Animais

Santuário de borboletas será atravessado pelo muro da fronteira dos EUA

Com 40 hectares, o Centro Nacional de Borboletas possui uma das maiores concentrações deste inseto no país.Thursday, March 21

Por Sarah Gibbens
Borboleta da espécie Melanis pixe pousada no Centro Nacional de Borboletas em Mission, Texas.

A construção de um trecho de quase dez quilômetros de muro feito de aço e concreto ao longo da fronteira entre o Texas e o México está planejada para começar no fim deste mês. Contudo, conservacionistas estão em uma batalha jurídica urgente com o governo antes que seja tarde demais para o Centro Nacional de Borboletas, uma propriedade privada da Associação de Borboletas da América do Norte (NABA) que poderia ser fatiada pelo muro.

O centro de 17 anos se estende por cerca de 40 hectares, logo ao sul de Mission, no Texas, uma cidade contornada pelo Rio Grande na parte de trás e a uma hora ao norte da extremidade sul do estado.

Antes de ser adquirida pela NABA, a propriedade do centro de borboletas produzia cebolas, conta a Diretora Executiva Marianna Treviño-Wright. E, nos anos seguintes, o centro replantou a propriedade com espécies nativas e ameaçadas de extinção que servem como fontes de néctar para as borboletas.

O Vale do Baixo Rio Grande possui algumas das mais elevadas concentrações de borboletas dos Estados Unidos — tanto em volume quanto em quantidade de espécies. A icônica e migratória monarca é só mais uma delas. Graças à geografia do vale, ele contém 11 diferentes regiões ecológicas e conta com uma profusão de plantas floríferas. Atrás dessas plantas, vêm os diferentes tipos de borboletas que evoluíram com elas.

 “Cada espécie está intimamente relacionada a uma ou duas espécies de plantas”, afirma Treviño-Wright. “Se a planta hospedeira desaparecer, elas desaparecem.”

Tomando o país das borboletas

O desaparecimento das borboletas devido à construção do muro é o que preocupa Treviño-Wright e outros conservacionistas. Em diversas regiões ao longo da fronteira, o muro não ficará exatamente na linha que divide os Estados Unidos e o México. Em numerosos casos, como acontece com o centro, ele será construído a uma distância de um a quatro quilômetros ao norte da fronteira no lado dos Estados Unidos.

Muitos parques estaduais e federais poderiam ser divididos. Reservas naturais federais oferecem menor resistência porque já são de propriedade do governo. Teoricamente, Gregg Abbott, o governador do Texas, poderia resistir à construção do muro em parques estaduais, embora especialistas considerem ser improvável que o governador de direita tome essa medida.

Para tomar propriedades privadas como as do Centro Nacional de Borboletas, o Departamento de Segurança Nacional (DHS) pode desapropriá-las. O processo permite que o governo tome propriedades privadas, declarando-as de utilidade pública, como por questões de segurança. Os proprietários ainda receberão o que o governo considerar um valor justo.

Aqueles que contestam a declaração de utilidade pública do DHS raramente ganham “e lhes restam poucos recursos”, afirma Raul Garcia, advogado da assessoria jurídica sênior do grupo ambiental EarthJustice.

Em outubro de 2018, o Centro de Diversidade Biológica e Defensores da Vida Silvestre entrou com uma ação judicial contra o DHS para impedir a construção do muro da fronteira, citando violações contra leis, como a Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção. No início desta semana, o Centro Nacional de Borboletas tentou ganhar mais tempo também apresentando uma liminar para impedir que o DHS prosseguisse com a construção do muro.

Garcia afirma que é difícil prever o resultado da ação do centro, que depende do juiz que assumir o caso e do próximo passo do governo Trump.

Treviño-Wright conta que o centro ainda será informado da data marcada para a audiência.

Fragmentação pode afetar a vida silvestre

Foi em 3 de fevereiro que Treviño-Wright afirma ter começado a ver equipamentos de construção atravessarem a propriedade do centro, embora já tenha visto topógrafos na propriedade do centro durante o ano passado.

A colocação do muro da fronteira terra adentro cortaria o centro bem ao meio.

Como utilidade pública, só é permitido tomar a quantidade de terra que se planeja dedicar ao uso público”, afirma Garcia “O que ocorre, especificamente no contexto do centro, é que se dividirá a terra ao meio e, dos dois lados, haverá terras que ainda serão de propriedade do centro de borboletas.”

“Teremos um portão com um código de teclado eletrônico”, afirma Treviño-Wright, o que fornecerá ao governo acesso as duas metades da propriedade se o muro for construído. E o governo não será o único. Vizinhos—incluindo uma igreja católica, um camping de trailers e residências particulares—também terão acesso a um portão.

Em resposta às perguntas da National Geographic, a Proteção Aduaneira e de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP) informou o seguinte por e-mail: “Em função da nossa política, a CBP não comenta ações judiciais em curso. No entanto a falta de comentários não deve ser interpretada como uma aceitação ou admissão de nenhuma das alegações. Na missão de segurança nacional do DHS, nossos profissionais policiais treinados cumprem a missão do Departamento, defendem nossas leis enquanto continuam a fornecer segurança e proteção à nossa nação.”

E o que será das borboletas?

“Se você eliminar o habitat, eliminará as áreas de alimentação e procriação (das borboletas)”, afirma Treviño-Wright.

As borboletas são importantes polinizadores que, como as abelhas, auxiliam no crescimento e desenvolvimento da flora, acrescenta ela. É um erro comum pensar que elas serão capazes de simplesmente voar sobre o muro. Muitas espécies voam a altitudes inferiores a dois metros. As lanternas utilizadas ao redor do muro à noite ainda poderiam desorientar as borboletas e outros animais.

A extremidade mais ao sul do Texas é considerada rica em termos biológicos, com animais como jaguatiricas que não são encontrados em mais nenhum lugar dos Estados Unidos. Conservacionistas estão preocupados de que a divisão ainda maior de seu habitat com novos muros poderia interferir com as migrações dos animais e inibir sua capacidade de encontrar alimento e parceiros de acasalamento.

“As margens do Rio Grande possuem uma joia”, afirma Treviño-Wright, referindo-se às reservas naturais do vale. Algumas das criaturas mais fantásticas do país vivem aqui.”