Túnel secreto na Turquia revela procissão de deuses antigos

Divindades assírias do trovão e da Lua foram reveladas por arqueólogos em uma câmara subterrânea originalmente descoberta por saqueadores.

Por Tom Metcalfe
Publicado 19 de mai. de 2022 07:00 BRT
Os perfis fantasmagóricos de deuses antigos estão esculpidos em uma escultura em rocha com cerca de ...

Os perfis fantasmagóricos de deuses antigos estão esculpidos em uma escultura em rocha com cerca de 3 mil anos, na Turquia. A polícia localizou saqueadores no complexo subterrâneo, provavelmente construído durante uma época em que o Império Assírio estava se expandindo na região no século 8 a.C.

Foto de Y. Koyuncu Antiquity Publications Ltd (272072), M. Önal Antiquity Publications Ltd (272072)

Arqueólogos descobriram raros e antigos entalhes em rocha de deuses assírios em um complexo subterrâneo no sudeste da Turquia – uma revelação sem precedentes que pode apontar para o uso de 'políticas brandas' em uma região fronteiriça do império mais poderoso do mundo há quase 3 mil anos.

A cena entalhada retrata pelo menos seis deuses, incluindo Hadad, o deus mesopotâmico das tempestades; o deus da Lua Sîn; o deus do Sol Sîn; e Atargatis, a deusa da fertilidade da região. Ela é descrita em um artigo publicado na revista Antiquity.

A natureza da descoberta também é incomum: a polícia encontrou o complexo subterrâneo em 2017, depois de seguir uma passagem secreta para ele de uma casa moderna de dois andares na vila de Başbük, a cerca de 40 km da cidade de Sanliurfa.

O co-autor do artigo e filólogo Selim Ferruh Adalı, da Universidade de Ciências Sociais de Ankara, na Turquia, diz que parece que o complexo foi descoberto pela primeira vez quando a casa estava sendo construída vários anos antes. Mas tal fato não foi relatado às autoridades, como exige a lei da Turquia. Em vez disso, os saqueadores fizeram um túnel da casa até as passagens subterrâneas. Eles acabaram sendo capturados, e não parecem ter danificado os entalhes.

Mehmet Önal, o autor principal do artigo e chefe de arqueologia da Universidade de Harran, em Sanliurfa, Turquia, viu pela primeira vez as rochas subterrâneas entalhadas pela luz cintilante de uma lâmpada.

"Senti-me como se estivesse em um ritual", lembra. "Quando fui confrontado pelos olhos muito expressivos e pela face séria e majestosa da tempestade Hadad, senti um leve tremor em meu corpo."

A procissão divina é liderada por Hadad, deus mesopotâmico das tempestades (à direita, segurando um trio de relâmpagos); o deus da Lua, Sîn; o deus do Sol, Šamaš; e Atargatis, a deusa da fertilidade da região, todos identificados usando inscrições aramaicas locais.

Foto de M. Önal baseado em varredura a laser por Cevher Mimarlık, Antiquity Publications Ltd

Estilo Imperial, simbolismo local

O complexo subterrâneo consiste de centenas de metros de passagens, escadas e galerias escavadas no leito da rocha. Tanto o complexo quanto os entalhes parecem inacabadas, e os pesquisadores especulam que a construção parou inesperadamente, provavelmente no início do século 8 a.C.

Uma inscrição ao lado das esculturas mostra parcialmente um nome, que os pesquisadores acham que diz 'Mukīn-abūa'. Ele pode ter sido o Mukīn-abūa listado nos registros assírios, há cerca de 2,7 mil anos, como governador da capital provincial de Tushan, cerca de 145 quilômetros ao leste da moderna Başbük.

Se a leitura estiver correta, Adalı sugere, pode ser que Mukīn-abūa tenha ordenado que o complexo subterrâneo fosse construído e entalhes feitos, mas o trabalho seria interrompido quando ele deixasse de ser governador.

Os antigos deuses são retratados em procissão num painel de 3,6 m inscrito na rocha. Seis faces podem ser vistas, e quatro dos deuses são identificáveis – o deus Hadad, por exemplo, carrega um trio de relâmpagos. Cada retrato delicadamente esculpido, o maior dos quais com mais de um metro de altura, mostra a cabeça e a parte superior do corpo de um deus com linhas da imagem destacadas em tinta preta, possivelmente como um guia enquanto os artistas criavam o relevo das figuras.

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Adalı observa que, embora algumas características dos deuses sejam claramente assírias – como suas poses rígidas e o estilo particular de seus cabelos e barbas – muitos detalhes das esculturas mostram fortes influências da cultura aramaica local. Os aramaicos viveram na região durante séculos antes de caírem sob o domínio do Império Assírio, em rápida expansão, no século 9, ficando sob o controle de reis que viviam muito a leste, na região norte da Mesopotâmia.

Adalı também observa que as inscrições ao lado das esculturas estão escritas em aramaico e dão nomes aramaicos aos deuses, ao invés de seus nomes assírios. "É principalmente o simbolismo aramaico que encontramos, fundido com o estilo assírio", diz, acrescentando que a mistura deliberada pode ter sido uma tentativa dos governantes assírios de se integrar com os líderes locais, em vez de governar pela força.

O arqueólogo Davide Nadali, da Universidade Sapienza de Roma, na Itália, concorda que a mistura artística única de características assírias e aramaicas nas esculturas lança uma luz política interessante sobre a relação entre o poderoso império e um de seus principais territórios.

"As inscrições em aramaico enfatizam a intenção de ter um diálogo com as comunidades locais, [enquanto] o uso do estilo figurativo assírio mostra a necessidade de interagir com o poder político assírio", conclui Nadali.

Veja as imagens do descobrimento de uma tumba egípcia com múmias do Império Novo em Luxor:

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