Fóssil perfeito recuperado pela Polícia Federal revela segredos de réptil voador pré-histórico

O réptil voador tinha quase o tamanho de um homem, uma crista gigantesca na cabeça e provavelmente era mais ágil andando que voando.

Publicado 25 de ago. de 2021 18:54 BRT
Incrustado em blocos de pedra calcária, o fóssil recém-estudado é o primeiro esqueleto completo de uma ...

Incrustado em blocos de pedra calcária, o fóssil recém-estudado é o primeiro esqueleto completo de uma espécie de pterossauro descrita em 2003.

Foto de Victor Beccari

Escondidas em barris e carregadas em caminhões, milhares de rochas calcárias estavam prontas para serem contrabandeadas para fora do Brasil em 2013. Retiradas de uma pedreira na Bacia do Araripe, na região Nordeste, as placas não eram pedras comuns. Elas continham restos mortais preservados e impressões impecáveis de criaturas que viveram há milhões de anos.

Fadado a ser vendido a museus e potencialmente a colecionadores particulares de todo o mundo, o fóssil teria rendido aos contrabandistas milhares de dólares, se não mais. Em vez disso, mandados de busca e apreensão expedidos pela Operação Munique, da Polícia Feral, interceptaram a exportação ilegal e encaminharam quase 3 mil peças para a Universidade de São Paulo.

Entre as relíquias estava um réptil alado estranho, de quase um metro de altura, com mandíbula semelhante ao bico de um pássaro e uma protuberância na cabeça maior que o normal. Agora, os cientistas relatam que o esqueleto é o primeiro completo da espécie de pterossauro Tupandactylus navigans, que viveu no início do período Cretáceo, cerca de 110 milhões de anos atrás.

O novo esqueleto fóssil revela que esta espécie de pterossauro provavelmente poderia voar apenas curtas distâncias devido à enorme crista em sua cabeça. 

Arte de Victor Beccari

“Já vi muitos pterossauros excepcionais e lindamente preservados no Brasil e no exterior, mas espécimes como este, que está quase completo e articulado, com preservação das partes moles, são raros”, diz Fabiana Rodrigues Costa, paleontóloga da Universidade Federal do ABC, em São Paulo, e coautora do estudo publicado hoje na revista PLOS ONE . “É como ganhar na loteria.”

A espécie foi descrita em 2003 por cientistas da Alemanha e da Inglaterra, a partir de dois crânios. Mas esta é a primeira vez que os paleontólogos conseguem estudar o resto do corpo do animal, incluindo alguns tecidos moles e os ossos do pescoço, das asas e das pernas. As descobertas podem um dia ajudar a resolver um antigo debate sobre como as cristas gigantescas nas cabeças desses répteis podem ter afetado suas habilidades de voo.

“É um fóssil único”, diz Costa.

Répteis antigos do céu

Pterossauros eram primos próximos dos dinossauros e viveram ao lado deles. Enquanto os dinossauros prosperavam em terra, os pterossauros reinavam nos céus. Eles coexistiram desde o final do período Triássico, mais de 200 milhões de anos atrás, até o final do período Cretáceo, 66 milhões de anos atrás, quando ambos os grupos foram extintos na calamidade global desencadeada por um asteroide.

Mas os pterossauros não têm descendentes vivos, ao contrário dos dinossauros, que sobrevivem nas aves atuais. Os fósseis são a única janela para a aparência e a vida dessas criaturas voadoras pré-históricas, e os fósseis de pterossauros são extremamente raros. Seus ossos delicados deterioram-se com facilidade, muitas vezes rendendo apenas fragmentos de um esqueleto.

Paleontólogos recuperaram restos de pterossauros principalmente de sedimentos que antes estavam submersos. A lama fofa enterrou rapidamente as carcaças depois que afundaram no fundo de lagos ou mares, e as condições de baixo oxigênio limitaram a decomposição.

A Bacia do Araripe, que já foi coberta por lagoas salinas, mas agora é árida e arbustiva, produz muitos fósseis excepcionalmente preservados sepultados em camadas de calcário. “Você abre a pedra como se estivesse abrindo um livro e, dentro dessas páginas, encontra fósseis”, diz o paleontólogo e coautor do estudo Felipe Lima Pinheiro, da Universidade Federal do Pampa, em São Gabriel (RS).

Vinte e sete das mais de 110 espécies conhecidas de pterossauros vieram dessa região. Os tapejarídeos estão entre os grupos mais diversos e abundantes, particularmente os do gênero Tupandactylus, todos com cristas de cabeça enormes e extravagantes.

Embora a Bacia do Araripe seja rica em fósseis, Pinheiro diz que fósseis de pterossauros não são comumente encontrados, muito menos os quase completos. O comércio ilegal de fósseis não ajuda. Os esqueletos muitas vezes acabam nas mãos de compradores estrangeiros, em vez de em museus e instituições de pesquisa do Brasil.

“O fóssil quase completo é um achado muito importante”, diz o aluno de pós-graduação em paleontologia Rodrigo Vargas Pêgas, da Universidade Federal do ABC, em Santo André (SP), que não esteve envolvido na pesquisa. “É uma grande notícia para a paleontologia brasileira.”

Crista pré-histórica

Em 2014, quando o fóssil do Tupandactylus navigans chegou à Universidade de São Paulo, seu esqueleto estava incrustado em seis placas de calcário bege. Victor Beccari, estudante de pós-graduação da universidade e principal autor do novo estudo, notou pela primeira vez que a crista do pterossauro correspondia a quase três quartos de seu crânio. “É tão grande – relativamente ao tamanho do animal – quanto a cauda de um pavão”, diz ele.

Para os cientistas que descreveram Tupandactylus navigans em 2003, a crista craniana parecia velas de windsurf e, portanto, um sistema de propulsão para auxiliar o voo. Para que isso fosse possível, eles imaginaram um animal com pescoço curto e tendões ósseos travando as vértebras cervicais.

Com acesso ao esqueleto completo, Beccari e seus colegas foram capazes de investigar a aptidão do animal para o voo. A equipe gerou um modelo tridimensional do esqueleto usando um scanner de tomografia computadorizada (TC) para analisar os ossos.

Acontece que o Tupandactylus navigans tinha um pescoço longo, pernas longas e asas relativamente curtas. As descobertas sugerem que o animal andava melhor do que voava. A extravagante crista craniana do animal – possivelmente um ornamento para exibição sexual – o limitaria a realizar voos de curta distância, possivelmente para fugir de predadores.

Mas outro mistério dessa crista vertical estimula os pesquisadores a buscarem mais pistas. Uma espécie diferente de tapejarídeo, conhecido como Tupandactylus imperator, viveu ao lado do Tupandactylus navigans. O primeiro, conhecido por quatro crânios e ostentando uma crista ainda maior, compartilha uma forma de cabeça semelhante à do Tupandactylus navigans, e os pesquisadores se perguntam se eles podem realmente ser dois sexos da mesma espécie.

“É só um palpite.” Pinheiro diz. “Um esqueleto completo do imperator – se o encontrarmos – vai ajudar.” Talvez o calcário da Bacia do Araripe renda mais ossos tapejarídeos, revelando mais segredos sobre a vida desses répteis enigmáticos.

Por enquanto, graças à operação policial, cientistas e o público em geral podem ver o Tupandactylus navigans com os próprios olhos: seu notável esqueleto está em exibição no Museu de Geociências de São Paulo desde 2017.

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