Incêndios ‘zumbis’ no Ártico estão relacionados às mudanças climáticas

Verões mais quentes e temporadas de queimadas mais longas são fatores propícios para que os incêndios do ano anterior possam ressurgir na primavera seguinte.

Publicado 26 de mai de 2021 07:00 BRT
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Incêndios florestais no norte da Rússia no início de maio de 2021. Quando há incêndios logo no início da temporada, os cientistas tentam descobrir se eles foram provocados por “incêndios zumbis” que haviam começado no ano anterior.

Foto de Copernicus Sentinel/Sentinel Hub processed by Pierre Markuse

No extremo norte, a temporada de incêndios não costuma começar até junho, quando a neve já derreteu e as tempestades de verão atingem a região. Foi por isso que o cientista Sander Veraverbeke ficou confuso quando, em maio de 2016, observou pequenos focos de incêndio em algumas imagens por satélite do Alasca e dos Territórios do Noroeste, no Canadá.

“Fiquei me perguntando, que diabos está acontecendo?”, relata Veraverbeke, geocientista da Vrije Universiteit de Amsterdã, nos Países Baixos.

O que ele viu nas imagens por satélite eram “incêndios zumbis”, resquícios de queimadas do ano anterior que, de alguma forma, permaneceram ativos, fumegando no subsolo, durante o longo e frio inverno.

Os incêndios zumbis não são um fenômeno inteiramente novo no Ártico; foram registrados surtos ocasionais nas últimas décadas. Mas a equipe de Veraverbeke constatou que suas ocorrências estão fortemente relacionadas às mudanças climáticas, que ocorrem com mais frequência após verões longos e quentes com muitos incêndios, e sugere que esses eventos ainda raros podem se tornar mais frequentes.

“O simples fato disso estar acontecendo é uma prova da rapidez com que a região está mudando”, afirma ele.

Incêndios em transformação no Ártico

Assim como todas as florestas, os trechos arborizados do Ártico às vezes se incendeiam. Mas, ao contrário de muitas florestas localizadas em latitudes médias, que prosperam ou até mesmo necessitam de fogo para preservar sua saúde, as florestas árticas evoluíram para que queimassem apenas esporadicamente.

As mudanças climáticas estão remodelando essa frequência. Na primeira década do novo milênio, os incêndios queimaram, em média, 50% mais área plantada no Ártico por ano do que em qualquer outra década do século 20. Entre 2010 e 2020, a área queimada continuou a aumentar, principalmente no Alasca, sendo que 2019 foi um ano ruim em relação aos incêndios na região e seu segundo pior ano da história foi 2015. Os cientistas descobriram que a frequência de incêndios atual é mais alta do que em qualquer outro momento desde a formação das florestas boreais, há cerca de três mil anos, e possivelmente seja a maior nos últimos 10 mil anos.

Os incêndios nas florestas boreais podem liberar ainda mais carbono do que incêndios semelhantes em locais como Califórnia ou Europa porque os solos sob as florestas em latitude elevada costumam ser compostos por turfa antiga, que possui carbono em abundância. Em 2020, os incêndios no Ártico liberaram quase 250 megatoneladas de dióxido de carbono, cerca da metade emitida pela Austrália em um ano em decorrência das atividades humanas e cerca de 2,5 vezes mais do que a histórica temporada recordista de incêndios florestais de 2020 na Califórnia.

Hibernando na turfa

A turfa é composta por vegetação morta — musgos, restos de árvores e arbustos, outras plantas árticas — que não se degradou por completo. Ela se forma em zonas úmidas e frias do planeta, onde a matéria orgânica se degrada lentamente. As reservas de turfa se acumulam ao longo de séculos ou milênios; solos com apenas alguns metros de profundidade podem ter milhares de anos. Atualmente, as turfeiras cobrem mais de 1,6 milhão de hectare do Ártico e armazenam cerca de 415 bilhões de toneladas de carbono, muito mais do que as florestas que crescem sobre elas e o mesmo que todas as árvores na superfície da Terra.

Em outras partes do mundo, os solos geralmente não contêm muito material orgânico inflamável, de forma que os incêndios se alimentam do que encontram — árvores, arbustos, casas — na superfície. No Ártico, os incêndios também costumam começar na superfície, provocados por raios durante as tempestades de verão ou, às vezes, por humanos. Mas sob condições que estão se tornando cada vez mais comuns na região em decorrência das mudanças climáticas — verões longos e quentes com ondas de calor particularmente agudas que sugam a umidade das plantas e do solo — a turfa subterrânea pode pegar fogo.

“São solos antigos”, explica Jessica McCarty, cientista ártica da Universidade de Miami em Ohio. “A turfa na Sibéria é muito antiga. Esses incêndios estão começando a queimar solos que evoluíram ao lado do Homo sapiens”, relata ela. A maior parte da turfa na América do Norte é mais nova, mas mesmo assim tem milhares de anos.

Ao queimar, a turfa pode fornecer um habitat para os incêndios persistirem por muito tempo depois que suas chamas superficiais forem apagadas — por dias, semanas, meses ou até anos.

A “turfa tem tudo que o fogo precisa para se manter”, esclarece Rebecca Scholten, da VU Amsterdã, principal autora da nova pesquisa. “Ela pode arder com muita intensidade, o bastante para ter calor suficiente para perdurar durante o inverno”, basicamente “hibernando” até a primavera seguinte, quando a neve derrete e permite que o fogo suba de novo para a superfície.

A longa combustão

A existência de incêndios zumbis — chamados de incêndios “hibernantes” ou “remanescentes” pela maioria dos especialistas — é conhecida há algum tempo. Em 1941, por exemplo, um incêndio causado por humanos ao longo de uma linha férrea no Alasca queimou mais de 160 mil hectares. Em maio do ano seguinte, ele reapareceu e, quando foi finalmente extinto, já havia consumido cerca de 120 mil hectares. Nas décadas mais recentes, as autoridades no Alasca e nos Territórios do Noroeste monitoraram dezenas de incêndios hibernantes encontrados por suas equipes.

Mas até agora os cientistas não sabiam se antes havia mais incêndios zumbis que não haviam sido documentados ou se sua frequência estava aumentando à medida que o clima do Ártico esquentava rapidamente — embora suspeitassem que era provável.

“Há dez anos, alguém me perguntou com que frequência eles aconteciam. E respondi que eram interessantes, mas não que aconteciam com muita frequência”, conta Randi Jandt, ecologista de incêndios da Universidade do Alasca, em Fairbanks.

Mas ela mudou de opinião. “Definitivamente me parece que os incêndios aumentaram, considerando meus 30 anos de observação e antes disso quando perguntava sobre os incêndios às pessoas da região”, diz Jandt.

Ela só se deu conta disso em 2019, quando enormes incêndios queimaram mais de um milhão de hectares no Alasca. Equipes de bombeiros trabalharam sem parar para conter um incêndio atrás do outro e, no fim da temporada, eles achavam que tinham extinguido todas as chamas com segurança.

Mas, após a primavera, com o derretimento da neve, nuvens de fumaça começaram a surgir no início de maio, bem antes do início habitual da temporada de incêndios.

“Ao compararmos esta imagem que era totalmente branca com o mesmo local dois dias depois, há um pequeno foco de fumaça que sai dele”, explica Mark Parrington, pesquisador do Serviço de Monitoramento Atmosférico Copernicus, um grupo do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo.

Ele mantém um registro cuidadoso dos incêndios em todo o Ártico, procurando focos em imagens por satélite. Nos últimos anos, durante os quais o Alasca, a Sibéria e o norte do Canadá se incendiaram de forma agressiva, a comunidade de pesquisadores que acompanham os incêndios remanescentes e que ocorrem durante a temporada normal cresceu.

“Não havia tanto interesse na atividade de incêndios no Ártico porque não havia tantos incêndios”, declarou ele, mas isso está mudando rapidamente.

Para fazer um registro mais completo dos incêndios zumbis na América do Norte e verificar se eles estavam relacionados às mudanças climáticas, Veraverbeke, Scholten e sua equipe analisaram 20 anos de imagens por satélite das regiões de floresta boreal do Alasca e dos Territórios do Noroeste. Eles desenvolveram um algoritmo capaz de detectar minúsculas manchas de fogo que surgiam perto das marcas dos incêndios do verão anterior.

Como os incêndios subterrâneos de turfa geralmente se espalham de forma lenta, um pouco mais de 2,5 centímetros por hora, no máximo — cerca de 100 vezes mais rápido do que o crescimento de um fio de cabelo — poderiam excluir incêndios muito distantes dos locais atingidos no ano anterior. Eles limitaram sua busca às chamas que surgiram no início do ano, antes de os relâmpagos começarem a provocar novos incêndios.

De 2002 a 2018, encontraram evidências de 20 grandes incêndios hibernantes que não haviam sido detectados anteriormente pelo grupo de combate a incêndios. Ao todo, os incêndios zumbis representaram menos de um por cento de toda a área queimada nas regiões — uma pequena fração. Como diz Jandt, “isso não tira o sono das equipes de combate aos incêndios”.

Mas os incêndios remanescentes demonstraram uma relação preocupante, embora nada surpreendente, com as mudanças climáticas. Os verões quentes provocavam grandes incêndios que muitas vezes duravam até o fim da temporada e havia uma probabilidade muito maior de os resquícios desses incêndios persistirem durante o inverno. Nos Territórios do Noroeste, incêndios zumbis surgiram após cada um dos seis verões mais quentes registrados, ao passo que nenhum sobreviveu aos invernos após os verões mais frios.

“Havia uma relação muito evidente entre os incêndios hibernantes e as altas temperaturas e a área queimada”, afirma Scholten. É provável que esses padrões ganhem força no futuro, à medida que as mudanças climáticas intensificam o potencial de incêndio no Ártico.

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