Lobos-vermelhos soltos na natureza dão esperança para espécie em risco de extinção

Saiba mais sobre a espécie de lobos mais ameaçada de extinção dos Estados Unidos e como a reintrodução desses oito lobos-vermelhos pode ser um importante passo para a salvar espécie.

Por Meaghan Mulholland
Publicado 8 de jun de 2021 17:00 BRT
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Uma loba-vermelha chamada Ruby na reserva natural Reflection Riding Arboretum & Nature Center, no estado do Tennessee. Todos os anos, biólogos se reúnem para discutir possíveis combinações de espécies de lobos para reprodução. Com um pool genético formado por apenas 14 lobos-vermelhos fundadores, a diversificação genética da espécie é fundamental.

Foto de Jessica Suarez

A única população selvagem de lobos-vermelhos do mundo acaba de receber mais oito membros. Quatro lobos-vermelhos adultos e quatro filhotes nascidos em cativeiro foram soltos em um refúgio de vida silvestre no leste do estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. A ação aumenta a expectativa de que a espécie seja retirada da lista de animais em risco de extinção, na qual foi incluída pela segunda vez.

Os lobos-vermelhos são uma espécie criticamente ameaçada de extinção e, atualmente, encontrada apenas na Carolina do Norte. Sua distribuição geográfica abrange apenas dois refúgios de vida silvestre e outras pequenas regiões esparsas e privadas nos Estados Unidos. Hoje a população selvagem de lobos-vermelhos é estimada entre 20 e 25 animais, contando com os oito indivíduos que acabaram de ser soltos.

A reintrodução desses oito lobos-vermelhos na natureza foi determinada por uma ordem judicial. O Centro de Leis Ambientais do Sul (Selc, na sigla em inglês), em nome de diversos grupos conservacionistas, processou o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos, no segundo semestre de 2020, por não ter devolvido mais lobos-vermelhos à natureza. Segundo o Selc, isso foi uma violação da Lei de Espécies Ameaçadas dos Estados Unidos. Em janeiro, um juiz distrital do país ordenou que a instituição apresentasse um planejamento para liberação dos animais à natureza.

Ron Sutherland, do grupo ambientalista Wildlands Network, considera a recente libertação dos oito lobos-vermelhos “um grande passo na direção certa”, embora sua organização reivindique a libertação de ainda mais lobos. Ele espera que o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos “volte a agir em favor de seus próprios objetivos e se comprometa a fazer um trabalho de campo com os cidadãos da Carolina do Norte para resgatar a população de lobos-vermelhos”.

“Nosso objetivo agora é trabalhar em conjunto para estabelecer um plano de ação e alcançar as metas para salvar os lobo-vermelhos”, afirma John Tirpak, diretor associado regional de serviços ecológicos do Serviço de Pesca e Vida Selvagem.

Família dedicada 

Os quatro filhotes de lobo-vermelho, nascidos no Zoológico de Akron, foram colocados na toca de uma fêmea selvagem no início de maio no Refúgio de Vida Silvestre dos Lagos Pocosin, na península de Albemarle-Pamlico, no leste da Carolina do Norte. Essa estratégia, conhecida como pup fostering (ou “adoção de filhotes”), tem dado muito bons resultados para a espécie, com uma taxa de sucesso próxima a 100%, segundo Chris Lasher, coordenador de um projeto de conservação destinado a garantir a longevidade e a segurança dos lobos-vermelhos chamado Red Wolf Species Survival Plan, do Zoológico da Carolina do Norte, em Asheboro.

Mas é um trabalho complicado. Os filhotes devem ser levados antes de completarem duas semanas de vida, quando seus pequenos olhos ainda estão fechados. Os cuidadores devem garantir que eles tenham o cheiro semelhante ao de seus futuros companheiros de ninhada para facilitar a aceitação de sua mãe loba adotiva. Nesse caso, os filhotes foram transportados de Akron, estado de Ohio, para a Carolina do Norte, o que exigiu muito planejamento logístico e trabalho em equipe entre os cuidadores, biólogos do governo e outros funcionários, inclusive um piloto voluntário.

Joe Madison, diretor do programa de proteção de lobos-vermelhos do Serviço de Pesca e Vida Selvagem na Carolina do Norte, relata que logo depois que os filhotes foram colocados na toca, a mãe loba levou toda sua ninhada para outro local, o que é comum após perceberem qualquer movimentação estranha. Os cientistas que monitoram os movimentos da mãe loba através de um colar de rastreamento descobriram que ela continua nos arredores da toca, o que é um bom sinal.

Um lobo-vermelho na Carolina do Norte.

Foto de Salwan Georges, The Washington Post, Getty Images

“Tudo indica que os filhotes nascidos em cativeiro foram adotados com sucesso”, diz Madison.

A adoção de filhotes funciona bem para a espécie devido ao fato de que “[os lobos-vermelhos] são uma espécie muito compassiva e dedicada à família”, afirma Lasher. “As mães lobas-vermelhas estão sempre comprometidas em criar sua ninhada, independentemente de quantos ou quem sejam os filhotes.” A estratégia de adoção é útil, pois ajuda a aumentar o número de lobos-vermelhos na natureza e diversifica as informações genéticas da população, introduzindo novos genes de lobos-vermelhos criados em cativeiro.  

Uma espécie dos Estados Unidos

Menores do que seus primos lobos-cinzentos e ligeiramente maiores do que os coiotes, os lobos-vermelhos viviam em grande parte da região sudeste dos Estados Unidos. Porém, campanhas de extermínio generalizadas e a perda de habitat fizeram com que o número de indivíduos dessa espécie de predadores diminuísse bastante.

Em 1980, os lobos-vermelhos foram oficialmente declarados extintos na natureza. Mas pouco antes disso, 14 lobos-vermelhos haviam sido levados para o Zoológico e Aquário Point Defiance, em Tacoma, estado de Washington, para serem criados sob cuidados humanos, em uma tentativa de preservar a espécie. Em 1987, quatro pares reprodutores descendentes dos 14 animais foram soltos no Refúgio de Vida Silvestre de Alligator River, no leste da Carolina do Norte, como um experimento pioneiro de reintrodução de animais na natureza.

A equipe teve de superar alguns desafios iniciais. “Passamos muito tempo lidando com aspectos técnicos antes de soltar os predadores de volta à natureza, por exemplo, com os materiais de aclimatação térmica”, observa Tirpak. Mas a população de lobos-vermelhos continuou crescendo. Em 2012, o número de indivíduos da espécie chegou a 120, sendo que entre 2004 e 2014, este número se manteve estável, com cerca de 100 lobos-vermelhos distribuídos em várias matilhas.

Inicialmente, a reintrodução do lobo-vermelho na natureza foi considerada um sucesso. No livro The Secret World of Red Wolves (O Mundo Secreto dos Lobos-Vermelhos, em tradução livre), T. DeLene Beeland afirma que a experiência não foi “nada menos do que um milagre biológico, político e sociológico”. A reintrodução dos lobos-vermelhos na natureza poderia ter sido, na ocasião, um modelo para o caso dos lobos-cinzentos em Yellowstone e Idaho, bem como para outros predadores em todo o mundo.

Mas fatores como o rápido crescimento populacional de coiotes na Carolina do Norte, as más relações com os habitantes locais e uma mudança de estratégias administrativas até então bem-sucedidas, contribuíram para que a população selvagem de lobos-vermelhos diminuísse bruscamente.

Na década de 1990, um pequeno grupo de caçadores e proprietários de terras, liderado por um incorporador imobiliário chamado Jett Ferebee, que possui milhares de hectares próximos ao Refúgio dos Lagos Pocosin, começou a contestar fortemente o programa de resgate ao lobo-vermelho. Através de sites na internet, banners em aviões e outdoors em rodovias, Ferebee classificou o programa de reintrodução dos predadores como um “escândalo”, uma violação federal que infringia os direitos de propriedade das pessoas e que custava milhões aos contribuintes. O incorporador imobiliário ainda acusou os lobos-vermelhos de dizimar as populações locais de veados — embora não haja evidências que comprovem essas alegações.

Os cinco municípios onde se promoveu o programa de preservação do lobo-vermelho estão entre os mais pobres do estado, com uma economia que depende da caça e da pesca, bem como de outras atividades ao ar livre, como o ecoturismo. Mas o sentimento de oposição ao governo é crescente na região. Um acordo judicial de 2014 proibiu a caça noturna de coiotes em uma tentativa de conter as mortes de lobos-vermelhos, pois pode ser difícil distinguir entre jovens lobos-vermelhos e coiotes. Além disso, algumas pessoas consideravam a proibição injusta por não poderem caçar coiotes livremente, o que fomentou ainda mais a oposição contra os lobos-vermelhos na região.

Em fóruns virtuais de caça, os lobos-vermelhos foram rotulados como espécie “híbrida” e “mutante”, o que é incorreto, pois os zoológicos criam os animais cuidadosamente para manter a diversidade genética. Embora os lobos-vermelhos possam se reproduzir com coiotes, é comum que aconteça apenas quando não há outros lobos-vermelhos o suficiente no mesmo habitat. Já houve debates acadêmicos sobre a taxonomia do lobo-vermelho, mas um estudo bem fundamentado, publicado em 2019 pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, declarou que a espécie, denominada Canis rufus, é legítima e que necessita de proteção federal.

Em 2015, a Comissão de Recursos de Vida Selvagem da Carolina do Norte aprovou resoluções que comprometeram os esforços do governo federal para manter a população de lobos-vermelhos. A agência interrompeu a estratégia de adoção de filhotes por mães lobas selvagens e suspendeu a esterilização de coiotes, que contribuía para a preservação dos lobos-vermelhos.

Recebendo muitas solicitações para o extermínio dos lobos, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem também concedeu algumas permissões para abater lobos em propriedade privada, embora os lobos-vermelhos tenham matado apenas sete animais domésticos ao longo de 30 anos, ocasiões em que os proprietários foram indenizados. A partir de 2014, uma população de lobos-vermelhos que totalizava 100 indivíduos diminuiu para cerca de 20, em contagem realizada no fim de 2020, como afirma Madison.

Sierra Weaver, advogada da Selc, diz que antes de ceder às pressões e mudar as políticas em relação ao lobo-vermelho, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem “tinha um programa muito bem-sucedido”. A advogada reconhece os esforços recentes, por parte da agência, para melhorar as relações com os habitantes locais e menciona que a lei deve ser aplicada com mais vigor. Apesar de diversos lobos vermelhos terem sido mortos a tiros na última década, não houve nenhum processo contra os responsáveis.

Motivo de esperança

Assim como o método de adoção de filhotes de lobo-vermelho exige bastante planejamento e coordenação com parceiros, Lasher afirma que o avanço dos programas de preservação dessa espécie depende do trabalho em equipe para conseguir bom êxito. Para progredir, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem espera obter maior apoio dos habitantes locais e conseguir com que sejam mais tolerantes em relação aos lobos-vermelhos. Para ajudar a alcançar esses objetivos, há um projeto de incentivo a proprietários de terras recém-lançado, diz Madison. O projeto “Presa para a Matilha” dará um auxílio aos proprietários de terra em troca de permitirem que os lobos-vermelhos vivam em suas terras.

“Este é um primeiro passo muito empolgante”, disse Ramona McGee, advogada da Selc, sobre essas novas notícias. “Mas é preciso fazer mais, já que a população de lobos-vermelhos ainda é muito pequena.” Em 2019 e 2020, nenhuma ninhada nasceu na natureza. “É fundamental garantir e facilitar a reprodução”, acrescenta McGee.

De acordo com a ordem judicial, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem publicará regularmente atualizações sobre o trabalho realizado e os planos desenvolvidos em prol da reintrodução de lobos-vermelhos na natureza. Nos próximos meses, a instituição participará da reunião do Plano de Sobrevivência da Espécie de Lobos-Vermelhos, que reúne líderes de mais de 40 organizações que protegem e reproduzem os aproximadamente 250 lobos-vermelhos sob cuidados humanos atualmente.

“Esperamos continuar nos empenhando”, conclui Madison, “e trabalhar em cooperação com as comunidades locais para angariar apoio para o nosso trabalho em favor da preservação dessa ilustre espécie”.

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