Cultura

Por dentro dos luxuosos casamentos da China

O país asiático se moderniza e cresce e os casamentos de classe média se tornaram um grande negócio e uma forma de os casais mostrarem suas posses e personalidades.

Por Nina Strochlic
Fotos de Guillaume Herbaut

HÁ ALGUNS ANOS, o fotógrafo, Guillaume Herbaut estava em Xangai para relatar o “mercado do amor”, um parque onde pais se reúnem para juntar seus filhos solteiros. No caminho, ele passou em uma empresa chamada “The Only Studio”. Lá, ele encontrou uma Disneylândia de casamentos enfeitada com mais de 20 cenários temáticos, indo desde castelos de neve até ilhas gregas. Maquiadores, designers de moda e fotógrafos guiavam casais de cenário por cenário, registrando seus casamentos fantasiosos.

Tem uma linha entre histórias reais de amor e cenários falsos”, diz Herbault. “A impressão de que o universo de novelas de TV operam na realidade.”

 Na alta temporada, ele descobriu, 80 casais podem passar pelo estúdio todos os dias para tirar fotos com tudo que têm direito com os 60 fotógrafos da empresa.

No século passado, o casamento mudou drasticamente na China. Tradicionalmente, casamentos eram arranjados por casamenteiros e pais – a noiva e o noivo nem precisavam consentir. Quando a última dinastia imperial da China chegou ao fim no começo dos anos 1900, a fotografia passou a ser levada para casamentos. Mas como muitos aspectos da cerimônia, as imagens eram valorizadas pela imagem projetada para o mundo exterior e passada para gerações futuras.

Conforme a reforma econômica gerou uma classe média chinesa no século 20, casamentos passaram a ter foco no casal. Como uma ferramenta dessa nova personalização, estúdios de fotografias de pré-casamentos tornaram-se muito populares.

“Ensaios fotográficos são quase como cosplay”, diz Jiajing Mao, um especialista em tradições de casamentos chineses. “Muitos casais não só tiram fotos de si mesmos em ternos e vestidos, mas também fazem um ensaio lembrando de seus tempos como estudantes, durante o período da Revolução Cultural, o Período Republicano da China, ou vários cenários da vida cotidiana – independentemente de terem sido colegas de classe, passado por aquele período, ou experienciado a mesma vida ou não.”

A tendência de estúdios fotográficos se originou em Taiwan como uma forma de vender vestidos, e então migrou para a China nos anos 1980. A indústria agora é avaliada em bilhões. Clientes que Herbaut encontrou no Only Studio estavam desembolsando entre $400 e $18.000 por sessão.

Famílias chinesas historicamente gastam grandes parcelas de suas rendas em casamentos, segundo Tianyi Li, que está conduzindo um relato oral sobre rituais de casamentos na Província Jiangsu, da China. Ele menciona que, de acordo com estatísticas, casamentos modernos custam cerca de $11 mil  – mais do que a renda de um trabalhador típico.

Agora, conforme casamentos luxuosos de celebridades aparecem na TV e nas redes sociais – há alguns anos, a “Kim Kardashian da China” fez uma cerimônia de $30 milhões – todos esperam ter um pouquinho desse glamour.

Alguns casais vão para Thames Town, uma vizinhança estilo britânica em Xangai, antes do grande dia. Os que têm condições para viajar, esquecem os cenários falsos e apostam na realidade. Empresas de turismo chinesas oferecem pacotes com ensaios fotográficos para casais noivos. Incentivado, em parte, pelo sucesso de programas como Downton Abbey na China, a Inglaterra se tornou um destino popular para casais fazerem seus ensaios pré-casamentos em castelos e campos bucólicos.

Tendências chinesas também estão se tornando retrospectivas. Em tempos imperiais, casais usavam robes oficiais para seus casamentos. Agora,  diz Mao, empresas começaram a oferecer pacotes de casamento tradicionais com essas vestimentas antigas. “Muitas pessoas estão começando a questionar porque temos principalmente vestidos de casamento ocidentais e raramente algum robe tradicional, então estamos tentando voltar às suas raízes”, diz Mao.

Essas tendências se dão pelo fato de que o número de casamentos na China têm caído devido a um dramático desequilíbrio de gênero — com um excedente de homens, atribuído. As mulheres da China estão mais educadas do que nunca, e as taxas de natalidade estão mais lentas. Essas mudanças demográficas estão acabando com velhos tabus. Por exemplo, lentamente, está se tornando aceitável que mulheres se casem com um homem divorciado ou viúvo, mesmo ele que ganhe menos do que ela.

Até aqueles casados muito antes do advento de elaborar ensaios fotográficos têm seus momentos na  frente da câmera. Hoje, diz o historiador Tianyi Li, alguns asilos organizam ensaios fotográficos de “aniversário dourado”, para casais celebrando décadas de casamento.

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