Descoberta de fábrica de amuletos viking faz arqueólogos repensarem artefatos enigmáticos

Por muito tempo, arqueólogos acreditavam que estatuetas de valquírias representavam seres da mitologia nórdica. Novo estudo sobre como e onde elas foram feitas questiona essa hipótese.

Publicado 9 de ago. de 2021 16:30 BRT
Artefatos encontrados em Ribe, na Dinamarca, revelam que uma variedade de designs foi produzida no local.

Artefatos encontrados em Ribe, na Dinamarca, revelam que uma variedade de designs foi produzida no local.

Foto de Museum of Southwest Jutland, CC-BY-SA

Dezenas de misteriosas e antigas estatuetas femininas foram encontradas por toda a Dinamarca, inclusive em lugares tão distantes como a Inglaterra e a Rússia: figuras de bronze de 2,5 centímetros de comprimento representando mulheres de cabelo comprido, muitas vezes usando capacetes com cristas e vestidos longos, e armadas com escudos e espadas. Os pequenos amuletos datam de mais de mil anos, no auge da Era Viking.

Mas, como as mulheres vikings normalmente não eram enterradas com armas — ao contrário dos homens — os pesquisadores recorreram às sagas e à mitologia nórdica para explicar as estatuetas femininas armadas e concluíram que elas representavam valquírias, as míticas guerreiras que os antigos escandinavos acreditavam ser responsáveis por transportar aqueles que eram mortos em batalha para a vida após a morte.

“As imagens sempre foram entendidas em termos do que conhecemos da mitologia nórdica”, explica Pieterjan Deckers, arqueólogo da Universidade Livre de Bruxelas.

No entanto, em um artigo publicado na revista acadêmica Medieval Archaeology, Deckers e seus colegas argumentam que os pingentes de “valquírias” representam mulheres reais que desempenhavam um papel central em celebrações ou cerimônias vikings. Além disso, eles propõem que as estatuetas de figuras femininas armadas fazem parte de um conjunto maior de objetos ritualísticos que sugerem que os papéis de gênero na Europa da Era Viking podem ter sido mais complexos do que se pensava.

‘Linha de montagem’ viking

A pesquisa mais recente teve início após a descoberta, em 2017, do que parecia ser uma oficina de joias que remontava ao início do século 9 — perto do início da Era Viking — em uma região comercial chamada Ribe, na costa oeste da Dinamarca.

Arqueólogos da Universidade de Aarhus encontraram mais de sete mil fragmentos de argila do tamanho de uma unha dentro e ao redor da pequena oficina. Juntando os fragmentos meticulosamente, a equipe percebeu que tinha evidências de uma linha de montagem da Era Viking: os artesãos esculpiam uma única estatueta e pressionavam cada lado em argila para criar moldes de dois lados. Então, derramavam bronze derretido nos moldes de argila, que eram quebrados e descartados depois que o metal esfriava.

“Utilizando um único modelo, é possível fazer centenas de cópias [das estatuetas]”, explica Soeren Sindbaek, arqueólogo da Universidade de Aarhus e coautor do estudo.

Para descobrir com que tipo de objetos a oficina trabalhava, os pesquisadores usaram scanners originalmente projetados para implantes dentários para criar modelos de computador em 3D dos moldes de argila quebrados e, em seguida, remontaram as peças digitalmente. Tendo uma cópia do molde, foi possível reconstruir os amuletos que eram produzidos.

“Eles criaram a imagem de um artefato incompleto a partir de peças fragmentadas como se fosse um quebra-cabeça”, comenta o arqueólogo Leszek Gardela, do Museu Nacional da Dinamarca, que não participou da pesquisa. “É bastante inovador.”

Guerreiras em rituais

Um dos moldes reconstruídos era para a produção em massa dos familiares pingentes de “valquírias”. Mas, à medida que os pesquisadores remontavam mais moldes, começaram a duvidar da ideia de que as estatuetas representassem valquírias míticas: a oficina produzia não apenas estatuetas de mulheres carregando armas e escudos, mas também representações de homens arrumando os cabelos, além de objetos do cotidiano, incluindo rodas, cavalos e outras imagens não mitológicas.

Todos os exemplos de estatuetas produzidos na fábrica de Ribe também podem ser encontrados em uma das raras representações visuais que sobreviveram da Era Viking: conhecida como Tapeçaria de Oseberg, o tecido bordado de 1,2 mil anos retrata um ritual de procissão envolvendo carroças com rodas, cavalos, mulheres carregando armas e pessoas usando capacetes com chifres ou fantasias de animais. Muitas das imagens da tapeçaria combinam com os moldes de Ribe.

“Tenho certeza de que é isso que os pequenos amuletos retratam”, afirma Sindbaek. “Temos exatamente as mesmas representações.”

Tomados como um conjunto, os amuletos fabricados em Ribe podem fornecer um novo olhar sobre uma cerimônia que tinha um significado especial para as pessoas da Escandinávia na Era Viking. “As mulheres eram realmente importantes nesses rituais”, explica Sindbaek. “Claro que seriam — no ambiente doméstico, elas eram personagens centrais.”

O que as estatuetas e representações de “valquírias” da tapeçaria de Oseberg não retratam, segundo Sindbaek, são mulheres que serviam como guerreiras na vida real. Embora acredite-se que mulheres lutavam na Era Viking, e que ocasionalmente eram enterradas com espadas e outras armas, o desenho das estatuetas femininas de Ribe e de outras regiões sugere que algo mais está acontecendo: a mulher é retratada segurando escudos e espadas, mas também usando capacetes antiquados e vestidos longos.

“Isso não se relaciona com cenas de combate — seria impossível ir para a batalha com um vestido de cauda longa”, explica Sindbaek. “Mulheres guerreiras existiram, mas não é isso que fora retratado nesses amuletos.”

Em vez disso, de acordo com os pesquisadores, os amuletos podem representar um espaço onde os papéis tradicionais de gênero dos vikings desapareciam. “Os pingentes mostram ambiguidade”, afirma a arqueóloga e coautora do artigo Sarah Croix, da Universidade de Aarhus. “Temos mulheres portando armas e um homem arrumando o cabelo, o que é um gesto feminino.”

Colegas afirmam que essa é uma mudança revigorante em relação a alguns estudos recentes que se concentram estritamente nas mulheres guerreiras da Era Viking. “Eles se afastam de uma interpretação simplista sobre mulheres e armas, onde são todas valquírias e guerreiras, e em vez disso defendem outros argumentos”, explica Gardela. “É bom lembrar que não existe uma única forma de interpretar esse material.”

Para Croix, que passou uma década trabalhando em Ribe e idealizou a digitalização e reconstrução em 3D dos fragmentos de argila, os pingentes trazem evidências complexas ao nosso conhecimento da Era Viking — e mostram que as discussões e debates atuais sobre gênero e identidade não são novidade.

“É um lembrete importante de que não podemos presumir que as ideias sobre os papéis de gênero sejam fixas ou permanentes”, declara Croix. “Os papéis masculinos e femininos sempre mudaram e diferiram entre culturas.”

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