Meio Ambiente

Não temos fazendas orgânicas suficientes. Por que não?

A venda de alimentos orgânicos nos Estados Unidos dobrou na última década, mas a agricultura orgânica não acompanhou o crescimento. Isso pode mudar à medida em que os agricultores se associarem a marcas. Quinta-feira, 6 Dezembro

Por Rachel Cernansky
Fotos de George Steinmetz

Montana, Estados Unidos Há semanas ele colheu os grãos da sua fazenda e, apesar de os campos de Casey Bailey estarem quase vazios, algo se forma abaixo da superfície.

Ele se ajoelha no chão, coberto por uma fina camada de palha até onde os olhos podem ver, e mexe com cuidado no solo. Quase sem tocar na superfície, ele aponta para um fio branco parecido com uma fibra – hifas, os filamentos de um fungo – uma minhoca e uma aranha correm para se proteger.

"Os organismos do solo, há um bilhão em uma colher de chá", diz ele. Para Bailey, cujo sustento depende do solo, é um sinal de que uma de suas experiências está dando resultado.

Aos 38 anos, Bailey mora na fazenda onde cresceu, mas fez uma mudança na tradição familiar. No lugar do que chama de práticas “rígidas e cheias de produtos químicos” da fazenda, ele está fazendo a transição de seus 2 mil hectares para métodos de agricultura orgânica.

Não foi uma mudança fácil. Ele enfrentou os desafios por tentativa e erro porque – apesar do crescimento da agricultura orgânica – não existe um mentor ou um manual a ser seguido. Em uma fazenda convencional, ele diz: “Eu posso contratar pulverizadores para pulverizar toda a nossa fazenda em um dia, e depois espalhar os nutrientes, o fertilizante. Eu não posso fazer isso com orgânicos.”

Não se trata simplesmente de desligar os pulverizadores químicos: os agricultores devem aprender a manejar os nutrientes do solo sem fertilizantes e atacar ervas daninhas e insetos sem herbicidas e inseticidas. É uma curva de aprendizado íngreme.

Bailey quer descobrir as coisas por si mesmo, então, o tempo todo, ele está experimentando diferentes estratégias de cultivo em toda a fazenda, que fica próxima da cidade de Fort Benton, no centro de Montana.

E, em uma nova empreitada, ele formou uma parceria que oferece uma medida de segurança contra alguns dos riscos. No ano passado, ele vendeu 526 hectares de trigo e aveia para a Annie's, uma produtora de massas e lanches orgânicos que agora faz parte da General Mills, sediada em Minneapolis, que se comprometeu a comprar mais. A empresa marcou a ocasião com uma caixa de edição limitada de bolachas em forma de coelho que mostravam a foto de Bailey, e um fazendeiro orgânico a algumas horas dali era o rosto de um macarrão com queijo.

A colaboração entre agricultores e marcas pode ser uma solução de engenharia reversa que o mercado orgânico precisa para resolver um problema fundamental: a demanda dos consumidores por alimentos orgânicos está crescendo constantemente, mas a porcentagem de terras agrícolas orgânicas nos Estados Unidos está aumentando lentamente. Marcas como Annie’s estão se apresentando para oferecer uma transição mais rápida.

O mercado de alimentos orgânicos dos Estados Unidos ultrapassou US$ 45 bilhões em vendas em 2017, segundo a Organic Trade Association, um aumento de 6% em relação ao ano anterior e mais que o dobro das vendas de uma década atrás. A área de plantio orgânico nos EUA aumentou em 20% entre 2011 e 2018, de acordo com a Mercaris, e agora totaliza mais de 2 milhões de hectares de terra, mas isso equivale a menos de 1% da área agrícola total do país.

Com a demanda superando a oferta doméstica, o país importou mais de US $ 2 bilhões em alimentos orgânicos no ano passado, e provavelmente significativamente mais - o USDA rastreia apenas 40 alimentos importados.

O milho orgânico está no topo da lista, com as importações saltando mais de 200% em 2015, segundo o USDA; a grande maioria disso é para alimentar animais criados para carnes e laticínios orgânicos.

“Somos exportadores para o mundo do milho convencional, trigo convencional e soja convencional, mas somos importadores de milho, trigo e soja orgânicos”, diz Eric Jackson, CEO da Pipeline Foods, uma empresa de fornecimento orgânica. O país vai um pouco melhor com a produção, mas os orgânicos ainda representam apenas uma fração da área cultivada com frutas e vegetais em todo o país.

“Eu fiquei com muito medo”

Bailey saiu da fazenda para ir à faculdade, onde estudou música e filosofia, mas voltava nos verões. Quando ele voltou para ficar em 2008, ele decidiu tentar cultivar sem produtos químicos. Ele começou com um pequeno lote de lentilhas, depois cultivou alfafa em outros 20 hectares. Mas ele não encontrou compradores suficientes para justificar a mudança de toda a fazenda.

Foi quando ele ouviu que Annie queria apoiar os agricultores orgânicos - e ele embarcou em um avião para Minneapolis para conseguir uma reunião. "Eu queria saber se eu realmente poderia me sentir confortável em cultivar de forma orgânica no resto da fazenda", diz ele. Para isso, precisava encontrar uma empresa com uma demanda considerável – foi o que encontrou na Annie's.
 

“Quando peguei os primeiros 20 hectares para fazer a transição para o orgânico, fiquei morrendo de medo”, ele diz. “Eu pensei: ‘eu vim para casa e vou arruinar a fazenda da família.’”

Esse medo ajuda a esclarecer por que terras agrícolas orgânicas são escassas. A escolha de se tornar orgânico é complicada e arriscada, e as barreiras impedem que muitos agricultores mudem.

O mais fundamental é que a agricultura orgânica requer equipamentos diferentes e outros investimentos iniciais custosos – e requer mais trabalho, principalmente para combater as ervas daninhas. A certificação orgânica do USDA também exige rotação de culturas, o que limita as colheitas que os agricultores podem produzir em um ano, enquanto um produtor convencional pode selecionar um produto que parece ser mais lucrativo naquele ano e plantar.

A infraestrutura agrícola do país – instalações de armazenamento de grãos e redes de transporte – é feita para culturas convencionais; os agricultores orgânicos precisam ter uma estrutura de mercado diferente.

E o financiamento para pesquisa orgânica é mínimo em comparação ao apoio ao convencional, o que significa que os agricultores orgânicos têm menos ferramentas disponíveis para eles, como variedades melhoradas de cultivos e estratégias para combater ervas daninhas ou doenças, também têm menos especialistas para consultar.

A maioria dos escritórios de extensão das universidades que pontuam regiões agrícolas em todo o país não têm especialistas em orgânicos. Illinois, por exemplo, tem um; A Califórnia, o maior estado agrícola – e o estado com o maior número de fazendas orgânicas – não tem nenhum. Um estudo de 1,8 mil agricultores em transição para a agricultura orgânica apontou que a orientação e assistência técnica cara-a-cara é fundamenntal e difícil de obter.

“Esse mito de um fazendeiro conversando na cerca – no orgânico, o próximo agricultor pode estar a centenas e centenas de quilômetros de distância”, diz Matthew Dillon, diretor sênior de política agrícola da Clif Bar, que está investindo milhões em pesquisa e inovação em agricultura orgânica.

O período de transição para a agricultura orgânica em si pode ser uma proposta que perde dinheiro. Os agricultores precisam manter suas terras livres da maioria dos produtos químicos por um período de três anos antes de poderem ser certificados como orgânicos. “Eles basicamente cultivam organicamente, mas não recebem o selo”, diz John Reganold, professor de ciências do solo na Washington State University.

Essa é a lógica por trás das iniciativas de “transição certificada” que algumas empresas como a Kashi, que vende barras de cereais e granola sob um selo de transição, formaram nos últimos anos – para dar aos agricultores um selo limitado para ajudar a passar por esses primeiros anos.

Crise na agricultura

A transição para o orgânico adiciona um peso maior às pressões já enfrentadas pelas fazendas dos Estados Unidos: A escassez de mão-de-obra persiste, exacerbada pela incerteza em torno da política de imigração, e o agricultor médio americano tem 58 anos, levando à preocupação com o futuro das fazendas que não têm uma geração mais jovem preparada. E o desenvolvimento imobiliário está devorando terras agrícolas, particularmente perto de áreas urbanas.

“Vimos regiões inteiras de produtos simplesmente desaparecerem”, diz Heather Shavey, gerente geral de mercadorias da Costco Wholesale, que vendeu mais de US$ 1,2 bilhão em produtos orgânicos no ano fiscal mais recente, correspondendo a mais de um quarto de toda a sua produção.

Várias empresas com participação no movimento orgânico compareceram para ajudar os agricultores a enfrentar os inúmeros desafios que enfrentam. Como a Annie’s, a Costco tem um trabalho semelhante direcionado à construção de relacionamentos com os agricultores. Eles se comprometem a comprar lotes de produtos antes deles embarcarem na transição orgânica.

“O mais importante para os produtores, indo do convencional para o orgânico, é saber que terão um lugar para vender seu produto e por um preço justo, e é isso que lhes damos”, diz Shavey.

Ao longo de um ano de relacionamento com a General Mills, Bailey diz que percebeu que a empresa está indo além dos padrões orgânicos e adotando conceitos mais amplos de sustentabilidade – fornecendo habitats para polinizadores nativos, que enfrentam ameaças em todo o país e culturas perenes (como o Kernza) raras na agricultura moderna, mas consideradas muito melhores para a saúde do solo e uma possível ferramenta para combater a mudança climática.

 

“Eles têm metas que me surpreendem, pelo simples fato de estarem pensando nisso. Polinizadores nativos e trigo perene na General Mills? Isso é incrível”, ele diz em sua cozinha, cortando um pedaço de pão assado com seu trigo. “A questão é se eles conseguem fazer isso”, diz ele. “Eu acho que se resume a mim e a outros agricultores como eu.”

Carla Vernon, presidente dos negócios naturais e orgânicos da General Mills, disse que as caixas com marcas de fazendeiros foram um sucesso. “Nós amamos como foi. Esperamos fazer mais coisas assim”, diz ela. Os consumidores estão exigindo cada vez mais transparência com o abastecimento, e os “coelhinhos de identidade preservada”, como ela os chamava, atenderam a isso. A empresa, que projeta US$ 1,5 bilhão em vendas orgânicas até 2020, reconhece que não pode ocupar a lacuna de fornecimento sem os agricultores como parceiros. No início deste ano, anunciaram um plano para converter uma fazenda de trigo convencional de 13.700 hectares na vizinha Dakota do Sul para produção orgânica.

“O mercado em crescimento representa uma compreensão e disposição dos consumidores em pagar a mais pela comida por causa de como ela é cultivada”, diz Michel Cavigelli, cientista de pesquisa do solo do USDA. “Se você quer proteger o meio ambiente ou comer de maneira mais saudável, pague um pouco mais pela comida. Isso é o que a agricultura orgânica criou, um mecanismo de mercado”, diz ele.

Um jogo de xadrez

A cerca de uma hora de carro a nordeste da fazenda de Bailey, Bob Quinn entregou recentemente as rédeas de sua fazenda histórica a um casal de jovens agricultores que agora alugam a terra dele. Um dos primeiros a adotar a agricultura orgânica, bem como grãos de herança, Quinn recebeu pesquisadores e agricultores de todo o mundo que vêm observar sua operação. Ele começou o cultivo orgânico em 8 hectares em 1986, usou seus últimos produtos químicos dois anos depois e transformou sua fazenda de um experimento em um sucesso comercial de 1,6 mil hectares.

Demorou um pouco, diz ele, para encontrar seus sucessores, aqueles dispostos a administrar os aspectos mais imprevisíveis. “Não podemos jogar fertilizantes em um campo, então, em vez disso, temos que construir o solo”, diz Chad Fasteson, um dos agricultores que alugam de Quinn.

Fasteson se mudou para cá de uma fazenda convencional, onde ele se cansou de sentar em um trator. “Eu realmente não gostava de trabalhar com os produtos químicos”, diz ele. “Você não pode ir para casa e pegar seu filho porque está coberto de porcaria, não importa o quão cuidadoso você seja.”

Quinn compara a agricultura orgânica a um jogo de xadrez. “Com o orgânico, você tem que projetar vários movimentos à frente, porque você não pode simplesmente eliminar alguma coisa. Você tem que prever os problemas”, diz ele. Em parte, é por isso que ele está doando algumas de suas terras para um centro de pesquisa; Ele está em negociações para estabelecer uma parceria com o Instituto Rodale, que produziu algumas das primeiras pesquisas orgânicas, entre outras.

Testando os orgânicos

Com sede na Pensilvânia, o instituto é o lar de um longo experimento lado a lado na agricultura orgânica e convencional. O Farming Systems Trial, que cultiva milho e soja desde 1981, mostrou que após um declínio inicial durante a transição de três anos, os rendimentos nas plantações orgânicas compensaram ou excederam os rendimentos das colheitas convencionais – e tiveram desempenho ainda melhor durante os anos de seca . Rodale diz que o estudo também demonstrou que a agricultura orgânica usa menos energia, produz menos gases de efeito estufa e constrói a saúde do solo em vez de esgotá-la. No ano passado, o instituto lançou um teste de vegetais.

A Earthbound Farms, com sede na Califórnia, uma das maiores produtoras de orgânicos do país, também descobriu que os rendimentos estão aumentando ao longo dos anos. Quanto mais tempo um pedaço de terra é orgânico, diz o presidente e CEO Deverl Maserang, mais fértil se torna o solo, e isso ajudou sua rede de fazendas a se tornar mais produtiva.

A Rodale, enquanto isso, quer expandir seus locais de testes geográficos, diz o diretor executivo Jeff Moyer, porque as estratégias de solo que funcionam na Pensilvânia não necessariamente ajudam agricultores como Bailey em Montana ou produtores de uva na Califórnia. “Queremos poder mostrar fazendeiros implementando com sucesso as estratégias dentro de sua biorregião específica”, diz ele.

Nas ervas

Entender a agricultura, seja orgânica ou convencional, significa entender as ervas daninhas, o que, segundo alguns, está forçando uma encruzilhada para os agricultores.

O advento dos herbicidas libertou os agricultores do cultivo do solo, uma prática que ajuda a preparar a terra para a semeadura, mas interrompe o ecossistema natural do solo - é reconhecida como uma das causas do Dust Bowl.

Os conservacionistas apoiam a agricultura de plantio direto porque, dentre outros benefícios ambientais, ela encoraja o sequestro de carbono - um fator na mudança climática. Mas, como virar o solo ajuda a reduzir as ervas daninhas, as plantações de plantio direto são vulneráveis ​​a elas. É por isso que os agricultores convencionais usam herbicidas - e fazendas orgânicas usam a lavoura.

Bailey está preocupado com a erosão do solo, então ele está tentando encontrar formas de cultivar com propósito, como ele chama. No campo que produziu as hifas e a aranha saltadora, ele experimentou deixar as raízes das plantas no solo após a colheita para ajudar a manter a estrutura do solo e incentivar a vida. Ele usou equipamentos para remover as sementes das plantas e depois deixou as vacas pastarem e pisotearem o material de volta ao solo. “Isso foi apenas em um verão”, diz ele. “Esse tipo de coisa me convence que eu preciso continuar tentando.”

Bailey, que espera terminar a transição de sua fazenda nos próximos meses, sempre imaginou que poderia voltar para a agricultura convencional. Ele não tem tanta certeza agora. Agricultores convencionais estão lutando porque os preços das commodities caíram nos últimos anos, e eles estão lutando contra as "super ervas daninhas" que não recuam diante da enxurrada de produtos químicos usados ​​contra eles.

“No fundo, eu pensava: 'Isso funciona e vai durar para sempre’”, diz ele sobre a agricultura convencional. “E de repente, [o matador de ervas daninhas] Roundup não está funcionando. Então, na verdade, fiquei um pouco preocupado. Pensei: ‘E se tudo mundo tiver que mudar?’”

Alguns agricultores estão indo ainda mais fundo na agricultura convencional, pulverizando novos produtos químicos ou até mesmo voltando a lavrar. “Este ano, muitos deles tiveram que retirar os arados porque os produtos químicos não estão funcionando", diz Fasteson.

Para outros, é um impulso mudar de rumo. Tim Raile, um produtor de trigo no Kansas, diz que sua fazenda de plantio direto funcionou bem por cerca de uma década, e então notou que as ervas daninhas mostravam resistência. “Eram apenas algumas ervas daninhas, mas como essas ervas daninhas continuavam gerando descendentes, acabou sendo o campo todo. E todo mundo está passando pelo mesmo”, diz ele. Ele pulverizou mais herbicidas. “Finalmente chegou a um ponto em que não importava o quanto de glifosato você colocasse, não iam morrer.”

Ele começou a lenta transição para o orgânico, mas não foi uma decisão fácil. “Eu não contei a ninguém por um tempo, porque sabia que haveria uma reação negativa”, diz ele. Alguns agricultores, acredita ele, podem se sentir ameaçados por sua escolha – simplesmente porque é diferente, ou eles estão desconfiados de que Raile poderia processá-los por algo conhecido como desvio de pesticidas.

Por enquanto, seu desafio é armazenar seu trigo orgânico. Como não pode se misturar com o convencional, ele não pode mais vendê-lo no elevador de grãos local. Ele consegue lidar bem com as demandas trabalhistas, mas é um problema significativo para os outros.

"Eu não conseguia administrar a fazenda sozinho com o tempo necessário para fazer a operação orgânica. É difícil encontrar o tipo de mão de obra de que você precisa ", diz Alan Weisshaar, um produtor de milho e soja de Iowa que foi orgânico por cerca de duas décadas, mas passou a usar métodos convencionais.

Tendo passado por várias pessoas antes de encontrar Fasteson e outro fazendeiro para assumir sua operação, Quinn reconhece o valor – e a escassez – de mão de obra qualificada e conhecimento. Mas com o treinamento certo para novos recrutas, diz ele, a agricultura orgânica, poderia ajudar na infinita busca por mais empregos na América rural. Uma fazenda convencional de tamanho semelhante à sua normalmente sustenta uma família financeiramente, diz ele, com algumas oportunidades sazonais de emprego; a fazenda dele sustenta cinco famílias durante todo o ano.

Apontando para o outro lado da estrada que cruza os campos de trigo para a única casa à vista que não a sua, Quinn diz que não estava lá uma semana antes: Fasteson tinha mudado de outra cidade para sua família. “Estamos adicionando uma casa à comunidade”, diz Quinn. "Isso é quase inédito nesta parte de Montana."

Aumento da demanda

Com o setor orgânico ainda pequeno em número de áreas cultivadas em geral, fazendas de larga escala como a que a General Mills está fazendo a transição podem ajudar a mudar o mercado nacional. Mas eles estão longe da pequena fazenda familiar que os consumidores podem associar ao orgânico, e alguns cientistas temem que, à medida que as fazendas cresçam, eles perderão a diversidade que, segundo eles, torna a agricultura orgânica mais sustentável.

“A questão não é de escala. É o número de pessoas [trabalhadores] por hectare”, diz Liz Carlisle, professora da Universidade de Stanford e autora do Lentil Underground, que narra o movimento da agricultura orgânica de Montana. “Ter várias fazendas de pequena escala é uma maneira de ter uma agricultura diversificada, porque elas não farão as mesmas coisas. Mas você pode ter fazendas de grande porte que criam diversidade no que fazem – elas só precisam de pessoas que administrem”.

Certificação orgânica requer uma rotação de três anos das culturas; cultivar culturas diferentes a cada estação ajuda a quebrar os ciclos de ervas daninhas, pragas e doenças. Nem sempre existe um incentivo de mercado, no entanto, para maximizar essas rotações. “Seria ecologicamente benéfico alternar [morangos] com brássicas –  como brócolis ou mostarda – e que suprimem fungos patógenos, mas os consumidores não pagam tanto por essas colheitas quanto pelos morangos”, diz Carlisle. “E a renda da terra é baseada nos lucros dos morangos, então os agricultores estão em apuros.”

É uma área onde a Earthbound Farms, que fornece verduras e legumes e frutas congeladas para varejistas em todo o país, usa a escala em seu benefício. Maserang diz que a empresa introduziu o “arroz” couve-flor e brócolis, muitas vezes comprados para substituir os amidos em dietas com baixo teor de carboidratos, como uma forma de tentar aumentar a demanda por essas culturas, porque cultivá-las é bom para o solo. A empresa está trabalhando para identificar outros vegetais que são bons para a rotação, ele diz, “e procurando formas mais fáceis de usá-los” para diminuir o vão entre o que a fazenda precisa e o que os consumidores querem comprar.

Não muito longe da fazenda de Bailey em Montana está o humilde escritório da Timeless Seeds, uma empresa que vende variedades de herança de grãos e legumes que são bons cultivos de rotação para reabastecer o solo – lentilhas, ervilhas, cevada roxa – mas tradicionalmente não são muito vendidas. David Oien fundou a empresa em 1987 para criar esse mercado – e teve alta nos últimos anos, impulsionados pela popularidade de alimentos orgânicos e vegetais.

“Antes, precisávamos sair e procurar produtores”, disse Oien. “Agora, muitas vezes, os agricultores nos chamam e perguntam se podem plantar nossas colheitas.”

Para Quinn, enquanto a demanda do consumidor continuar a crescer, o mesmo acontecerá com a área de cultivo orgânico – junto com a infraestrutura necessária. “Os responsáveis ​​políticos nunca lideram, vamos ser honestos. Eles seguem mais do que lideram, e nós vamos ter que esperar que eles nos alcancem, eu acho”, ele diz. “Então eles vão apoiar a conversão através de pesquisas e conselhos e esse tipo de coisa.”

Em uma noite do final de setembro, Quinn, vestindo um chapéu de cowboy enfeitado com trigo de herança, e Bailey se encontram para jantar em um restaurante movimentado em Loma, uma pequena cidade no meio do caminho entre suas fazendas. Comendo chiles rellenos e chili verde – era noite mexicana no Ma's – os dois contam as novidades: quais safras de rotação funcionaram bem este ano, onde as ervas daninhas estão surgindo. Quando questionados sobre outros agricultores da região que viram o seu sucesso, mas não estão dispostos a mudar para o orgânico, voltam à questão do custo. Mais consumidores, eles dizem, precisam estar dispostos a pagar mais por comida.

“Há um custo muito alto nos alimentos baratos, e você não paga no caixa do mercado – os agricultores que estão indo à falência estão pagando”, diz Quinn.

Ele é otimista, no entanto, sobre o potencial dos produtores orgânicos para reverter a crise agrícola do país. “Não vai ser nada fácil, mas está indo na direção certa”, diz ele. “Acho que haverá um tempo em que olharemos para essa era como o grande experimento químico.”

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