Zebras com manchas e listras incomuns podem ser um alerta sombrio sobre o futuro da espécie

Animais com padrões de pelagem anormais podem ser consanguíneos, uma “evidência dramática” dos prejuízos causados a animais silvestres pela fragmentação de habitats, segundo novo estudo.

Por Lindsay Patterson
Fotos de Brenda Larison
Publicado 23 de jan. de 2021 08:00 BRT
Zebra-das-planícies, com mancha interrompendo o padrão das listras, faz uma pausa ao pastar no Parque Nacional ...

Zebra-das-planícies, com mancha interrompendo o padrão das listras, faz uma pausa ao pastar no Parque Nacional Akagera em Ruanda em 2018.

Foto de BRENDA LARISON

Qualquer um diria que as zebras possuem listras distintas preto e branco. Mas, em alguns casos, esses equinos africanos apresentam padrões de cores incomuns, como grandes manchas pretas ou pelagem dourada com listras de cores claras. Zebras com bolinhas também têm sido avistadas. Em 2019, na Reserva Nacional Masai Mara, no Quênia, cientistas registraram um filhote com bolinhas, com manchas brancas sobre uma pelagem marrom-escura.

Essas aberrações — geralmente causadas por mutações genéticas que alteram a produção de melanina, um pigmento natural — normalmente são raras entre os mamíferos. Por isso, a bióloga Brenda Larison ficou surpresa com a quantidade extraordinariamente elevada — cerca de 5% — de zebras-das-planícies que possuíam anomalias nas listras perto do Lago Mburo, em Uganda.

Embora as zebras-das-planícies sejam as menos ameaçadas das três espécies, suas populações sofreram um declínio de 25% desde 2002, restando cerca de 500 mil animais distribuídos entre a Etiópia e a África do Sul. A fragmentação de habitats causada por cercas, estradas e urbanização restringiu as populações de zebras, como a do Lago Mburu, a pequenos bolsões, impedindo a migração de alguns dos animais entre os rebanhos.

A migração introduz novos genes nas populações e é crucial à sobrevivência das espécies em longo prazo. A falta de fluxo gênico pode levar à consanguinidade e, em última análise, à infertilidade, doenças e outros defeitos hereditários.

“O avistamento (das zebras com padrões incomuns) me fez indagar: ‘será que estou encontrando tantos animais assim devido à consanguinidade nessa população?’”, recorda Larison, que estuda a evolução das listras de zebras na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Para responder a essa questão, Larison e colegas realizaram análises genéticas em 140 indivíduos de zebras-das-planícies — incluindo sete animais com padrões de pelagem incomuns — em nove locais da África, como o Parque Nacional Etosha, na Namíbia, e o Parque Nacional Kruger, na África do Sul.

Seu estudo, publicado recentemente no periódico Molecular Ecology, concluiu que populações menores e mais isoladas de zebras apresentavam menor diversidade genética — o que não foi nenhuma surpresa. O estudo também revelou que esses grupos isolados eram mais propensos a gerarem zebras com listras anormais, sugerindo que essas mutações genéticas são causadas por uma diversidade genética reduzida.

Embora o estudo tenha analisado apenas sete animais de padrões incomuns, os resultados podem ser um alerta visual sobre o futuro da zebra-das-planícies, afirma Larison.

“Embora as zebras-das-planícies não sejam altamente ameaçadas, essas anomalias genéticas costumam surgir antes do início dos problemas maiores”, explica ela.

Zebra-das-planícies dourada ou marrom-clara ao lado de animal com coloração normal na organização de preservação Mount Kenya Wildlife Conservancy em julho de 2018.

Foto de BRENDA LARISON

Lacunas genéticas

É possível que as listras incomuns tornem as zebras mais visíveis aos predadores, já que a maioria dos casos registrados de zebras com bolinhas era composta por filhotes, e não adultos. Dentro de seus grupos familiares, entretanto, as zebras não parecem se importar muito com quem possui listras e quem possui manchas, observa Larison, cujas pesquisas mais recentes sugerem que as listras das zebras ajudam os animais a evitar a picada de moscas.

Segundo ela, a preocupação mais imediata é a saúde genética da zebra-das-planícies. Para sua análise, Larison e seus colegas empregaram técnicas avançadas de sequenciamento genético para estudar de perto as diferenças entre zebras consanguíneas e entre populações de zebras de locais distintos.

“Foram identificadas populações com uma possível divergência maior do que esperado em circunstâncias normais devido à pressão exercida pela população humana”, afirma Larison, cujo estudo é financiado pela National Geographic Society.

Em outras palavras, dentro de cada população, as zebras estão se tornando geneticamente mais próximas, mas essas populações estão ficando mais distantes entre si em termos genéticos: um reflexo de sua separação física, o que poderia originar novas subespécies de zebras-das-planícies.

Filhote com pseudomelanismo, mutação genética rara em que os animais exibem algum tipo de anormalidade em seu padrão de listras, bebe água no Parque Nacional Etosha, na Namíbia, em novembro de 2011.

Foto de Ren Larison

Uma conservação complexa

Isso é preocupante, alerta Desire Dalton, que estuda genética de animais silvestres no Instituto Nacional de Biodiversidade da África do Sul em Pretória, pois uma das principais estratégias dos conservacionistas de zebras é a translocação — a transferência de indivíduos de uma população para se reproduzirem em outra população.

Se as populações forem muito diferentes geneticamente umas das outras, o oposto da consanguinidade pode ocorrer: a exogamia, como é denominada, que causa anormalidades devido à tamanha discrepância entre os genes.

Há pesquisas conflitantes sobre quais populações de zebras-das-planícies podem estar prestes a se tornarem geneticamente distintas, ou subespécies. Os cientistas ainda não chegaram a um consenso sobre como definir e agrupar essas subespécies.

Mas ela concorda com a equipe de Larison que afirma que definir esses grupos é fundamental para o manejo da espécie.

“É preciso ter certeza de quais populações podem ser miscigenadas e quais dever ser mantidas separadas”, esclarece Dalton.

“Um problema que não pode aguardar mais uma solução”

O novo estudo também é um lembrete para prestar atenção em outras espécies africanas que podem não parecer estar em apuros no momento, ressalva Philip Muruthi, vice-presidente de conservação de espécies da organização de conservação African Wildlife Foundation, em Nairóbi, no Quênia.

Por exemplo, Muruthi teme que a zebra-das-planícies possa ter o mesmo destino de outra espécie africana emblemática, a girafa.

Devido principalmente à perda de habitat e à caça ilegal, as girafas sofreram um declínio populacional de 30% nos últimos 30 anos; a União Internacional para a Conservação da Natureza atualmente considera o animal vulnerável à extinção. No entanto o fenômeno ainda é tão pouco compreendido que ficou conhecido como “extinção silenciosa”.

É por isso que o estudo da zebra é fundamental: “destacar a possibilidade de que espécies comuns já enfrentem problemas de conservação é uma forma de sinalizar a existência de um problema que não pode aguardar mais uma solução”, adverte Muruthi.

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