Cães farejadores aprendem a detectar o novo coronavírus

Cães podem sentir o cheiro característico de hipoglicemia, convulsões iminentes e certos tipos de câncer. Na Universidade da Pensilvânia, nos EUA, esses animais agora também estão aprendendo a farejar o novo coronavírus.

Fotos de Sabina Louise Pierce
Publicado 26 de mai. de 2021 11:30 BRT
Toby, um pequeno munsterlander, circula por uma roda de metal com oito recipientes em busca daquele ...

Toby, um pequeno munsterlander, circula por uma roda de metal com oito recipientes em busca daquele que contém uma camiseta usada por alguém que testou positivo para covid-19. “Toby foi, como costuma ser nos treinos, um aluno exemplar — ele aprende muito rápido”, contou a tutora adotiva de Toby, Jennifer Essler. Ela é pós-doutoranda no Centro para Cães de Trabalho da Universidade da Pensilvânia, que está adestrando cães para farejar o vírus.

Foto de SABINA LOUISE PIERCE

Tuukka gosta de jogar frisbee; Griz adora uma bola laranja macia; Toby passa seu tempo livre tirando uma soneca ou latindo para os veículos que passam; mas esses cães comuns possuem uma habilidade extraordinária: eles fazem parte de uma matilha de cães de pesquisa que podem farejar o odor característico do Sars-CoV-2, o vírus que causa a covid-19.

Enquanto a doença se espalhava pelo mundo e os cientistas implantavam ferramentas como testes de reação em cadeia da polimerase para detectar o novo coronavírus em humanos, uma equipe de pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade da Pensilvânia trabalhou para determinar se os cães também poderiam ser treinados para detectar infecções.

O estudo de prova de conceito, publicado em abril na revista científica PLOS ONE, mostrou que o vírus tem um odor que cães adestrados conseguem identificar na urina e na saliva. Agora, os pesquisadores — com a ajuda de Tuukka, Griz, Toby, Rico e Roxie — avaliam se os caninos conseguem sentir o cheiro do novo coronavírus em camisetas suadas.

Se os cães conseguirem detectar o vírus com precisão nas roupas, eles poderão patrulhar locais como aeroportos e estádios com o objetivo de farejar a presença do vírus em locais públicos.

“A grande questão para nós é: é possível implementar isso para uso operacional?”, questiona Cynthia Otto, principal autora do estudo e diretora do Centro para Cães de Trabalho da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade da Pensilvânia. “Os cães podem filtrar as pessoas infectadas? Acredito que é um benefício em potencial.”

Cynthia Otto, diretora do Centro para Cães de Trabalho, durante sessão de adestramento com Rico, um pastor-alemão. Otto acredita que os cães poderão um dia ser treinados para avaliar a presença do vírus causador da covid-19 em pessoas em espaços públicos, como aeroportos ou estádios.

Foto de SABINA LOUISE PIERCE

O cheiro de suor

Com um olfato considerado mil a 10 mil vezes melhor do que o dos humanos, os cães atualmente desempenham todos os tipos de trabalho. Eles são capazes de farejar os primeiros sinais da doença de Parkinson, diabetes, diversos tipos de câncer, ataques epilépticos iminentes, malária, entre outras doenças. Eles auxiliam equipes de busca e resgate após desastres naturais e servem como aliados em operações militares, farejando explosivos escondidos. Alguns cães são parceiros de trabalho de funcionários da alfândega em busca de contrabando, farejando desde drogas a marfim de elefante. Eles podem rastrear caçadores ilegais, patrulhar navios de carga em busca de ratos que possam escapar em portos distantes e farejar espécies invasoras e ameaçadas de extinção.

Ainda no primeiro semestre de 2020, os pesquisadores da Universidade da Pensilvânia começaram a treinar os cães para farejar o novo coronavírus em amostras de urina e saliva de humanos contaminados. Em novembro, eles começaram a adestrar os cães para detectar o vírus através do suor. O processo começa apresentando aos cães amostras positivas e, em seguida, recompensando-os com petiscos. Depois que os cães aprendem a associar o cheiro do vírus a uma experiência prazerosa, eles estão prontos para iniciar os testes oficiais.

Os pesquisadores colocam diversas camisetas suadas e distratores — roupas limpas, materiais de transporte ou álcool para assepsia — dentro de recipientes com tampas vazadas em uma roda de metal com oito extremidades. Apenas um recipiente conterá uma camiseta usada dentro das últimas 48 horas por uma pessoa que testou positivo para covid-19. Os cães caminham ao redor da roda até detectar a amostra positiva. 

No estudo de abril com amostras de urina e saliva, os cães detectaram o vírus com 96% de precisão, conta Otto. Embora o estudo atual com camisetas suadas esteja em andamento, os caninos também têm tido um sucesso notável na tarefa, afirma ela.

Roxie é a cachorra mais rápida: ela circulou pela roda e encontrou a amostra positiva em apenas 12 segundos. Rico, um filhote mais pensativo, leva cerca de 23 segundos para identificar a camiseta certa. 

Meghan Ramos, residente de medicina esportiva e reabilitação no Centro para Cães de Trabalho, coleta uma amostra de esfregaço bucal de Tuukka enquanto Essler, a dona de Tuukka, a segura. Tuukka é novata no trabalho de farejar. “Foi engraçado observá-la na transição entre a função básica de farejar em casa para farejar o vírus causador da covid-19, é como ir da matemática básica para o cálculo”, brinca Essler.

Foto de SABINA LOUISE PIERCE

Cães farejadores em ação

Os cães conseguem detectar o novo coronavírus cheirando seus compostos orgânicos voláteis, as substâncias químicas excretadas por meio de resíduos como urina, saliva e suor à medida que as células humanas metabolizam.

Os compostos são “como a impressão digital de uma doença”, compara Amritha Mallikarjun, pesquisadora de pós-doutorado que participa do estudo atual. E embora sejam indistinguíveis para o olfato humano, os cães têm um olfato surpreendente: além de todos esses receptores, suas narinas se conectam a dezenas de canais que os permitem sentir os odores por mais tempo. “Há muito espaço na cavidade nasal para o ar circular, tocar as superfícies e ser identificado” pelos receptores nasais caninos, explica ela.

Estudos semelhantes foram concluídos ou estão em andamento em outras partes do mundo, incluindo o Reino Unido e a França. Por exemplo, depois de encontrar cães que poderiam discriminar entre amostras de suor de pessoas que testaram positivo ou negativo para covid-19, Dominique Grandjean, veterinário e professor da Faculdade Nacional de Veterinária de Alfort, na França, contou à National Geographic que começará a testar se os caninos podem detectar as variantes da covid-19. Alguns cães já foram designados para farejar passageiros infectados no aeroporto internacional de Helsinque-Vantaa, na Finlândia.

Os pesquisadores coletam amostras de sangue e esfregaços bucais antes do início do estudo para garantir que os cães não contraíram covid-19.

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Roxie, uma labradora amarela temperamental, brinca antes de começar um experimento. “Ela precisa brincar antes de treinar porque tem muita energia”, explica Amritha Mallikarjun, pós-doutoranda no Centro para Cães de Trabalho.

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Algumas pessoas favoráveis a cães farejadores de covid-19 alegam que os animais poderiam substituir outras iniciativas de mitigação da doença, como testes de PCR, que requerem um esfregaço nasal ou oral, cujo resultado pode levar dias. Cães treinados para detectar o vírus no suor podem circular entre filas de pessoas e detectar quem está infectado rapidamente e sem interrupções, observa Mallikarjun, e com risco mínimo: estudos demonstraram que o Sars-CoV-2 não pode ser transmitido a pessoas — ou animais — através do suor.

Suas habilidades também poderiam ser utilizadas para criar e programar farejadores mecânicos, dispositivos eletrônicos que funcionariam de forma semelhante aos bafômetros, para triar pessoas e identificar a presença do novo coronavírus, acrescenta ela.

Tuukka, uma mestiça de pastor-alemão, husky e border collie, pratica suas habilidades de detecção do vírus no equipamento.

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Os pesquisadores coletaram camisetas para o estudo de voluntários por todo o país. Os voluntários devem usar as camisetas brancas lisas durante a noite e enviá-las junto com o resultado de um teste de covid-19 recente — ou uma cópia do certificado de vacinação.

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Mas outros dizem que é muito cedo para saber como o papel dos cães se enquadrará na luta contra a pandemia. “Acredito que certamente existe um potencial”, relata Anna Durbin, professora de saúde internacional da Faculdade de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg. Ela diz que cães adestrados podem ser usados para complementar outras iniciativas, por exemplo, os cães podem fornecer uma triagem inicial que poderá ser confirmada depois por um teste de laboratório, permitindo que uma pessoa possivelmente infectada tome precauções imediatas.

Além disso não é qualquer cachorro que pode ser um cão farejador. “Muitas pessoas estão entusiasmadas em ter cães detectores de covid-19”, comenta Otto, “mas precisamos pensar no cão certo para essa tarefa — um cão que será confiável e também não ficará entediado com a função”.

Alexandra Horowitz, especialista em cognição canina da Faculdade Barnard, que não participou do estudo, afirma que os cães mais bem-sucedidos nesse tipo de trabalho olfativo são aqueles que estão muito motivados a trabalhar em troca de uma recompensa e “farão tudo o que lhes for pedido para que recebam essa recompensa”.

Griz definitivamente é esse tipo de cão, concordam os pesquisadores, pois trabalha de forma incansável por sua retribuição especial: a bola laranja e macia. “Ele adora essa bola, gosta de esmagá-la e fica muito feliz”, relata Mallikarjun.

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