Cultura

Peças de foguete recicladas na Rússia viram equipamentos possivelmente tóxicos

O material espacial descartado de um cosmódromo soviético outrora secreto ganha uma segunda vida como ferramenta útil – e talvez poluída.Wednesday, August 8, 2018

Por Michael Greshko
Anton, 13 anos, de pé próximo ao pedaço de um foguete no vilarejo de Dolgoshecheye, no Norte da Rússia, uma das cerca de 10 comunidades logo abaixo do Círculo Polar aonde os moradores buscam resíduos espaciais.

No coração do Oblast de Arkhangelsk, no noroeste da Rússia, fica o Cosmódromo de Plesetsk, uma base de mísseis construída durante a Guerra Fria e que hoje é uma das instalações de lançamento de foguetes mais ativas do mundo.

Mas, como diz o ditado, tudo que sobe, desce.

Cada foguete lançado de Plesetsk descarta contêineres de combustível e impulsionadores gastos, muitos dos quais caem de volta na Terra no distrito de Mezensky, uma área restrita a mais de 320 km a nordeste da base. O maior assentamento da área é a cidade de Mezen, com população de 3.575 habitantes.

A vida em Mezen e seu entorno não é fácil. A cada verão, os rios que cruzam a área se inundam, sobrecarregando as estradas locais e obrigando as pessoas e seus bens a atravessarem vários rios.

Então, depois que partes de foguetes descartadas caem dos céus sobre Mezen, os moradores recuperam os destroços. Pedaços de fuselagem tornam-se barcos chamados rocketa e trenós de caça; ouro e titânio retirados dos destroços se encontram no mercado negro de Arkhangelsk, a maior cidade da região. E fragmentos de certos foguetes são até erguidos em jardins dos moradores, como se nos lotes tivessem brotado árvores metálicas.

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“Eu não podia acreditar, vendo com meus próprios olhos”, diz o fotógrafo italiano Rafaelle Petralla, que visitou a área em 2017 e 2018 para documentar o estilo de vida extraordinariamente aeronáutico dos moradores locais.

Um segredo elaborado

O Cosmódromo de Plesetsk começou como um elaborado segredo soviético. O público ocidental não sabia da base até 1966, quando alunos e professores de uma escola primária do Reino Unido deduziram sua existência. Levaria outros 17 anos para a União Soviética reconhece-la oficialmente.

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O sigilo ainda encobre a área. O distrito de Mezensky, no Norte, está dentro da “zona de segurança de fronteira” da Rússia, o que significa que visitantes autorizados devem ser aprovados pelo Serviço Federal de Segurança (FSB) da Rússia. A exigência faz dos estrangeiros – quanto mais fotógrafos estrangeiros – uma presença rara.

Ao capturar imagens da vida na região, Petralla espera que seu trabalho ajude a divulgar as histórias de seus habitantes. Em particular, ele diz que os moradores com quem falou continuam preocupados com compostos tóxicos espalhados pelos foguetes.

Um assentamento encantador flanqueando o rio Mezen, o vilarejo de Kimzha foi considerado um dos mais belos da Rússia, em 2016. Desde a década de 1960, dezenas de foguetes caíram nas florestas ao redor de Kimzha.

“O governo não quer recuperá-los, porque é muito caro, mas, ao mesmo tempo, contêm materiais tóxicos”, diz Petralla. “A NASA, por exemplo, vai recuperar foguetes no Oceano Atlântico. Por que o governo russo não faz isso?”.

Quando eles caem de volta na Terra, os impulsionadores gastos de Plesetsk ainda contêm heptila, um propelente de foguete que é altamente tóxico e provavelmente cancerígeno. Os pesquisadores estão estudando ativamente a contaminação por heptila ao redor do Cosmódromo de Baikonur, um local de lançamento no Cazaquistão.

Enquanto os registros de câncer do Oblast de Arkhangelsk, a região que contém Mezen e Plesetsk, não apontam picos incomuns em relação ao resto da Rússia, Petralla diz que os moradores locais são inflexíveis quanto ao ônus da heptila em suas vidas.

Bulat Kenessov, químico analítico da Universidade Nacional Al-Farabi Kazakh que estuda a heptila de Baikonur, diz que os perigos para a saúde oriundos de Plesetsk merecem um olhar mais atento, especialmente os maiores derramamentos de propelente no próprio cosmódromo.

“Os riscos à saúde humana estão lá e devem ser estudados”, diz Kenessov. “[Pesquisadores locais têm] equipamentos de primeira e funcionários altamente qualificados. Eles fazem o possível, mas suas habilidades são limitadas pelo baixo financiamento”.

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