Animais

Argentina introduziu castores na Tierra del Fuego, mas não foi uma boa ideia

Em 1946, o governo desejava criar uma indústria para a comercialização de pele. Mais de 70 anos depois, ficou claro que o ecossistema da região não foi feito para abrigar esses animais.terça-feira, 6 de agosto de 2019

Por Haley Cohen Gilliland
Fotos de Luján Agusti
Um castor constrói uma represa próximo a Ushuaia, a maior cidade de Tierra del Fuego. As represas construídas pelos castores desviam rios e substituem água corrente por água parada, alterando o tipo de vida selvagem capaz de prosperar na região.

ATÉ NOVE ANOS atrás, quando começou a caçar castores com uma espingarda calibre 22, Miguel Gallardo nunca havia possuído uma arma, muito menos matado um animal. Ele havia passado uma década trabalhando para proteger a flora e a fauna chilenas, realizando patrulhas como policial do serviço florestal nas reservas ambientais do país. Posteriormente, Gallardo foi transferido a Puerto Williams, uma pequena cidade na Ilha Navarino, constantemente castigada pelo vento, perto da porção mais ao sul do Chile.

Gallardo ficou estarrecido quando começou a explorar seu novo território em 2010. No lugar onde havia uma exuberante floresta de árvores faia-lenga, ele encontrou troncos caídos, galhos sem folhas e tocos retorcidos. "Estava tudo branco porque tudo estava morto. Parecia uma floresta fantasma", lembra ele.

Em 1946, o exército argentino levou 20 castores do Canadá a Tierra del Fuego na esperança de incentivar o comércio de pele. A indústria nunca prosperou, mas os castores sim: hoje há cerca de 110 mil deles. Esses animais diligentes se espalharam para o lado chileno da ilha e para as regiões continentais da Argentina e do Chile, deixando para trás florestas mortas e lagos de água parada.

O ponto máximo foi uma colônia de castores vorazes, que havia derrubado árvores para se alimentar das folhas e construir represas com os galhos. Essas represas já haviam desviado rios e causado enormes inundações, tornando a caminhada difícil.

Compelido a fazer algo, Gallardo solicitou o porte de arma, comprou uma e começou a caçar o maior número de castores que conseguia. Em 2015, Gallardo deixou seu emprego no serviço florestal e fundou a Navarino Beaver, uma empresa de turismo que promove trilhas pelas florestas fantasmas, caça a castores e refeições com pratos compostos pela carne magra do animal, preparados por Gallardo "al disco" — refogada em uma panela redonda sobre o fogo.

Em 2008, a Argentina e o Chile chegaram à conclusão de que precisam se livrar dos castores para salvar suas florestas, localizadas na porção mais ao sul do continente. Alguns caçadores que trabalham para erradicar os castores usam armadilhas com laços além de espingardas. Mas os castores são espertos — às vezes eles usam plantas e pequenos galhos para acionar as armadilhas e saírem ilesos.

Essa mudança total na carreira pode parecer surpreendente. Mas, assim como muitos outros conservacionistas na América do Sul, Gallardo passou a acreditar que a sobrevivência das florestas da Patagônia dependia do extermínio dos castores.

Castores canadenses na América do Sul

Os castores deveriam "enriquecer" a Patagônia, do ponto de vista econômico e ecológico. Pelo menos essa era a meta do exército argentino quando trouxe 10 casais de castores canadenses de Manitoba a Tierra Del Fuego, a província mais ao sul da Argentina, em 1946. Os soldados soltaram os castores às margens do Lago Fagnano na esperança de fomentar o comércio de pele e atrair mais residentes àquela área tão pouco povoada.

Vista aérea de uma represa construída por castores no rio Lasifashaj. Essas represas são tão grandes na Patagônia que pesquisadores são capazes de identificá-las em imagens de satélite. Em um estudo de 2019, foram registradas 70,6 mil represas no lado argentino da principal ilha de Tierra del Fuego. Outros cientistas classificam o impacto dos castores na Patagônia como "a maior alteração de paisagem em florestas subantárticas desde a última era do gelo".

Um videoclipe de Sucessos Argentinos, uma série de televisão que foi ao ar de 1938 a 1972, expressou preocupações sobre a fragilidade do experimento. Os castores são monógamos. Se um dos animais morrer, contou o apresentador do programa com voz desanimadora, seu parceiro provavelmente não se reproduz mais.

Mas essa preocupação não se concretizou, e outro problema foi observado. Ao passo que o comércio de pele nunca se tornou realidade, o que realmente aumentou foi o número de castores.

Um caçador local de castores segura uma pele que foi salgada, seca e presa a um pedaço de madeira para venda. A demanda por essas peles é baixa e os preços giram em torno de US$ 10.

Ao contrário da América do Norte, que abriga castores e lobos, a ilha da Tierra del Fuego possui poucos predadores naturais que caçam castores. Com acesso a amplas florestas e estepes as quais podem colonizar sem medo, os castores se multiplicaram e se dispersaram rapidamente.

Na década de 1960, os castores cruzaram para o lado chileno da Tierra del Fuego. "Eles não reconhecem fronteiras. Na verdade, devoram as cercas que delimitam os territórios", afirma Felipe Guerra Díaz, coordenador nacional chileno do projeto castor da Global Environment Facility (GEF), uma parceria internacional que financia esforços ambientais. No início da década de 1990, residentes começaram a avistar castores na Península de Brunswick, região continental do Chile, o que significa que os animais haviam vencido as imprevisíveis correntes do Estreito de Magalhães.

No caminho, deixaram para trás florestas fantasmas. Árvores norte-americanas evoluíram ao longo de milhões de anos para sobreviverem à voracidade dos castores, explica Ben Goldfarb, jornalista ambientalista e autor do livro Eager: The Surprising, Secret Life of Beavers and Why They Matter (Eager: A vida secreta dos castores e sua importância, em tradução livre).

As árvores na América do Norte evoluíram ao longo de milhões de anos para suportar o apetite voraz dos castores. Os castores foram apenas recentemente introduzidos no ecossistema da América do Sul — as árvores nativas desse continente não desenvolveram as mesmas defesas.

"Árvores como salgueiro, algodão-americano, faia e amieiro evoluíram e criaram formas de responder ao processo dos castores de roer árvores e represar água. Elas rebrotam quando são cortadas, produzem substâncias químicas em sua defesa e toleram solos úmidos". Mas como os castores não são nativos da América do Sul, as árvores desse continente não desenvolveram as mesmas defesas.

Os governos da Argentina e do Chile começaram a perceber a extensão do problema com os castores na década de 1990. Naquela época, os países tentaram incentivar a caça recreativa e comercial, mas o baixo preço das peles prejudicou os esforços. Uma matéria de 1998, publicada no jornal argentino La Nación, cita Juan Harrington, caçador de castores: "Esses animais são muito bonitos, mas muito destruidores. E a única forma de controlar sua população é caçando-os. Mas como sua pele não vale muito, US$ 20 no máximo, ninguém se motiva de verdade".

Os castores derrubam árvores para se alimentarem de suas folhas e criam ninhos a partir de seus troncos e galhos. As árvores sul-americanas não possuem as mesmas defesas que as árvores norte-americanas, que rebrotam quando são cortadas e liberam substâncias químicas ao serem roídas.

Desde então, a população de castores deixou de ser contabilizada, mas a GEF estima que seja de 70 mil a 110 mil indivíduos na Patagônia e Tierra del Fuego. Os castores colonizaram pelo menos 69,9 mil quilômetros quadrados de território e dizimaram quase 310 quilômetros quadrados (31 mil hectares) de turfeiras, florestas e pradarias — uma área com quase o dobro do tamanho de Washington, D.C. Um artigo científico de 2009 classifica o impacto dos castores na Patagônia como "a maior alteração de paisagem em florestas subantárticas desde a última era do gelo".

Caçadores usam essa substância oleosa à base de castóreo para atrair castores para fora de suas tocas. O castóreo é uma substância pungente que os castores secretam para marcar seu território.

Quando estudaram a Ilha Navarino, pesquisadores da Universidade do Norte do Texas descobriram que os habitats modificados pelos castores deram abertura a outras duas espécies invasoras: os arganazes e as martas. Os arganazes usam os lagos de água parada criados pelas represas dos castores. Eles, por sua vez, são caçados pelas martas, uma espécie que também caça gansos, patos e pequenos roedores nativos. Os pesquisadores sugerem que um "processo descontrolado de invasão" possa estar ocorrendo, no qual o impacto negativo causado por uma espécie invasora é exacerbado por outra espécie invasora.

Os castores destruíram infraestrutura também, inundando rodovias e canais, e causando danos à agricultura e à pecuária. Eles normalmente roem cercas que contêm rebanhos de ovelha. Em 2017, os castores roeram cabos de fibra óptica em Tierra del Fuego, interrompendo o serviço de internet e celular na maior cidade da região. Guerra Díaz afirma que um recente estudo compartilhado com a GEF sugere que os danos causados pelos castores geram um custo de US$ 66 milhões por ano apenas à Argentina.

Erradicação

Em 2008, a Argentina e o Chile chegaram a um acordo de que controlar a população de castores não seria suficiente, tendo como meta a erradicação total. Um relatório lançado naquele ano, com contribuições de pesquisadores da Nova Zelândia e dos Estados Unidos, sugeriu que a erradicação seria viável, mas que custaria até US$ 33 milhões. Após conseguir subvenções da GEF e de outros parceiros, em 2016, os países deram início a uma série de projetos-piloto para explorar a melhor forma de proceder.

Conforme o sol se põe em Tierra del Fuego, um castor saboreia um galho de árvore próximo a um tronco caído.

No início desse ano, os pesquisadores divulgaram os resultados preliminares de seu projeto-piloto na região de Esmeralda-Lasifashaj, na Argentina, realizado de outubro de 2016 a janeiro de 2017. Durante esse período, 10 colocadores de armadilhas, que o relatório denominou "recuperadores", instalaram armadilhas e laços de apreensão na área designada, muito frequentada por esquiadores cross-country. De forma geral, 197 castores foram pegos em armadilhas e outros sete castores foram abatidos com arma de fogo. Os colocadores de armadilhas acreditaram ter eliminado todos os animais da área, mas, posteriormente, avistaram diversos deles em câmeras acionadas por movimento. Não ficou claro se os castores sobreviventes haviam invadido a área novamente a partir de outros locais não abrangidos pela área-piloto ou se haviam sobrevivido às tentativas iniciais de captura dos colocadores de armadilhas.

Para Erio Curto, diretor de Fauna e Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente de Tierra del Fuego, que ajudou a realizar o estudo, os resultados confirmaram que a erradicação é tecnicamente possível. Mas isso não significa que será fácil.

Este crânio é de um castor morto é parte do projeto-piloto de erradicação criado pelo governo argentino. Os castores possuem altos níveis de ferro em seu esmalte dentário. Consequentemente, seus incisivos são resistentes e possuem uma forte coloração laranja. Os dentes dos castores não param de crescer, então o ato de roer não causa nenhum tipo de desgaste.

Tierra del Fuego é composta por centenas de pequenas e acidentadas ilhas de difícil acesso. Curto adverte que se os castores sobreviverem em apenas uma ilha, eles poderiam repovoar o arquipélago inteiro e até mesmo voltar para o continente. Quando os estudos-piloto forem concluídos nos próximos anos, os governos do Chile e da Argentina precisarão chegar a um acordo sobre como proceder: traçar estratégias diferentes em cada país resultaria em fracasso. Curto explica: "A erradicação dependerá exclusivamente de esforços políticos prolongados". Na Argentina, onde a alta inflação levou um terço da população à pobreza, pode ser especialmente difícil convencer as pessoas a se importarem com as florestas destruídas no extremo sul.

Mas se a população viajasse para testemunhar a devastação dos castores com seus próprios olhos, Gallardo acredita que tanto os argentinos quanto os chilenos apoiariam a erradicação. Recentemente, um de seus clientes se apresentou como um veterinário que não comia carne e que abominava a ideia de matar animais. Até o fim do dia em que passaram juntos, fazendo trilhas pelas florestas sem vida da Ilha Navarino, o veterinário havia ajudado Gallardo a matar cinco castores. "Ele finalmente entendeu por que eu caço esses animais", diz Gallardo. "Não é pelo fato de matar animais. É para salvar o ecossistema. A culpa não é dos castores — derrubar árvores faz parte da natureza deles. A culpa é do homem".

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