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Icônica concha das Bahamas pode desaparecer em breve

Sem intervenção, a lesma terrestre que carrega uma concha brilhante pode sumir de diversas regiões em apenas 10 anos. Segunda-feira, 21 Janeiro

Por Sarah Gibbens

QUANDO SE É UMA concha, o acasalamento é melhor quando feito em grupo.

Na verdade, essa é a única maneira que funciona. Essas lesmas-do-mar do Caribe carregam pesadas conchas cor-de-rosa e laranja, o que dificulta a busca por companheiros. O acasalamento, para ter sucesso, precisa ter 50 conchas ou mais desovando de uma vez.

Mas, nas Bahamas, onde as conchas são essenciais para a cultura e a economia, está ficando cada vez mais difícil para as lesmas se reproduzirem. A pesca predatória e a regulamentação frouxa deixaram muitas comunidades de conchas abaixo do nível crítico necessário, de acordo com pesquisas científicas recentes. Isso significa que as conchas nessas regiões podem eventualmente morrer ao atingir uma idade avançada sem ter se reproduzido, levando ao fim a pesca dessas conchas. Artigo recém-publicado prevê que a pesca predatória poderia levar as conchas das Bahamas à extinção em apenas 10 anos.

Encontrada em pratos que variam desde saladas a porções fritas, a concha é um dos elementos básicos da população da ilha, além de ser um ícone cultural. Todo ano, desfiles e festivais de conchas são realizados, com concursos de quem come mais conchas, cozinha os melhores pratos e quebra e limpa as conchas mais rápido. Se a pesca de conchas acabar, mais de 9 mil pescadores das Bahamas—2% da pequena população do país—podem ficar sem trabalho.

No dia 13 de janeiro, o Departamento de Recursos Marinhos das Bahamas anunciou a elaboração de recomendações oficiais para proteção das conchas, incluindo o fim das exportações e o aumento da equipe reguladora. Essas recomendações estão aguardando aprovação do primeiro-ministro.

Ponto de alerta

O território de conchas se estende por todo o Caribe. As conchas habitam principalmente pastagens submarinas—planícies grandes e arenosas com grama alta e ondulante—que se mantêm saudáveis por meio da colaboração das conchas ao comer a matéria vegetal morta. Elas também são uma importante fonte de alimento para grandes predadores, como tubarões-enfermeiros e tartarugas.

As conchas já foram prolíficas em Florida Keys, mas a pesca predatória e a colheita comercial resultaram em um colapso da pesca em 1975. A pesca de conchas em Aruba, Bermudas, Costa Rica e Haiti também acabou com a superexploração. Além disso, muitos outros lugares também sofrem com a pesca predatória.

A regulamentação de pesca de conchas das Bahamas é uma das mais frouxas do Caribe. O mergulho para a pesca de conchas é proibido, há cotas de exportação e uma rede de áreas marinhas protegidas proíbe a pesca. Contudo conservacionistas dizem que os reguladores não dispõem de pessoal e financiamento para fazer cumprir essas regras, que, de acordo com eles, são fracas demais.

Em 1970, pouco menos de 100 toneladas métricas de conchas eram pescadas a cada ano, de acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. Esse número chegou a mais de 800 em 2006 e caiu para 400 em 2014.

Em 2015, cerca de 400 toneladas métricas de concha foram pescadas nas Bahamas e aproximadamente metade foi exportada a um valor estimado de US$2,3 milhões. O restante foi vendido no país. De acordo com um relatório da NOAA, quase toda a carne de concha exportada é enviada para os EUA.

Balanço

Foi em 2011 que os cientistas começaram a se preocupar com o número de conchas nas Bahamas, conta Allan Stoner, um dos autores do artigo recente que fez o alerta de 10 anos. Ele é biólogo do grupo de conservação Community Conch e estuda os moluscos há três décadas. Ele afirma que a taxa de declínio se tornou preocupante ao analisar a contagem da população na última década. “Comparamos o trabalho de pesquisa de populações nos anos 1990. E o mesmo cenário em 2011 foi um terrível despertar”, ele conta.

Uma pesquisa mais recente apenas aumentou as preocupações.

Em um dia quente e ensolarado em abril passado, dois pesquisadores do Shedd Aquarium de Chicago foram contar conchas nos recifes de Exuma do país. Historicamente, as populações mais saudáveis de conchas habitam esses recifes, que fazem parte de uma área marinha protegida nas Bahamas.

Ao flutuar sobre as pastagens submarinas nas límpidas águas azul-turquesa, o biólogo Andy Kough e a gerente do programa de mergulho, Amanda Weiler, estenderam uma fita métrica entre eles para determinar o espaço exato que planejam medir. Eles esperavam encontrar muitas bebês concha.

Mas no trecho em que sua fita métrica estava estendida, Kough encontrou apenas algumas adultas e contou apenas uma escassa população de jovens—a idade necessária para garantir que as comunidades de conchas fossem mantidas. As águas, que já foram lotadas o suficiente para serem consideradas um berçário, estavam escassas.

“Esse ano, talvez, esteja apenas diferente”, ele conta, acrescentando que um berçário vazio não é suficiente para que os cientistas tirem conclusões sobre a saúde da pesca como um todo. Mas é o padrão crescente de diferentes anos que preocupa os conservacionistas.

Seis meses depois, Kough fez uma parceria com Stoner e Martha Davis, diretora do Community Conch, para publicar suas descobertas no jornal Fisheries Science & Aquaculture. Eles acreditam que sem intervenção as conchas não serão capazes de se reproduzir a uma velocidade rápida o suficiente para acompanhar a intensa demanda dos pescadores nas Bahamas.

“Não acredito que chegamos a um ponto crítico ainda,” afirma Stoner, descrevendo seus resultados como um alerta.

Soluções científicas

Em seu artigo, Kough e Stoner fazem diversas recomendações de como salvar a pesca de conchas.

Uma delas é exigir que as conchas sejam retiradas da água em suas cascas. As conchas, principalmente as mais velhas, podem ser pesadas e a maioria dos pescadores nas Bahamas pesca por mergulho livre—eles simplesmente prendem a respiração para mergulhar sem a ajuda de equipamentos de mergulho. Para usar a energia de forma eficiente, eles mergulham até as pastagens submarinas, quebram as conchas e retiram as lesmas, deixando a casca para trás.

Mas as cascas são importantes porque são o único indicador da idade da concha—quanto mais grosso for o “lábio”, mais velha é a concha. Apenas as conchas adultas podem ser pescadas legalmente. Essa regra tem como objetivo permitir que as conchas tenham tempo suficiente para se reproduzirem antes que sejam retiradas de seu ecossistema, garantindo assim, uma população estável. O Departamento de Recursos Marinhos das Bahamas planeja recomendar uma espessura mínima obrigatória do lábio, sujeita a aprovação do primeiro-ministro. Ainda não se sabe qual medida será recomendada oficialmente pelo departamento, mas a Bahamas National Trust, a organização sem fins lucrativos que gerencia os parques nacionais das Bahamas, sugere 15 milímetros.

Kough está otimista com essa mudança. “As recomendações são um sinal claro de que o departamento está ciente da trajetória preocupante da população de conchas nas Bahamas,” ele diz.

O artigo também sugere a proibição da exportação de conchas, uma proposta apoiada por Shelly Cant-Woodside, diretora de ciências e políticas da Bahamas National Trust. “É a alternativa mais fácil”, ela conta, e de fato está entre o pacote de recomendações para o primeiro-ministro neste mês.

Tanto o artigo como Cant-Woodside concordam em limitar a pesca de conchas a apenas alguns meses do ano.

Depois, há a ideia de proibição de pesca de cinco anos. “Essa é a opção mais extrema e há muitas outras coisas que podem ser feitas para evitar esse tipo de medida excessiva”, diz Kough.

Vontade política

Para qualquer uma das políticas promulgadas, Cant-Woodside prevê uma reação negativa. “Não estamos acostumados com regulamentações e aplicações de lei”, ela conta, descrevendo um sentimento nacional de individualismo moldado pela era da pirataria na região. Qualquer restrição no que para muitas pessoas é sua única fonte de renda será vista com resistência, ela diz.

Alguns, no entanto, são menos resistentes do que outros. “Tenho muitos talentos quando se trata do meu negócio, mas para algumas pessoas, é um pouco assustador”, afirma Stephen Dean, nativo das Bahamas e proprietário de um restaurante que serve conchas pescadas localmente. Se as conchas não estiverem mais disponíveis, diz, ele recorrerá à culinária de outros pratos, mas ouve dos pescadores de conchas no campo que eles estão preocupados com o futuro da pesca.

Dean afirma que muitos mergulhadores culpam os seis milhões de turistas que visitam as Bahamas todos os anos e geralmente levam as conchas como souvenires ou os vizinhos dominicanos que pescam ilegalmente nas águas das Bahamas.

A Bahamas National Trust, em conjunto com outras organizações locais, está criando alternativas de emprego para os moradores locais interessados. A apicultura, por exemplo, é uma atividade mencionada por Cant-Woodside. A grande indústria do turismo das Bahamas mostra que também há oportunidades para pessoas ocuparem cargos de guias de turismo—mas a tradição e a proporção da indústria das conchas se perderão se a pesca chegar a um fim.

Embora a avaliação científica de Stoner e Kough sobre a pesca mostre uma imagem negativa, eles dizem que não é tarde demais para salvar as conchas nas Bahamas.

“É uma oportunidade rara para eles reconhecerem o que está acontecendo antes que seja tarde demais”, afirma Kough.

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