Ilha caribenha comemora o Dia de São Patrício com uma combinação única de culturas

Montserrat reconhece sua influência irlandesa enquanto homenageia as pessoas escravizadas que se rebelaram contra ela.

Por Rebecca Toy
Publicado 17 de mar de 2021 07:00 BRT
Montserrat Masquerade Dancers

Os dançarinos tradicionais do grupo Orioles Esmeraldas participam de um desfile do Dia de São Patrício na ilha caribenha de Montserrat. Tocando tambores e usando chapéus que lembram a mitra de um bispo, os mascarados participam de uma expressão de respeito por seus ancestrais africanos e de protesto contra os proprietários de terras europeus que os escravizaram.

Foto de Valbaun Galloway, Montserrat Tourism Division

Há verde por toda parte. Mas os tambores de aço, os dançarinos mascarados, o ensopado de cabra e o vulcão ativo servem para lembrar que este não é um típico Dia de São Patrício (ou Saint Patrick’s Day, em inglês).

Localizada ao sul de Antígua, Montserrat é aquela região caribenha cada vez mais rara, sem resorts ou enormes navios de cruzeiro. Pergunte a qualquer um de seus quase cinco mil habitantes sobre o caráter local e eles provavelmente dirão que, na ilha, telefones perdidos são levados à estação de rádio para que seus proprietários os encontrem. As pessoas deixam as chaves nos carros e as portas destrancadas. E realizam um Festival de São Patrício que dura 10 dias. Montserrat é o único lugar fora da Irlanda que comemora a data como feriado nacional.

Seria fácil suspeitar que essa remota ilha esteja capitalizando estrategicamente sobre o lucrativo negócio da diáspora irlandesa. No mínimo, é incomum para um território britânico usar um carimbo de passaporte de trevo ou ostentar uma bandeira com a deusa mítica irlandesa Eriu e sua harpa dourada.

Embora de fato gere uma receita significativa, o festival do Dia de São Patrício de Montserrat não se reduz a estereótipos ou a simplesmente reproduzir a folia ao estilo americano. Aqui, a comemoração combina duas culturas, reconhecendo a influência irlandesa inicial enquanto homenageia o povo escravizado que se rebelou contra ela.

Pessoas se reúnem durante um evento matinal do Dia de São Patrício chamado Pó de Duende, em 2018.

Foto de Valbaun Galloway, Montserrat Tourism Division

“Este é um tipo singular de Dia de São Patrício”, declara Warren Solomon, diretor de turismo de Montserrat. “Acho que ninguém vai chegar aqui e dizer: ‘bem, já fizemos isso em Boston ou Nova York antes, então sabemos exatamente o que esperar’.”

Este encontro cultural anual, mesmo virtualmente, continua sendo tão relevante quanto sempre foi durante a pandemia. Ele confirma as questões nacionais complexas e contínuas de identidade em Montserrat. Considerações sobre quem essas pessoas são e desejam ser continuarão a orientar suas decisões em torno da meta de independência financeira da Grã-Bretanha até 2035 e de crescimento sustentável em um mercado de turismo de massa.

Mais do que irlandês

Originalmente habitada por aruaques e caribes, Montserrat recebeu esse nome de Cristóvão Colombo em 1492 e foi periodicamente ocupada pelos franceses antes de se tornar um território britânico em 1632. O governador de São Cristóvão e Neves despachou imigrantes britânicos e irlandeses para colonizar esse território próximo.

Após a dura conquista da Irlanda por Cromwell em 1649, os irlandeses indesejáveis eram deportados e enviados para trabalhar nas plantações de açúcar e tabaco do Caribe. As camadas sociais de proprietários de terras britânicos e irlandeses, irlandeses contratados e africanos escravizados criaram um ambiente instável em toda a região.

Embora os irlandeses contratados pudessem conquistar direitos e ser proprietários de terras após sete anos, os africanos escravizados não podiam. No Dia de São Patrício de 1768, um grupo de pessoas escravizadas planejou se aproveitar da embriaguez dos proprietários e dos feitores em função do feriado para se rebelarem por toda a ilha. Mas a notícia vazou e a rebelião falhou. Nove rebeldes, incluindo o líder Cudjoe, foram enforcados.

As atividades atuais do dia de São Patrício em Montserrat são um ato de equilíbrio muitas vezes difícil entre comemoração e celebração. Nos últimos anos, o festival começou com o acendimento de uma tocha cerimonial na vila de Cudjoe's Head. Os participantes do festival podiam caminhar até locais históricos através da floresta tropical com James “Scriber” Daley, o famoso “encantador de pássaros” de Montserrat; fazer um passeio de barco guiado ao redor da zona de exclusão do vulcão Soufrière Hills; e depois beber até o amanhecer na Vingança do Duende, uma festa ao ar livre sob as estrelas.

Um trio fantasiado com kilts durante o desfile de São Patrício de 2018. O Dia de São Patrício foi oficialmente declarado feriado nacional em 1985.

Foto de Valbaun Galloway, Montserrat Tourism Division

À medida que o festival cresceu, o mesmo aconteceu com a polêmica. Alguns consideram os eventos uma festa sem alma e sem autenticidade. As gerações mais velhas permanecem vigilantes para que não se esqueça o impacto da escravidão sobre a cultura da ilha.

As danças com máscaras, uma tradição afro-caribenha de dança espiritual e comunicação codificada, ainda destacam essa frágil coexistência nas celebrações de São Patrício. Mais do que um ritmo irresistível, essas danças compartilham mensagens de dignidade pessoal e zombaria disfarçada. As referências mais evidentes incluem um dançarino com chicote, chapéus em forma de mitras de bispos católicos e passos de jigas irlandesas.

Vernaire Bass, chefe de planejamento e produção do Conselho de Artes de Montserrat, explica os elementos menos óbvios dos trajes tradicionais das danças: “as fitas, os laços e o vidro seriam apenas restos do que eles conseguiam encontrar ou tirar das casas dos senhores. Isso é o que significa usar uma máscara, é tentar ser alguém que não somos”.

Bass, cuja bisavó era filha de um condutor de africanos escravizados, atesta a complexidade da identidade. “Estou do lado dos escravizados, mas acho que, ao desacreditar nosso lado irlandês, também estamos desacreditando a nós mesmos. Porque não se pode amar um elemento de si mesmo e não amar os outros”, completa.

Moradora local enche uma cabaça com sopa de legumes caribenha. Servir comida com a casca desta fruta tropical é algo reservado para ocasiões especiais como os eventos do Dia de São Patrício.

Foto de Derek Galon, Montserrat Tourism Division

“Normalmente, a geração irlandesa com a qual entramos em contato hoje nos homenageia e fica feliz por nós a homenagearmos”, relata Bass. “Portanto, devemos seguir em frente com isso, sem ignorar o passado, mas abraçando o futuro.”

Navegando pelo futuro

A pandemia interrompeu tanto as celebrações quanto os debates. O turismo estava em plena atividade no início de 2020, com o número de chegadas em 2019 ultrapassando a casa dos 20 mil pela primeira vez desde 1995. Mas já com visitantes na ilha para o Dia de São Patrício 2020, as principais celebrações foram canceladas minutos antes de começarem.

Montserrat permaneceu fechada para visitantes durante a maior parte do ano e, apenas recentemente, lançou um programa de trabalho remoto para aqueles que desejam se retirar para colinas com florestas e praias de areia negra. Mas fechado não significa inativo. Há planos em andamento para um novo cais, uma torre de aeroporto e um centro de interpretação sobre vulcões. A loja de mergulho local continua trabalhando na restauração de recifes e dando aulas de natação para jovens e adultos.

“Todos tiveram que lidar com algo que nunca lidaram antes”, explica Solomon, diretor de turismo. “Mas não houve nenhuma sensação de pânico, o que remonta à resiliência do povo da ilha. Já passamos por tragédias antes.”

A tragédia em questão foi o desastre formativo moderno das explosões vulcânicas do Soufrière Hills que começaram em agosto de 1995. Durante anos, a ilha foi assolada por erupções e terremotos, matando 19 pessoas em seu pico de violência em junho de 1997 e soterrando a capital evacuada de Plymouth. Mais da metade da população de Montserrat emigrou.

Antes de ser soterrada pela erupção do vulcão Soufrière Hills em 1997, a cidade de Plymouth era a capital de Montserrat. Ela permanece desabitada.

Foto de Derek Galon, Montserrat Tourism Division

Hoje, a parte mais baixa de Montserrat, incluindo Plymouth, é uma zona de exclusão para os habitantes, acessível apenas com passeios certificados. Operadores de barcos cruzam os telhados e a torre de uma igreja que se projetam dos fluxos piroclásticos agora solidificados do vulcão. Excursões de ônibus visitam os montes de itens domésticos outrora quotidianos na Parliament Street, deixados para trás na evacuação.

Cherise Aymer, chefe da unidade de marketing de turismo de Montserrat, espera que os planos de que Plymouth receba o status de Patrimônio Mundial da UNESCO tenham sucesso. “A cidade tem um papel especial em nossos corações porque foi o nosso centro. A memória é bastante forte. Poder voltar a Plymouth foi algo importante para os habitantes de Montserrat. Ver minha antiga escola me tocou profundamente”, conta Aymer.

“Ainda há muitas pessoas que não voltaram a Plymouth, mesmo tendo vindo da diáspora para visitar Montserrat”, continua. “Elas não voltaram para fazer a limpeza porque é difícil ver o lugar daquele jeito. Mas há outros que querem conseguir dar um encerramento a isso.”

Passados a violência e o desastre, os habitantes de Montserrat abraçam a beleza natural e a conectividade de seu lar e se esforçam para manter esse caráter tranquilo enquanto seguem em direção ao crescimento do turismo sustentável.

“Os nossos amigos vêm e perguntam: ‘então, o que há para fazer?’”, conta Emmy Aston, da companhia de mergulho Scuba Montserrat. “[Montserrat] está parando para tomar uma cerveja e bater um papo num bar na beira da estrada. Está dirigindo até a Colina Garibaldi para ter aquela vista incrível do mar e de Plymouth. Ou dizendo ‘vamos visitar nosso amigo Charles no bar In God We Trust, em St. Johns.’ Não está praticando tirolesa e coisas assim. São as pequenas coisas.”

Embora o Dia de São Patrício de Montserrat quebre o modelo tradicional irlandês, os turistas terão sorte de vivenciar a resiliência e o calor da ilha durante todo o ano.  

“É possível ir a qualquer lugar aqui e não estar no lugar errado”, declara o coproprietário da Scuba Montserrat, Andrew Myers. “As pessoas são muito receptivas.”

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