De focas a escaravelhos, esses animais se orientam pelas estrelas

O céu noturno guia um pequeno e diverso grupo de espécies em busca de alimentos e parceiros.terça-feira, 12 de novembro de 2019

Desde os tempos antigos, o homem se localiza pelas estrelas, mas um pequeno e diverso grupo de espécies também usa o céu noturno para saber aonde ir. Alguns reconhecem o movimento dos padrões estelares, enquanto outros se orientam pelo brilho individual das estrelas. Alguns deles até traçam seus percursos utilizando como base a nossa galáxia, a Via Láctea.

Orientar-se pelas estrelas é uma habilidade complexa que ajuda tanto escaravelhos quanto focas a migrares, se alimentares e buscares parceiros. Mesmo uma criatura tão pequena quanto um escaravelho, com um cérebro do tamanho de um grão de arroz, pode contemplar o céu estrelado e decidir para onde ir.

“Acho isso extremamente fascinante”, diz Marie Dacke, especialista em sistemas de navegação utilizados por animais da Universidade de Lund, na Suécia. “Toda vez que eu os observo [escaravelhos], fico bastante impressionada com o que são capazes de fazer”.

A bússola estelar é uma das diversas pistas existentes para navegação, assim como pontos de referência, posição da Lua, direção do vento, ou até mesmo o campo magnético da Terra.

De forma geral, cientistas buscam compreender como os olhos e os cérebros desses animais que se orientam pelos céus evoluíram para processar indicações visuais localizadas muito além de nosso Sistema Solar. Esse estudo pode oferecer novas informações sobre os efeitos da poluição luminosa na vida selvagem e até aperfeiçoar o design de robôs que precisam se locomover sozinhos.

A seguir conheça alguns dos animais que se orientam pelas estrelas.

Pássaros migratórios

Os pássaros da espécie Passerina cyanea da América do Norte, como muitos outros pássaros canoros migratórios, voam rumo ao sul para fugir do inverno e preferem fazer isso à noite.

Em 1967, pesquisadores em Michigan capturaram temporariamente vários desses pássaros durante a migração de outono. As aves foram levadas ao Planetário Robert T. Longway, em Flint, no estado de Michigan, e colocadas em gaiolas especiais com vista para uma abóbada iluminada pelas estrelas.

Durante a temporada de migração, antes de levantar voo, os pássaros canoros se orientam pulando e se voltando para a direção aonde desejam ir. Como o céu do planetário girava em torno da Estrela do Norte, imitando o movimento do céu noturno, os pássaros, conforme esperado, tentaram se voltar para o sul.

No entanto, quando os pesquisadores removeram as constelações que estavam a 35 graus da Estrela do Norte, algo interessante aconteceu: os pássaros ficaram desorientados.

A pesquisa revelou que as estrelas isoladamente não são tão importantes para os pássaros quanto observar a rotação de padrões estelares próximos em torno de um ponto central. Na natureza, isso permite que as aves determinem onde está o norte e usem essa informação para voar para o sul.

Focas estrategistas

Por milhares de anos, marinheiros polinésios utilizaram estrelas-guia para se localizarem no mar, mas é possível que as focas-comuns já faziam uso dessa estratégia muito antes.

Vivendo nas costas dos oceanos Atlântico e Pacífico do Hemisfério Norte, esses mamíferos marinhos passam boa parte do tempo procurando alimento à noite e, nessas circunstâncias, não possuem pontos de referência terrestres.

Em 2006, cientistas alemães e dinamarqueses investigaram a habilidade desses animais de se orientarem pelas estrelas. Duas focas-comuns que viviam em cativeiro no Marine Science Centre, na Alemanha, foram colocadas em um planetário flutuante construído exclusivamente para elas.

A equipe treinou os dois pinípedes, chamados Nick e Malte, para nadarem na direção de estrelas-guia específicas, e depois descobriu que os animais eram capazes de identificar uma única estrela a partir de uma projeção realista do céu noturno do Hemisfério Norte, de acordo com estudo de 2008.

Isso sugere que as focas-comuns podem usar estrelas-guia específicas como pistas de navegação para se aventurarem longe da costa — essa foi a primeira evidência científica de um mamífero marinho que se orienta pelas estrelas.

Se isso realmente acontece na natureza, é provável que a navegação orientada pelas estrelas ajude as focas a buscarem, de forma eficiente, uma área para conseguir alimento, observa Dacke.

Escaravelhos e os pontos de luz

As focas conseguem ver cada estrela individualmente porque, como todos os vertebrados, seus olhos são “com uma câmera — possuem uma lente e uma abertura por onde a luz entra e atinge a retina, que faz o papel do filme”, diz Dacke. Essa configuração anatômica permite a entrada de muita luz, sendo que objetos pequenos e relativamente de pouco brilho, como as estrelas, conseguem ser detectados.

Os insetos, por outro lado, não conseguem ver estrelas individualmente: seus olhos compostos não conseguem detectar detalhes precisos, como pontos únicos de luz. No entanto, um agrupamento de estrelas tão grande e denso quanto a Via Láctea seria visto por eles como uma única faixa luminosa. Para o escaravelho-africano, Scarabaeus satyrus, de hábitos noturnos, isso se torna um ponto de referência útil.

Eles se aproximam ao sentir o odor de excremento fresco. Mas a concorrência é acirrada, então alguns fazem uma pequena bola de esterco e a transportam a algum lugar mais isolado, o mais rápido possível. “É como ir a um restaurante e pedir comida para viagem”, brinca Dacke.

Mais uma vez, a eficiência é fundamental — os besouros que viajam em linha reta conseguem percorrer uma distância maior em menos tempo.

Para conseguir isso, o S. satyrus geralmente se orienta pela luz polarizada da Lua. Mas em noites sem luar, a Via Láctea auxilia no processo, de acordo com a pesquisa realizada por Dacke. Ela afirma que o único animal já confirmado a se orientar pela Via Láctea é esse besouro.

“Desde que mantenham a mesma orientação em relação à posição inicial, eles seguirão em frente”, diz ela.

Provavelmente há muito mais animais que se orientam pelas estrelas, acrescenta Dacke. Por exemplo, evidências iniciais sugerem que piscos-de-peito-roxo, mariposas da espécie Noctua pronuba e talvez até sapos da espécie Acris crepitans também utilizam essa estratégia.

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