‘Muy amigas’, sim: cobras também têm relações complexas de amizade

Estudo aponta conjunto de evidências que indica que esses répteis formam laços estreitos, podendo ser mais parecidos conosco do que acreditávamos.

quarta-feira, 20 de maio de 2020,
Por Virginia Morell
A cobra-de-jardim da espécie Thamnophis sirtalis sirtalis é nativa do leste da América do Norte.

A cobra-de-jardim da espécie Thamnophis sirtalis sirtalis é nativa do leste da América do Norte.

Foto de Michelle Gilders, Alamy

Muitos de nós acreditam que as cobras sejam seres frios e solitários, tão indiferentes com os demais de sua espécie quanto são conosco.

Mas esses conceitos estão equivocados — sobretudo quando se trata de cobras-de-jardim, segundo novo estudo.

Essas criaturas não venenosas, cuja área de distribuição se estende das planícies frias do Canadá às florestas da Costa Rica, possuem preferências claramente definidas sobre as cobras com as quais gostam de ficar — em outras palavras, elas têm “amigos”.

“Todos os animais — até as cobras — precisam interagir”, afirma Morgan Skinner, líder do estudo, doutorando em ecologia comportamental da Universidade Wilfrid Laurier, no Canadá. Para estudar essa teoria, Skinner desenvolveu um novo experimento para avaliar as personalidades e a sociabilidade das cobras-de-jardim da espécie Thamnophis sirtalis sirtalis.

Os resultados mostraram que, “assim como nós, as cobras buscam interações sociais e são seletivas ao escolher com quem socializam”, afirma Skinner, cujo estudo foi publicado recentemente na revista científica Behavioral Ecology and Sociobiology.

A noção de que as cobras têm amigos íntimos pode parecer surpreendente, mas esses relacionamentos estão sendo descobertos cada vez mais em todo o reino animal, como em flamingos, morcegos e elefantesUma análise recente de morcegos hematófagos revelou, por exemplo, que tanto morcegos como humanos desenvolvem amizades condicionais.

Hoje em dia é mais fácil para os cientistas encontrar amizades entre animais do que, digamos, há 30 anos, em parte porque muitas sociedades estão mais abertas a esse conceito e porque os pesquisadores dispõem de ferramentas melhores para coletar e analisar dados.

A análise das redes sociais de animais silvestres, como as cobras, “fez grandes avanços nas últimas décadas”, afirma Noam Miller, coautor do estudo, psicólogo comparativo e consultor de Skinner.

De fato, à medida que esse campo de estudo se aprofunda, agora é comum usar a palavra “amigos” ao discutir essas relações em animais não humanos.

Esse não era o caso ainda em 2012, afirma Melissa Amarello, herpetóloga e diretora da ONG  Advocates for Snake Preservation, que foi aconselhada a não empregar essa palavra em sua tese sobre cascavéis da espécie Crotalus cerberus, que mantinham laços íntimos, no Arizona.

“É muito bacana ver esse estudo”, afirma ela.

Cobras em nichos

Para o estudo, Miller e Skinner observaram 40 cobras-de-jardim jovens: 30 mães capturadas na natureza e 10 de uma única ninhada compradas de um criador.

Para monitorar os répteis, Skinner marcou a cabeça de cada um com um padrão de pontos coloridos não tóxicos. Em seu laboratório, colocou um grupo de 10 cobras — mesclando machos e fêmeas — dentro de um recinto quadrado e fechado que continha quatro nichos plásticos com pequenas entradas. Como havia apenas quatro nichos, as 10 cobras tinham de se dividir em grupos.

Durante oito dias, das 7h às 19h, uma câmera gravou imagens da área de estudo a cada cinco segundos, acompanhando os movimentos das cobras. Duas vezes ao dia, Skinner também fotografava as cobras e seus agrupamentos. Ele então retirou as serpentes, limpou o recinto para eliminar odores e colocou as cobras de volta — mas em lugares diferentes.

As cobras-de-jardim se juntam em uma estratégia para se manter aquecidas e se defender de predadores.

Foto de Tom Gantert

As cobras, no entanto, tinham opinião própria. Não ficaram onde Skinner as colocou, retornando aos grupos originais de três a oito indivíduos dentro dos pequenos nichos. E tem mais: procuraram as cobras exatas com as quais haviam ficado juntas antes.

“Elas contam com um reconhecimento social sofisticado”, acrescenta Miller. “São capazes de distinguir umas das outras.”

Répteis intrépidos

Os cientistas também avaliaram as personalidades das cobras — ou seja, se eram “tímidas” ou “ousadas”, as duas principais características avaliadas em animais silvestres. Para verificar se uma determinada cobra-de-jardim era ousada, ela era colocada em um nicho sozinha.

Indivíduos tímidos tendiam a permanecer parados e raramente se aventuravam até o recinto maior. Já cobras mais ousadas se comportaram como exploradoras, muitas vezes saindo do nicho imediatamente para explorar seu novo habitat.

Contudo, quando dispostas em grupos, essas diferenças de personalidade desapareciam e as cobras geralmente seguiam o bando — talvez uma estratégia para se manter seguras na natureza.

Obviamente, o experimento é limitado, pois foi realizado em cativeiro. “Os animais se comportam de maneira diferente em cativeiro, então fico imaginando como isso se traduz em condições naturais”, observa Amarello.

Como as cobras-de-jardim da natureza formam aglomerações semelhantes às criadas no laboratório, Miller e Skinner suspeitam que tais relações também existam na natureza — e sejam comuns em muitas espécies de répteis.

Solitárias enigmáticas? Não é bem assim.

Embora o companheirismo entre animais esteja virando notícia atualmente, Miller adverte que a amizade animal “pode não ter nenhuma relação com os motivos pelos quais as pessoas formam amizades”.

Aliás, os cientistas não fazem ideia das motivações das amizades das cobras-de-jardim, embora saibam que não estejam relacionadas à reprodução ou ao acasalamento: as cobras do estudo não demonstraram preferir o sexo oposto ao fazer amizades.

Mas essas parcerias devem oferecer alguma vantagem — do contrário, os animais não desperdiçariam energia formando esses laços. Por exemplo, cobras amigas costumam se enroscar, o que as ajuda a conservar calor e a se defender de predadores.

Qualquer que seja o motivo, afirma Gordon Burghardt, biólogo evolucionário da Universidade do Tennessee, o estudo “deve ajudar a convencer as pessoas de que as cobras não são solitárias enigmáticas, além de possuírem mais inteligência social e um repertório social maior do que a maioria de nós acredita.”

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