O que acontece com animais de rua com a interrupção repentina do turismo?

A pandemia do coronavírus ocasionou o isolamento de milhões de pessoas em todo o mundo, e outra população considerável também foi afetada — a de cães e gatos abandonados.

Por Jennifer Hattam
Publicado 21 de abr. de 2021 07:30 BRT
Coronavirus precautions in Istanbul

Gato de rua sozinho em Eminönü, um dos bairros mais antigos de Istambul, que permaneceu praticamente deserto por meses durante as restrições devido à covid-19.

Foto de Elif Ozturk, Anadolu Agency/Getty Images

A viagem do cais de balsas até a casa de Cem Arslan em Kınalıada é curta, mas não é apenas o declive das ruas montanhosas que o impede de trafegar mais rápido. Conforme ele dirige pelo distrito da pequena ilha de Istambul, Arslan frequentemente desacelera sua scooter elétrica o máximo que pode — para gatos de rua atravessarem a rua com segurança ou para cumprimentar um grupo de cães que já o conhecem.

Istambul é uma cidade famosa por seus animais de rua — principalmente os gatos. Eles são o tema de documentários, vídeos que viralizaram, contas populares no Instagram e inúmeras fotografias tiradas por turistas. Eles aguardam do lado de fora de açougues, peixarias e restaurantes de calçada; empoleiram-se em monumentos históricos de forma fotogênica e cochilam em meio às mercadorias nas lojas locais. Mas o que os turistas normalmente veem é apenas parte da realidade, por vezes árdua, dos estimados 400 mil a 600 mil animais abandonados da cidade.

“Quando me mudei para Kınalıada, vi muitos gatos e cachorros vagando pela cidade em busca de comida no inverno”, contou Arslan, que criou a Empathy Association para ajudar os cerca de mil gatos e 200 cachorros de rua da ilha. (Em sua casa vivem um cão meigo e três gatos fofos que ele resgatou.) Como um destino de férias popular, Kınalıada fica agitada no verão, recebendo cerca de 30 mil visitantes, número que cai para cerca de 300 na baixa temporada. Com o mau tempo, os serviços de balsa para o continente — local mais próximo para encontrar serviços veterinários — podem ser cancelados.

Eleni Kefalopoulou, da instituição de caridade Nine Lives Greece, oferece ração aos gatos de rua em Atenas, na Grécia. Os voluntários da organização sem fins lucrativos alimentam mais de mil gatos na cidade.

Foto de Angelos Tzortzini, AFP/Getty Images

Como os cães e gatos abandonados ficam quando as fontes de alimento e cuidados de que dependem desaparecem tornou-se uma questão relevante no mundo todo no ano passado. À medida que a pandemia do novo coronavírus forçava o isolamento nas cidades e a paralisação do turismo, não foi apenas para as pessoas que a vida ficou mais difícil, mas também para os milhões de animais de rua.

Gatos à espreita

Assim como Istambul, a cidade medieval de Kotor, em Montenegro, é conhecida por seus gatos de rua; existe até um Museu dos Gatos na cidade. Em todo o mundo, pontos turísticos também costumam ser apreciados pelos animais, sejam os mercados tradicionais que servem como fonte de restos de alimento ou ruínas antigas, parques verdes e bairros históricos onde cães e gatos podem encontrar refúgio e abrigo em cidades superlotadas e agitadas. Os impactos da paralisação do turismo em muitos desses lugares foram sentidos quase que imediatamente.

 “Alguns dias após o governo decretar que restaurantes deveriam permanecer fechados, as grandes latas de lixo onde muitos animais procuram comida estavam vazias”, relatou April Lynn King, voluntária e membro do conselho da Kotor Kitties, uma instituição de caridade que ajuda animais de rua em Montenegro. “As pessoas nos escreviam dizendo que os gatos em seus bairros uivavam de fome.”

A perda da receita gerada pelo turismo também teve um impacto indireto sobre os animais. “Cidades inteiras em Bali, por exemplo, fecharam, e as pessoas que perderam seus empregos nessas cidades voltaram para suas casas em outras regiões”, explica Katherine Polak, veterinária e chefe do atendimento a animais de rua do Sudeste Asiático da organização sem fins lucrativos Four Paws International. Aquelas que permaneceram na cidade muitas vezes enfrentam dificuldades para alimentar seus próprios animais de estimação, ainda mais os animais de rua. As taxas de abandono de animais de estimação aumentaram em muitas regiões devido a problemas econômicos, bem como a preocupações infundadas de transmissão de covid-19 pelos animais.

Com mais animais sendo abandonados e menos pessoas nas ruas para enxotá-los, as chances desses animais acasalarem cresceram, o que aumentou ainda mais as populações em uma época em que muitos programas de castração e adoção tiveram que ser suspensos ou limitados devido a medidas de distanciamento social ou restrições orçamentárias. Ao mesmo tempo, muitos animais se aventuravam fora de seus locais regulares em busca de novas fontes de alimento, levando-os a entrar em conflito com outras matilhas de animais de rua que já haviam dominado determinado território, com pessoas hostis ou até mesmo mal-intencionadas e correndo risco de atropelamento.

“Em Atenas, gatos famintos tornaram-se muito mais ousados ao atravessar as ruas, uma combinação fatal com as altas velocidades que o tráfego reduzido ocasionava durante o isolamento”, explica Cordelia Madden-Kanellopoulou, cofundadora da instituição de caridade Nine Lives Greece, cujos voluntários alimentam mais de mil gatos — “uma pequena fração da população” — na cidade.

Recebendo menos cuidados nas ruas, é menos provável que animais feridos ou doentes cheguem ao conhecimento das instituições de caridade e dos serviços municipais que poderiam ajudá-los. Ahmet Ali Yağcı, veterinário-chefe de um novo hospital municipal e centro de reabilitação para animais abandonados localizado nos arredores de Istambul, relata que sua equipe tem recebido metade das notificações de cidadãos em relação ao que recebiam antes da pandemia.

Os gatos não foram os únicos animais deixados para trás. Noor Ali, moradora de Karachi, alimenta um grupo de cães abandonados próximo à praia de Clifton, no Paquistão, em abril de 2020.

Foto de Asif Hassan, AFP/Getty Images

Proteção aos nossos amigos de quatro patas

Em muitas cidades, turistas e moradores desempenham um papel importante na notificação de cães e gatos que precisam de assistência. Eles também se envolvem, se voluntariam e fazem doações para o trabalho de instituições de caridade que cuidam de animais de rua e, às vezes, não medem esforços para adotar um animal que fora abandonado. A pandemia impediu essas formas de apoio, deixando muitas organizações locais na busca por fundos. Isso enfatizou a importância do alcance educacional e das intervenções médicas, como programas de castração que criam soluções de longo prazo.

No entanto o turismo nem sempre é benéfico para os animais de rua. “Em uma das estações montanhosas na Índia, onde trabalhamos, os moradores mantinham os filhotes em cestas na frente de suas casas para vender aos turistas”, contou Keren Nazareth da Humane Society International. Cadelas de rua geravam filhotes — e uma fonte de renda — ela explica, “as pessoas não nos deixavam levá-los para castração ou vacinação, e não sabemos o que acontece com esses filhotes”. Já em outros locais, envenenar animais antes das temporadas de turismo é uma forma de “limpar” uma área para que os turistas não sejam espantados pela presença de animais abandonados.

Como já ocorreu em outras situações, a pandemia do novo coronavírus destacou a vulnerabilidade existente entre os animais abandonados. Para cada gato resgatado por cafés que os mantêm como atração que é bem cuidado e se aninha alegremente no colo dos visitantes, centenas, senão milhares de outros gatos abandonados na mesma cidade provavelmente têm suas vidas reduzidas por doenças, abusos e acidentes. Fotos bonitas e histórias de viagens encantadoras com a onipresença de cães e gatos escondem o fato de que muitas dessas populações são grandes demais para serem saudáveis. E os animais de rua não sobrevivem de curtidas no Instagram.

“Os gatos são um grande negócio em Kotor — toda lojinha turística está cheia de itens para gatos, mas quase nenhuma parte do lucro vai para ajudá-los”, salienta King. “Buscamos incentivar a ideia de que esses animais devem ser cuidados como parte do patrimônio cultural da cidade.”

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