Arraia gigante pode ter sido o maior peixe de água doce do mundo

Provavelmente com centenas de quilos a mais do que o bagre gigante recordista, a arraia pesava quase 400 quilos. segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

BUNGIN, INDONÉSIA Sabemos que o tubarão-baleia é o maior peixe dos oceanos, mas qual seria o maior peixe de água doce do mundo? A resposta para essa pergunta aparentemente simples permaneceu um mistério tão sombrio quanto os rios do sudeste asiático, onde é possível encontrar a espécie.

Oficialmente, o título dos pesos pesados pertence ao bagre gigante do rio Mekong, com um espécime capturado no norte da Tailândia, em 2005, pesando impressionantes 293 quilos. Mas os pesquisadores sempre acreditaram que houvesse peixes maiores por aí, e uma misteriosa arraia gigante de água doce é a principal concorrente do bagre gigante.

Agora, há provas crescentes de que estavam certos. Uma recente pesquisa sobre rios na Indonésia sugere que uma espécie conhecida como arraia gigante de água doce pode, de fato, pesar muito mais do que o bagre gigante, representada por uma arraia capturada por um pescador na Sumatra do Sul, com mais de 360 quilos ou o correspondente a duas vezes o tamanho de um gorila-das-montanhas. Relatos não verificados de Bornéu apontam capturas de arraias do mesmo tamanho ou ainda maiores.

Zeb Hogan, biólogo especialista em peixes da Universidade de Nevada, em Reno, e explorador da National Geographic, procura as maiores espécies de peixes de água doce há 15 anos e afirma que é quase impossível confirmar os números, mas está convencido de que arraias gigantes podem chegar a dimensões recordistas. No Camboja e na Tailândia, países em que focou sua pesquisa em busca de arraias recordistas, há registros de arraias com mais de 450 quilos. “Não fiquei surpreso com esses relatos de Sumatra e outros lugares”, diz Hogan. “Acredito que a arraia gigante de água doce seja mesmo o maior peixe de água doce do mundo”.

O que ficou claro é que o estudo da espécie se tornou ainda mais urgente, visto que algumas populações de arraia estão diminuindo, juntamente com diversos outros peixes grandes de água doce. Um estudo recente demonstrou que as populações globais de gigantes de água doce foram reduzidas em cerca de 90% nas quatro últimas décadas — duas vezes mais do que a perda de populações vertebradas terrestres e marinhas.

Venenosas, mas intrigantes

A maioria das pessoas conhece as arraias marítimas, mas há dezenas de espécies que habitam rios e lagos ao redor do mundo. A maioria delas não é bem compreendida, incluindo a arraia gigante de água doce. No início, identificada na Indonésia em 1852 pelo ictiólogo holandês Pieter Bleeker, caiu no esquecimento por mais de um século antes de ser descrita como uma nova espécie, em 1990. Anos depois, em 2008, os cientistas concluíram que essa nova espécie era, na realidade, a mesma que Bleeker identificara, sendo batizada de Urogymnus polylepis.

Uma das principais razões pelas quais os cientistas sabem tão pouco sobre as arraias gigantes de água doce é que elas se escondem no fundo dos rios. Por não serem consideradas bons pescados no sudeste asiático, raramente tornam-se alvos de pescadores, ainda que de vez em quando apareçam nas redes de pesca. Quando fisgadas, as impressionantes arraias iniciam uma luta implacável, e há histórias de barcos que foram arrastados por horas após fisgarem um desses animais.

Embora possua um ferrão venenoso e serrilhado de até 38 centímetros de comprimento, não costuma ser uma criatura agressiva e é curiosa, relata Hogan, que viu pela primeira vez uma arraia gigante de água doce no rio Mekong, no Camboja, há mais de 15 anos. Mais tarde, começou a trabalhar com pesquisadores e pescadores recreativos da Tailândia, no rio Mae Klong, perto de Bangkok. A equipe capturou vários peixes enormes ao longo dos anos, mas nunca conseguiu um peso verificado que batesse o recorde.

Relatos confiáveis

No final de novembro, Mohammed Iqbal, biólogo da Universidade Sriwijaya de Sumatra, e eu fomos verificar o relato de um possível novo recorde em uma pequena vila na Sumatra do Sul, onde um pescador chamado Kamar acidentalmente capturou uma arraia gigante de água doce em 2016.

Por quatro horas, cruzamos o turbulento rio Musi em uma lancha velha de madeira. As chuvas torrenciais nos acompanharam por diversas vezes durante o trajeto, que passa por numerosas plantações de dendezeiros e florestas desmatadas. As enormes embarcações que carregam carvão rio acima deixam à mostra os sinais da forte pressão exercida pelo homem no ecossistema.

 

As arraias gigantes de água doce não haviam sido documentadas em Sumatra até 2016, quando Iqbal começou a compilar artigos de jornal e da internet sobre algumas capturas de arraias nos rios locais. Em vários deles, relatavam-se arraias gigantes, sendo a maior delas capturada na foz de um pequeno rio chamado Bungin. Iqbal ficou sabendo que essa arraia pesava mais de 360 quilos.

No final da tarde, chegamos à zona pesqueira de Bungin, que reúne algumas casas de madeira erguidas sobre estacas para mantê-las acima da maré.

Enquanto outra tempestade assolava novamente a vila, o pescador Kamar, conhecido apenas pelo primeiro nome, relatou como a captura aconteceu. Um dia, há três anos, estendeu sua rede no estuário aberto, onde vários rios desaguam no Mar do Sul da China, e a deixou lá durante a noite, torcendo para pescar alguns peixes para vender e comer. Na manhã seguinte, ficou chocado ao encontrar uma arraia enorme. O peixe era pesado demais para ser levado até o barco, lembra Kamar. Então, precisou arrastar a rede com o peixe atrás do barco de volta para a vila.

Foram precisos 15 homens para retirar a arraia da água e colocá-la no chão. Disseram que nunca haviam visto uma arraia tão grande antes. Pegaram uma balança grande emprestada de um armazém de peixes para pesá-la. Kamar conta que pesava “quase 400 quilos”. Mas será que sabia que isso significava a captura do maior peixe de água doce do mundo? Ele nega, balançando a cabeça.

A legitimidade da história pode depender da palavra de Kamar. Mas o que confere credibilidade extra ao acontecido é o fato de que o peixe não foi apenas pesado, sua pele foi removida e guardada por Kamar depois de a arraia ter sido limpa e vendida como pescado. Desde então, a pele murchou, mas tudo indica que era uma arraia com uma largura de cerca de 2,5 metros, possivelmente grande o suficiente para quebrar o recorde anterior.

Apesar de a arraia de Bungin ter sido capturada nas águas salobras ou salgadas da foz do rio, Iqbal tem certeza de que se trata da espécie de água doce Urogymnus polylepis, com base em sua forma e marcas. As outras arraias identificadas por Iqbal foram encontradas rio acima, muitas vezes a quase 100 quilômetros do oceano. “Tudo indica que a espécie vive em água doce, mas também é capaz de suportar água salgada”, explica.

No começo deste ano, Iqbal realizou uma pesquisa semelhante em jornais e relato online sobre capturas de arraias gigantes de água doce perto de Bornéu e encontrou vários outros casos de peixes que podem ter alcançado 293 quilos, o peso do bagre gigante de Mekong que detinha o recorde.

No mês passado, em uma comunidade de pescadores no lago Melintang, na parte indonésia de Bornéu, muitos pescadores relatam ter capturado arraias recentemente. Um deles, El-Hadji Janadi, disse que capturou uma arraia de aproximadamente 230 quilos, utilizando uma rede de arrasto de quase 100 metros, puxada pelo fundo do lago. “Eu não queria pegá-la”, falou. “Sua carne não é muito valorizada”.

Populações em decadência

Os pesquisadores temem que a arraia gigante de água doce possa desaparecer antes de determinarmos o seu tamanho e conhecermos seus segredos. Enquanto a pressão da pesca e a perda de habitat ameaçam a sua existência em todo o sudeste asiático, outra grande preocupação diz respeito à poluição, explica Mabel Manjaji-Matsumoto, bióloga marinha da Universidade da Malásia, Sabah, que estuda a espécie desde meados da década de 1990. Ela diz que o escoamento de fertilizantes usados nas plantações de dendezeiros pigmentou partes dos rios no leste da Malásia com “todas as cores do arco-íris”, ameaçando muitos animais silvestres, incluindo as arraias gigantes de água doce.

No rio Mae Klong, na Tailândia, os resíduos descartados por uma usina de etanol, há três anos, mataram pelo menos 70 arraias gigantes, levando suas carcaças à superfície e as transportando pelo rio como se fossem OVNIs acidentados, uma visão chocante para os moradores locais. Uma investigação posterior comprovou que quantidades significativas de cianeto haviam sido despejadas no rio.

No ano passado, quando pesquisadores tailandeses da Universidade Chulalongkorn, Bangkok, realizaram o primeiro estudo abrangente de identificação da população de arraias no rio Mae Klong para entender melhor os seus movimentos, encontraram uma quantidade muito menor do que haviam contabilizado antes do derramamento, e quase nenhuma era grande.

A veterinária Nantarika Chansue, que liderou o projeto de identificação financiado pela National Geographic Society, diz que provavelmente não há arraias com mais de 295 quilos no Mae Klong. “Era uma população bastante saudável, mas, frente à poluição fora de controle, o risco de perdê-la é muito alto”, lamenta. As arraias também viraram alvos do crescente comércio de aquários, acrescenta.

Para Hogan, a missão de aprender mais sobre as arraias — e todos os outros megapeixes ameaçados — continua. Ele ressalta que há uma população não estudada, mas relativamente saudável, que habita o alto Mekong, no Camboja, um rio com bastante biodiversidade, e que divide o habitat com outros animais raros, como o golfinho-do-irrawaddy e a tartaruga-gigante-de-casco-mole.

“Não se trata apenas de encontrar o maior peixe”, explica. “Talvez tenhamos conseguido isso com a arraia gigante de água doce. Mas o que sabemos é que precisamos fazer mais para proteger esses peixes antes que desapareçam para sempre”.

Continuar a Ler