Pequeno bagre descoberto na Amazônia dá pistas sobre o mítico candiru

O peixe descoberto por exploradora da National Geographic Society tem apenas 1,5 cm de comprimento e vive em bancos de areia próximos a rio Preto da Eva, município distante 78 km de Manaus.quinta-feira, 12 de março de 2020

Por João Paulo Vicente

No fim de agosto de 2019, a bióloga Elisabeth Henschel e dois colegas partiram em uma expedição de quase um mês pela Amazônia e cujo objetivo principal era estudar o candiru – o temido grupo de peixes conhecido por supostamente ser atraído pela urina humana e adentrar o corpo de banhistas pela uretra, ânus ou canal vaginal.

Ainda no primeiro dia, eles dirigiam por uma estrada vicinal em Rio Preto da Eva, município distante 78 km de Manaus, quando passaram por um banco de areia em um igarapé que não estava entre os locais programados para coletas de peixes. “Era uma estrada de terra sendo pavimentada. Vimos um curso d’água meio destruído e passamos direto, mas, por desencargo de consciência, falei para voltarmos e vermos o que tinha ali”, conta Henschel. “Foi um feeling certeiro – passei a rede a primeira vez e logo vi umas minhoquinhas transparentes se debatendo e pensei: ‘Eu sei o que é isso aqui’.”

Eram peixes do gênero Ammoglanis – bagres minúsculos e semi-transparentes, para os quais não havia registro de espécies naquela região. Henschel havia encontrado, ela logo suspeitou, um animal desconhecido pela ciência. E estava certa. No final de fevereiro, ela publicou, junto a um grupo de pesquisadores do Laboratório de Sistemática e Evolução de Peixes Teleósteos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a descrição do Ammoglanis obliquus no periódico Zoosystematics and Evolution. A espécie cresce até no máximo 1,5 cm e se diferencia de outros peixes do gênero por quantidade e formato de ossos, dentição e número e localização de nadadeiras. O padrão colorido, com diversas manchinhas espalhadas por todo o corpo, só é visto em outro Ammoglanis, o Ammoglanis pulex, encontrado na bacia do rio Orinoco, na Venezuela.

Além de expandir o conhecimento sobre a biodiversidade da Amazônia, a bióloga explica que a descoberta ajuda a compreender a evolução morfológica de outras espécies de bagres. “A partir do momento que a gente consegue fechar onde esse peixe está na árvore dos bagres especializados, isso ajuda a entender a morfologia dos candirus e o como o comportamento deles evoluiu ao longo do tempo e espaço”, afirma ela.

Tema principal da tese de doutorado que Henschel desenvolve no Instituto de Biologia da UFRJ, o candiru não é apenas uma espécie de peixe, mas o nome popular para todo um grupo de bagres de mais de um gênero que tem comportamento parasita e se alimenta de sangue e muco de animais maiores ou em decomposição. Embora a atração pela urina seja uma característica amplamente difundida, ela nunca foi comprovada cientificamente. Henschel é exploradora da National Geographic Society desde 2018 e está passando uma temporada sanduíche no Museu de História Natural dos Estados Unidos, em Nova York.

Hoje com 26 anos, ela já descreveu uma outra espécie como parte do seu trabalho final de graduação e todo um novo gênero de peixes no mestrado. Em ambos os casos, também se tratavam de bagres de pequeno porte. Esse caminho profissional não é comum entre novos pesquisadores. Na verdade, cientistas que trabalham com sistemática e taxonomia – disciplina responsável por classificar e sistematizar espécies animais e vegetais – afirmam que falta pessoal qualificado. A área, diz um argumento comum, não desperta tanto interesse entre os mais jovens.

Henschel, no entanto, foi capturada ainda na primeira semana de aula no curso de biologia na UFRJ. “Na primeira aula de sistemática, abordando taxonomia, achei muito legal. Na terceira semana abriu uma vaga de estágio, e eu decidi tentar”, lembra. O estágio era no Laboratório de Sistemática e Evolução de Peixes Teleósteos, coordenado pelo professor Wilson Costa. No formulário de candidatura, havia perguntas relacionadas a capacidade de desenhar bem e gostar de fazer atividades de campo. “Eu nunca tinha acampado na minha vida”, brinca Henschel. “Mas estou trabalhando aqui desde abril de 2011.”

O professor Wilson Costa também foi um dos autores da descrição do Ammoglanis obliquus. Na verdade, ele foi o primeiro a identificar o gênero, em 1994. Desde então, são conhecidas outras quatro espécies – apenas uma das quais, A. multidentatus, é encontrada fora da Amazônia, na região Nordeste. Wilson explica que o gênero faz parte da família Trichomycteridae, da qual fazem parte os candirus. “Como tantas outras famílias de peixes de água doce, essa não foi nada estudada e ainda existem muitas espécies a serem descritas”, diz ele, que afirma ter no laboratório pelo menos 20 outros peixes da mesma família esperando para serem descritos. “Quando você começa a dar nome, é o primeiro passo de processo muito mais longo em termos de descobrir propriedades específicas dessas espécies, não se tem noção de onde pode terminar”, afirma o professor.

Uma expedição de sucesso

Ao todo, a bióloga coletou 32 espécimes de Ammoglanis obliquus na expedição do ano passado. Mas a viagem também encontrou inúmeras outras espécies de peixes. “Eu mandava mensagens e todo mundo falava que esse era o melhor campo do laboratório”, diz ela.

Filipe Pereira, também doutor do Laboratório da UFRJ, foi um dos biólogos que a acompanhou na Amazônia. Para ele, uma experiência inédita: nunca havia trabalhado no bioma. Filipe trabalha com peixes elétricos na Mata Atlântica e se disse impressionado com a biodiversidade amazônica. “Para mim é tudo muito novo e eu vou te dar um exemplo. Na bacia do rio São João, aqui no Rio de Janeiro, nós temos quatro espécies de peixes elétricos”, conta Felipe. “Agora, só nesse primeiro ponto de coleta onde a Elisabeth encontrou o bagre novo, eu peguei seis espécies diferentes de peixes elétricos. É uma loucura.”

Diferente dos poraquês, as grandes enguias elétricas da Amazônia que dão choques poderosos, os peixes estudados por Filipe emitem sinais imperceptíveis para os humanos. As características são semelhantes às dos poraquês: corpo alongado e, em alguns casos, achatados, ausência de nadadeiras dorsais e uma nadadeira ventral alongada. Inúmeras espécies do tipo são chamadas pelos nomes genéricos de tuvira ou sarapó e é raro crescerem além de 15 cm.

O interesse de ambos por peixes de menor porte segue uma tendência de estudar animais que já foram relegados em função de espécies maiores. “Há espécies coletadas no século 19 que ficaram despercebidas e deixadas de lado em coleções científicas”, diz Henschel. “É recente prestar atenção em peixes pequenos. Eles são muito interessantes, mas é um desafio grande trabalhar com eles por conta da fragilidade.”

Um desafio importante: com uma distribuição geográfica mais restrita na maior parte dos casos, essas espécies estão suscetíveis a desaparecer por conta de modificações do seu habitat. Como o banco de areia onde foi encontrado Ammoglanis obliquus, localizado no meio em uma área de obras. “Quando se pensa em conservação, geralmente é em espécies maiores. Mas, quando destruímos os igarapés e pequenos cursos de água onde vivem esses peixinhos, há implicações a médio e longo prazo que não sabemos quais serão”, explica a bióloga. “A taxonomia é uma ciência de base e nossa função como cientista de base é prover conhecimento que depois pode ser usado para entender a relação de importância daqueles peixes de pequeno porte com o ecossistema. Tudo é chave, tudo encaixa e faz sentido.”

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