Será que os hipopótamos fujões de Pablo Escobar podem ajudar o meio ambiente?

Os animais estão agitando seu novo lar na Colômbia, mas as opiniões sobre isso são bem divergentes.quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Quando o famoso narcotraficante Pablo Escobar foi morto a tiros, em 1993, o governo colombiano assumiu o controle de sua propriedade luxuosa no noroeste da Colômbia, incluindo seu zoológico particular. A maioria dos animais foi transportada para outros locais, mas quatro hipopótamos — pelos quais Escobar tinha um carinho especial — foram deixados em um lago e precisaram sobreviver por conta própria. Agora, há dezenas deles.

Por mais de uma década, o governo colombiano analisa qual é a melhor forma de conter a população crescente, uma estratégia amplamente apoiada por especialistas em preservação. Mas nem todos estão de acordo. Sem evidências diretas de que os animais estejam causando danos, alguns ecologistas argumentam que não há razão para abatê-los ou realocá-los. Sem dúvidas, os hipopótamos poderiam substituir as espécies que os seres humanos levaram à extinção há milhares de anos — uma ideia conhecida como “renaturalização”.

Quando os hipopótamos foram abandonados, acidentalmente foi iniciado um experimento de renaturalização, que está em andamento há mais de 25 anos. Os primeiros resultados desse experimento começam a aparecer e, assim como esses grandes animais, estão criando muita confusão.

Os hipopótamos escaparam da antiga fazenda de Escobar e se mudaram para o principal rio da Colômbia, o Magdalena. Espalhados por uma área cada vez maior, ninguém sabe exatamente quantos deles existem — mas as estimativas indicam que pode haver uma população total com 80 a 100 indivíduos, afirma Jonathan Shurin, ecologista da Universidade da Califórnia, em San Diego, que estuda os animais.

Isso está pelo menos cerca de vinte vezes acima das estimativas de apenas dois anos atrás. Considerando que havia quatro em 1993, a população parece estar crescendo exponencialmente. “Dentro de algumas décadas, pode haver milhares deles”.

Os hipopótamos representam um grande problema para o governo. David Echeverri, pesquisador da agência ambiental do governo colombiano, a Cornare, que supervisiona o manejo dos animais, diz que não restam dúvidas de que agem como uma espécie invasora. Se os hipopótamos continuarem se espalhando desenfreadamente, irão deslocar animais endêmicos, como lontras e peixes-boi, diz ele. Além disso, representam um perigo para os moradores locais, pois podem ser territoriais e agressivos, embora ainda não tenha sido registrada nenhuma ocorrência com ferimentos graves ou mortes.

Os hipopótamos do traficante Pablo Escobar prosperam na Colômbia
Em um ato de pura extravagância, Escobar levou quatro hipopótamos para um safári particular em sua estância. Décadas depois de sua morte, os animais se multiplicaram e ameaçam a população local.

Depois que um hipopótamo foi morto em 2009, houve um rápido protesto público, anulando os planos de abate. Em vez disso, o governo está investigando maneiras de castrar os animais, ou retirá-los da natureza para instalações em cativeiro, explica Echeverri. Mas os animais pesam algumas toneladas e não são os maiores fãs do manejo humano. Consequentemente, realocá-los ou castrá-los é uma tarefa perigosa, difícil e dispendiosa. Um hipopótamo jovem foi transferido com sucesso para um zoológico colombiano em setembro de 2018, uma operação que custou 15 milhões de pesos colombianos (cerca de US$4.500).

Para cientistas e conservacionistas, a questão central é como esses hipopótamos afetam o meio ambiente. Os animais são estrangeiros e, em seus habitats nativos, podem impactar drasticamente a paisagem. Como se alimentam na terra mas excretam seus resíduos na água, canalizam nutrientes do ambiente terrestre para o aquático. E, ao alterarem a química da água, podem tornar os peixes mais vulneráveis aos predadores. O simples movimento de seus corpos maciços por áreas lamacentas pode criar canais pelos quais a água passa a fluir, alterando a estrutura das áreas úmidas e pantanosas.

De fato, afetam a ecologia local de forma tão drástica que podem ser considerados “engenheiros do ecossistema”. E embora esse fato os torne membros importantes das comunidades africanas, isso também significa que podem causar fortes mudanças nos habitats aos quais foram introduzidos.

Qual é a finalidade?

Para entender melhor os impactos ambientais causados por esses animais, Shurin fez uma parceria com Nelson Aranguren-Riaño, da Universidade Pedagógica e Tecnológica da Colômbia, em um projeto financiado pela National Geographic Society. Eles compararam lagos artificiais frequentados pelos hipopótamos com lagos onde os animais nunca haviam estado, observando desde a diversidade ecológica da área até seus micróbios e produtividade.

A pesquisa, publicada no fim de janeiro no periódico Ecology, encontrou algumas diferenças sutis, mas detectáveis. “Os lagos dos hipopótamos têm uma química e biologia diferentes dos lagos sem hipopótamos”, aponta Shurin. Isso ocorre principalmente porque os animais fertilizam, com suas fezes, os recursos hídricos que frequentam, o que pode ser problemático. Esses nutrientes adicionais podem levar à proliferação de algas tóxicas e até a mortes em grande escala (algo que os hipopótamos causaram em bacias hidrográficas impactadas por seres humanos na África).

Shurin enfatiza que as diferenças são pequenas — “mensuráveis, mas não expressivas”, esclarece o pesquisador. “Não era o caso de um lago super limpo e de águas claras que se transformou em um lago super verde; era como ir de um lago muito verde para um lago ainda mais verde”.

Talvez isso ocorra porque os lagos examinados no estudo já foram impactados pelas atividades humanas. Em seguida, Shurin e seus colegas pretendem estudar lagos nas planícies de inundação do rio Magdalena, onde os hipopótamos se estabeleceram mais recentemente. Mas mesmo o impacto leve que estão criando não deve ser ignorado, lembra. “Se já causam um impacto detectável agora — enquanto ainda são relativamente raros — espera-se que esse impacto aumente caso se tornem muito mais comuns”.

Preenchendo um nicho

Mas isso pode não ser totalmente negativo. Alguns cientistas já relataram que o aumento de nutrientes e até mesmo as mortes de peixes devido aos hipopótamos são na verdade uma característica — não um problema — de sua presença. A adição de nutrientes ou as águas pobres em oxigênio podem influenciar discretamente quais espécies dominam as comunidades aquáticas, ou talvez até aumentar a diversidade total de espécies criando habitats variáveis dentro do rio, de acordo com alguns pesquisadores. Inclusive mortes de peixes em grande escala podem ter servido como um recurso alimentar regular para espécies catadoras.

Os cientistas descobriram que lagos com hipopótamos tinham níveis mais altos de cianobactérias, comumente chamadas de algas verde-azuladas. Contudo, os hipopótamos ainda não afetaram a quantidade ou variedade de invertebrados ou zooplâncton.

Jens-Christian Svenning, biólogo da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, não acha que as pessoas devam esperar pelo pior. Em 2017, por meio de uma carta na revista científica Perspectives in Ecology and Conservation, ele e um colega argumentaram que os hipopótamos de Escobar são uma das várias espécies introduzidas na América do Sul que podem contribuir com “serviços ecossistêmicos” antes fornecidos por grandes herbívoros que não existem mais.

No caso dos hipopótamos, esses serviços podem incluir: canalizar nutrientes da terra para a água; alterar a estrutura das zonas úmidas; e manter as gramíneas sob controle, já que são uma fonte de alimento.

A América do Sul perdeu dezenas de espécies de herbívoros gigantes nos últimos 20 mil anos, incluindo os toxodontes, parentes próximos dos hipopótamos, que podem ter sido semiaquáticosalém das antas, que também adoram a água. Embora várias espécies de anta ainda existam hoje, todas estão diminuindo. “Os hipopótamos poderiam contribuir com uma restauração parcial desses efeitos, provavelmente beneficiando a biodiversidade nativa de modo geral”, diz Svenning. Ele deixaria os hipopótamos à vontade por hora e monitoraria os animais para garantir que não se tornem um problema.

Shurin observou que os animais podem estar prestando um serviço valioso para plantas nativas que antes dependiam de mamíferos grandes, que já estão extintos, para dispersar suas sementes. “Pretendemos analisar o cocô deles e ver o que há lá”, conta.

Contudo, ao passo que ele afirma que os hipopótamos podem estar assumindo papéis que estão sem protagonistas há milênios, isso pode ser algo que os humanos da região desejam evitar. Ninguém sabe realmente como a vida selvagem nativa, que inclui peixes-boi, tartarugas e lontras, será afetada por esse tipo de renaturalização, e mais hipopótamos podem significar um maior conflito com as pessoas.

“No momento, as pessoas estão apenas coexistindo com eles”, relata o pesquisador. Mas isso pode mudar se a população desses animais evidentemente desagradáveis crescer exponencialmente. “Há também uma preocupação com a segurança pública”.

Uma história de sobrevivência

Para Arian Wallach, ecologista da Universidade de Tecnologia de Sydney, na Austrália, o ponto principal não é se eles podem preencher perfeitamente um nicho perdido ou não. Ela enfatiza que os hipopótamos são considerados em risco de extinção, e acredita que ter uma população de refúgio fora da África é uma benção. “O fato de haver hipopótamos selvagens na América do Sul é uma maravilhosa história de sobrevivência, de iniciativa, de pioneirismo”, afirma.

Wallach não está sozinha em suas ponderações positivas; os animais têm muitos fãs. “Existe um grupo local que vê valor neles e quer que fiquem por lá”, explica Shurin. “O carisma dos hipopótamos e o fato de serem celebridades cria uma situação bastante complexa”, acrescenta Echeverri.

Eles também atraem turistas e dinheiro, o que pode compensar algumas preocupações acerca dos animais. Mais de 50 mil turistas visitam a Hacienda Napoles todos os anos, de acordo com algumas estimativas.

Por enquanto, sem planos imediatos de realocar ou castrar todos os animais, eles continuarão sobrevivendo e se reproduzindo. Shurin espera estudar os impactos em longo prazo da permanência deles no local, caso realmente permaneçam. “É um grande experimento”, afirma Shurin — e “vamos achar respostas”.

Nota do editor: A reportagem original sobre o assunto foi publicada em 26 de setembro de 2018. Este texto é uma atualização da reportagem, com novas informações.
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