassinato brutal ordenado pelo ditador Rafael Trujillo.

 

Direita Na Ucrânia, a cédula de 200 hryvnia homenageia uma de suas principais escritoras feministas, Lesia Ukrainka. A poeta e dramaturga reconhecida internacionalmente abordava temas de gênero e igualdade étnica em seus trabalhos, publicados na virada do século 20.

Foto de Janusz Pieńkowski

O regime de Trujillo chegou ao fim um ano depois, com seu assassinato, mas o governo somente reconheceu as irmãs Mirabal (também conhecidas como Las Mariposas, ou as borboletas) como heroínas nacionais décadas depois. Embora elas tenham estampando as moedas de 25 centavos por um curto período na década de 1980, as irmãs Mirabal se tornaram o rosto da nota de 200 pesos em 2007. A ONU também considerou a data dos seus assassinatos como o Dia Internacional de Eliminação da Violência Contra a Mulher.

*Contribui Miguel Vilela/National Geographic Brasil

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