Vikings podem ter ocupado as Américas há exatamente mil anos

No sítio arqueológico de L’Anse aux Meadows, análise de madeira baseada em evento cósmico revela que os marinheiros europeus derrubaram árvores em Terra Nova em 1021 d.C.

Publicado 28 de out. de 2021 07:00 BRT
Viking Ship (stained glass)

Antiga tempestade solar revelou possível povoado viking nas Américas  no ano 1021 d.C.

Foto de Stained glass by Edward Coley Burne-Jones via Delaware Art Museum / Bridgeman Images

Em 993 d.C., uma tempestade solar emitiu um enorme pulso de radiação que foi absorvido e armazenado por árvores em toda a Terra. Agora, aquele evento solar se revelou uma ferramenta fundamental para determinar o ano exato em que os vikings estiveram nas Américas.

Desde a descoberta de um assentamento viking em L’Anse aux Meadows, em Terra Nova, no Canadá, há mais de 50 anos, a maioria dos estudiosos concorda que os marinheiros vikings, que exploraram os mares entre o fim do século 8 e o século 12, foram os primeiros europeus a alcançar as Américas. No entanto ainda se desconhece em que período ocorreram as incursões vikings à chamada “Vinlândia”. Com base em artefatos encontrados, datação por radiocarbono e sagas vikings, acredita-se que L’Anse aux Meadows tenha sido povoado brevemente entre os anos de 990 e 1050.

Devido à tempestade cósmica ocorrida em 993, pesquisadores puderem determinar com certeza que vikings trabalharam em um pequeno posto avançado no Atlântico Norte há exatamente mil anos, em 1021, de acordo com um estudo publicado em 20 de outubro de 2021 na revista científica Nature.

Embora a nova data mais precisa não altere radicalmente nossa compreensão atual sobre a presença viking nas Américas, ela “confirma o que arqueólogos e evidências anteriores sugeriam”, afirma Ulf Büntgen, geógrafo da Universidade de Cambridge que não integrou a equipe de pesquisa. “Fiquei muito satisfeito com esse artigo: há 20 anos, seria impossível obter esses dados.”

Além de definir a primeira data exata em que os vikings povoaram a América do Norte, as datas também fornecem confirmação sobre contos sobre as primeiras viagens escritos centenas de anos depois. “Sempre soubemos que os vikings haviam chegado à América por volta do ano 1000, mas determinar com exatidão que foi em 1021 é surpreendente”, afirma Davide Zori, arqueólogo da Universidade Baylor, que não participou da pesquisa. “Isso comprova que as sagas vikings tinham uma margem de erro de cerca de uma década. É bastante impressionante.”

Imagem de fragmento de madeira encontrado em L’Anse aux Meadows, obtida por microscópio. Os pesquisadores dataram por carbono anéis individuais de árvores e identificaram o anel formado durante a tempestade cósmica de 993 d.C.

Foto de Petra Doeve

‘Parecia uma mina de ouro’

As novas evidências são provenientes de amostras antigas. Dezenas de datas por radiocarbono obtidas a partir de artefatos de madeira escavados em L’Anse aux Meadows na década de 1960 demonstraram que o sítio arqueológico tinha cerca de mil anos. Contudo, na época, a datação por radiocarbono estava em seus primórdios, e a margem de erro geralmente era medida em décadas ou até mesmo em séculos.

Felizmente, arqueólogos com visão de futuro previram que métodos melhores de datação poderiam ser desenvolvidos futuramente e, por isso, coletaram e preservaram centenas de outros pedaços de madeira encontrados no interior e ao redor do local, armazenando muitos deles em congeladores em um armazém canadense para evitar a deterioração. Quando Margot Kuitems, arqueóloga da Universidade de Groningen e coautora do estudo, visitou o armazém há alguns anos, ficou surpresa. A madeira milenar “parecia incrivelmente recente, como se houvesse sido armazenada ontem”, observa ela. “Parecia uma mina de ouro.”

Mas Kuitems não buscava as madeiras mais preservadas. Ela e Michael Dee, especialista em datação por radiocarbono, também da Universidade de Groningen, procuravam locais para testar um novo método de datação baseado em anéis de árvores. Para verificar se conseguiam delimitar com mais exatidão a idade de L’Anse aux Meadows, Kuitems coletou quatro troncos de pinheiro e junípero ainda com a casca, todos os quais haviam sido cortados e deixados próximos a uma das casas nórdicas. “Não são artefatos propriamente ditos, nem belas peças feitas por vikings”, explica Kuitems sobre as amostras principais. “São pedaços de madeira descartados.”

Todas as quatro amostras tinham algo em comum que as tornavam perfeitas aos objetivos de Dee e Kuitems: haviam sido encontradas em camadas de solo ao lado de outros artefatos vikings, o que as relacionava às atividades desse povo. Além disso, haviam sido cortadas ou entalhadas com ferramentas metálicas (na época, desconhecidas por outros povos na América do Norte), juntamente com mais evidências de trabalho manual viking. E todas ainda tinham casca: um claro indicativo de quando foi interrompido o crescimento da árvore.

Havia mais um aspecto que se destacou: três das amostras de madeira provinham de árvores que estiveram vivas durante o evento solar de 993, quando a tempestade cósmica emitiu um pulso de radiação tão poderoso que foi registrado em anéis de árvores em todo mundo. Denominado “evento cosmogênico de radiocarbono” por pesquisadores, o fenômeno só ocorreu duas vezes nos últimos dois mil anos.

A tempestade cósmica, assim como ocorreu em um evento semelhante no ano 775, deixou marcas de “picos” que distorcem a datação da madeira por radiocarbono em cerca de um século, fato notado por pesquisadores pela primeira vez em 2012. Identificável apenas pela comparação entre datas de anéis de árvores individuais obtidas por radiocarbono, a anomalia resultante cria uma espécie de registro de data e hora do anel da árvore. “Quando há picos, fica bastante evidente”, conta Dee, que liderou o novo estudo.

A equipe amostrou e datou por radiocarbono cuidadosamente mais de 100 anéis de árvores, alguns com menos de um milímetro de espessura, na tentativa de encontrar o pico do ano 993 na idade por radiocarbono. Em três dos pedaços de madeira, foi encontrada a indicação exata buscada. Contas simples permitiram calcular quando os vikings derrubaram a árvore. “Se a árvore tem muitos anéis até a casca, é apenas uma questão de cálculo”, explica Dee. Nesse caso, havia 28 anéis separando a casca e o anel da árvore em que o pulso solar de 993 foi registrado.

“As datações anteriores por radiocarbono abrangem um período entre o início e o fim da Era Viking”, afirma Dee. “Agora, podemos provar que a chegada dos vikings ocorreu até 1021, no máximo.”

Além disso, essa data confirma duas sagas islandesas: a “Saga dos groenlandeses” e a “Saga de Erik, o Vermelho”, que narram tentativas de estabelecer um povoado permanente em “Vinlândia”, no extremo oeste do mundo viking. Embora escritas no século 13, ambas as sagas se referem a pessoas e eventos históricos, permitindo que estudiosos reconstituam uma linha do tempo aproximada das expedições feitas no século 11.

Zori concorda que a nova datação não revolucionará o que sabemos sobre os vikings nas Américas. Mas usar o pico de radiação cósmica de 993 para datar outros locais pode oferecer novas informações, sobretudo em locais onde registros históricos não podem ser facilmente associados a descobertas arqueológicas. “Para relacionar eventos específicos a monumentos ou construções, ter uma data exata pode mudar nossa compreensão”, observa Zori.

Para Dee, a definição das datas cria um vínculo palpável com um período em que a humanidade completou sua expansão pelo planeta e chegou a uma floresta densa às margens do Atlântico Norte. “O momento da travessia do Atlântico foi, de certa forma, a última etapa”, prossegue ele. “A data obtida comprova esse acontecimento real.”

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