‘É uma crise generalizada’: o combate ao envenenamento de abutres no Quênia

Resposta rápida pode evitar tragédia maior no país, mas a população de abutres na África continua escassa.segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Por Haley Cohen Gilliland
Fotos de Charlie Hamilton James

Quando os guardas que patrulhavam a Área de Conservação Ol Kinyei, no Quênia, encontraram uma hiena morta e quase uma dúzia de abutres espalhados pelo chão em 13 de novembro, eles souberam imediatamente o que havia acontecido — os animais tinham sido envenenados. Algumas das aves ainda demonstravam sinais de vida, apesar de estarem fracas.

Simon Nkoitoi, gerente da Área de Conservação, uma área particular de proteção da vida selvagem na Reserva Nacional Masai Mara, ligou imediatamente para Valerie Nasoita, oficial responsável por cuidados com abutres do Peregrine Fund, uma organização sem fins lucrativos dedicada à proteção de aves de rapina.

“Por favor, venha salvá-los”, ele suplicou para Nasoita.

Nasoita, criada em Masai Mara, faz parte de uma rede de atendimento rápido formada em 2016 por vários grupos de conservação preocupados com o estado precário da população de abutres da África.

Das onze espécies de abutres do continente, sete são consideradas como gravemente ameaçadas ou ameaçadas de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza. Nas últimas três décadas, oito espécies de abutres-africanos foram reduzidas em cerca de 62%, de acordo com um estudo de 2015 realizado por pesquisadores de várias universidades e organizações sem fins lucrativos, incluindo o Peregrine Fund. O estudo descobriu que mais de 60% das mortes de abutres relatadas foram causadas por envenenamento. (Leia mais sobre como o envenenamento é uma ameaça crescente à vida selvagem da África.)

“Esta é uma crise generalizada”, diz Simon Thomsett, do Kenya Bird of Prey Trust, uma organização de resgate e reabilitação de aves de rapina no Rift Valley do país.

Devido ao atendimento de equipes rápidas e colaborativas, como a dele e a de Nasoita, alguns dos danos podem ser mitigados. Mas os grupos de conservação que trabalham para proteger os abutres continuam muito preocupados em achar formas de impedir, antes de tudo, o envenenamento.

Os abutres como alvos

O envenenamento de abutres na África pode ser dividido em duas categorias. No sul da África, principalmente, caçadores aplicam veneno em elefantes e rinocerontes mortos para matar intencionalmente abutres que podem alertar os guardas florestais da realização de atividades ilícitas. Em um caso particularmente horrível ocorrido em junho, mais de 530 abutres ameaçados de extinção morreram depois de se alimentarem de um elefante envenenado em Botsuana.

No leste da África, os abutres normalmente ficam no meio de batalhas travadas entre humanos e predadores. Os criadores que perdem seu gado para leões, hienas e outros carnívoros, como forma de retaliação, às vezes borrifam pesticidas tóxicos sobre as carcaças dos animais pegos. O veneno mata o predador, mas também mata os abutres que se aglomeram para se alimentarem dos animais envenenados.

À medida que a população humana do Quênia cresce, Masai Mara se torna um ponto específico para envenenamento com propósito de vingança, diz Thomsett. A Cottar’s Wildlife Conservation Trust, que administra a Área de Conservação da Vida Selvagem da Comunidade Olderkesi, em Masai Mara, acredita que a ação ocorra a cada dois meses.

Consequências aos humanos

Com bico bastante curvo e cabeça e pescoço com poucas penas, a aparência física dos abutres não é um de seus pontos fortes. A dieta deles, que consiste em devorar animais que acabaram de morrer, também não lhes rende muito carisma. Isso torna os abutres um grupo mais difícil de proteger do que espécies fotogênicas como elefantes e leões, diz Ralph Buij, diretor do Programa África liderado pelo Peregrine Fund.

Mas, como os únicos vertebrados terrestres capazes de sobreviver alimentando-se de restos, os abutres são muito importantes para a saúde do ecossistema africano. Muitas vezes, chegando dentro de meia hora após a morte de um animal, os abutres consomem toda a carniça, devorando cerca de um quilo de carne em apenas um minuto. Seu estômago é altamente ácido, permitindo a digestão segura de animais doentes e saudáveis, reduzindo a chance de doenças como antraz, tuberculose e raiva serem transmitidas a outros animais selvagens ou a humanos. 

Os conservacionistas apontam a Índia como exemplo do impacto negativo que o desaparecimento de abutres pode causar. Na década de 1990, os pesquisadores notaram uma queda surpreendente nas populações de abutres. No fim, eles vincularam a morte dos animais ao diclofenaco, um medicamento anti-inflamatório que os pastores usavam para tratar vacas doentes, consideradas sagradas na cultura hindu. Depois que as vacas morriam, os abutres se esbaldavam, ingeriam diclofenaco e também morriam.

Em 2006, a Índia, o Paquistão e o Nepal baniram o medicamento para uso veterinário, mas a medida veio tarde e as populações dos abutres mais comuns da Índia — abutre-indiano-de-dorso-branco, abutre-de-bico-longo e abutre-de-bico-estreito — já haviam sido reduzidas em mais de 96%. As consequências para o homem foram graves: um estudo de 2008 descobriu que a redução no número de abutres foi correlacionada a um aumento no número de cães selvagens, que não precisavam mais competir com essas aves por comida. Esse aumento elevou o número de mordidas por cães, o que resultou em uma estimativa de 48 mil pessoas afetadas e mortas pela raiva.

Esforços de resgate

Desesperados para evitar uma calamidade semelhante, os grupos de conservação que trabalham no Quênia estão se esforçando para atender a todos os eventos de envenenamento o mais rápido possível.

Assim que soube dos abutres infectados em Ol Kinyei, Valerie Nasoita pegou uma moto e acelerou em direção ao local. “Cheguei lá sete minutos depois de ficar sabendo do ocorrido”, diz ela.

Vestindo uma camiseta estampada com uma imagem do abutre-indiano-de-dorso-branco, espécie criticamente ameaçada, e com as palavras “Protetor de Abutres”, Nasoita e vários guardas florestais levaram os abutres sobreviventes para a sombra e administraram atropina, um antídoto que combate intoxicação por pesticidas. Conservacionistas de outros grupos, incluindo o Kenya Bird of Prey Trust e o Kenya Wildlife Service, ofereceram suporte pelo grupo de WhatsApp Vulture Protector, que conta com 52 especialistas em abutres de 22 organizações diferentes. No dia seguinte, Jamie Manuel e Danni Cottar, da Cottar’s Wildlife Conservation Trust, removeram os abutres sobreviventes e os levaram a Olderkesi para tratamento adicional.

No fim, dois abutres-torgos ameaçados de extinção e quatro abutres-de-rüppell gravemente ameaçados de extinção morreram. Mas a equipe conseguiu salvar dois abutres-de-rüppell, um abutre-torgo e um abutre-indiano-de-dorso-branco, gravemente ameaçado de extinção.

Em 18 de novembro, Manuel e Cottar soltaram uma fêmea de abutre-de-rüppell novamente aos céus usando um rastreador por GPS. “Foi incrível vê-la voar para longe”, recorda-se Manuel.

Mas a solução, de acordo com eles, é prioritariamente acabar com os envenenamentos.

Para começar, eles gostariam de ver mais ação do estado. Em janeiro, o governo alterou a Lei da Vida Selvagem do Quênia de 2013 para tratar o envenenamento de animais selvagens como um crime independente e punível com multa de cinco milhões de xelins quenianos (cerca de US$ 50 mil) e/ou cinco anos de reclusão.

Quase um ano depois, no entanto, ninguém foi acusado ainda.

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