Os 'super-humanos' são reais? A ciência explica.

Pessoas com talentos ou feitos extraordinários parecem possuir habilidades não-humanas. Mas será que isso é realmente verdade?segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Por Simon Worrall
LeBron James, na foto acima, dorme cerca de 12 horas por dia, o que contribui para seu grande sucesso nas quadras, de acordo com um novo livro intitulado Superhumans.

A palavra "super-humano" nos faz lembrar dos personagens da Marvel, munidos com capas para combater o mal. Mas as pessoas que o biólogo evolucionário Rowan Hooper descreve em seu novo livro, Superhuman: Life at The Extremes of Mental and Physical Ability (Super-humanos: a vida nos extremos das habilidades mentais e físicas, em uma tradução livre), são simplesmente iguais a nós. Bem, quase iguais. Essas pessoas comuns conseguiram, de alguma forma, fazer coisas extraordinárias, seja encontrar a felicidade apesar de conviver com uma doença terrível ou fazer cestas de três pontos em uma partida de basquete.

Quando a National Geographic conversou com Hooper na revista científica New Scientist, em Londres, na qual ele trabalha como editor, ele explicou como uma mulher com síndrome do encarceramento havia lhe inspirado com seu otimismo, falou por que Lebron James adora dormir e comentou por que a genética também pode estar por trás das "Zonas Azuis", regiões do mundo onde as pessoas gozam de uma longevidade excepcional.

Você passou um tempo com muitas pessoas excepcionais durante as pesquisas do livro, de um especialista em descarte de bombas a uma pessoa com síndrome do encarceramento. Conte-nos sobre algumas dessas pessoas e o aspecto em comum que as conecta a nós.

Shirley Parsons sofre de síndrome do encarceramento. Ela ficou completamente paralisada após um derrame cerebral, porém, sua mente está intacta. Foi o cirurgião dela que me contou sua história, porque ela o marcou com o seu caráter, seu senso de felicidade e seu otimismo, mesmo diante de um terrível trauma. Eu conversei um pouco com ela por e-mail e combinei de encontrá-la pois, em uma de nossas mensagens, ela me disse que era feliz; na verdade, mais feliz agora do que antes do derrame e da paralisação. Para mim, processar isso foi algo realmente excepcional. Eu pensei, nossa, quero conhecê-la e descobrir como é possível não apenas ser feliz com a vida que leva após algo tão horrível ter acontecido, como também ser mais feliz! Então, fui vê-la. Também conversei com psicólogos que trabalham com pessoas que vivenciaram esse tipo de situação.

O que acontece é que, apesar do que imaginamos ao nos depararmos com a situação, quando você pergunta como elas estão, a maioria dessas pessoas está em paz e encontrou o caminho da felicidade. Foi interessante e contraintuitivo descobrir que pessoas que você imaginava não serem felizes devido a algo terrível que lhes aconteceu, na verdade, são. Isso foi algo extraordinariamente interessante de se investigar.

A mensagem que frequentemente recebemos é que normalmente temos que batalhar para encontrar a felicidade de uma forma comercial, comprando bens materiais, conseguindo um emprego que pague mais ou se mudando para uma casa maior em um bairro mais nobre. Mas se observarmos as pessoas que não têm essas coisas devido às suas limitações, percebemos que há outras formas, talvez mais profundas, de encontrar a felicidade. Ao conhecer essas pessoas, a mensagem que ficou para mim foi que não precisamos vivenciar algo tão traumático para fazer pequenos ajustes que nos permitam melhorar um pouco a nossa vida.

Thomas Jefferson declarou que "a busca pela felicidade" é um direito universal. Mas como podemos definir a felicidade? Ela é material ou espiritual - ou genética?

Há uma área acadêmica inteira na qual as pessoas passam sua vida profissional discutindo sobre o que é a felicidade. Mas todos nós sabemos quando estamos felizes. É algo que sentimos. Neste caso, estou falando de felicidade momentânea, não algo que você projeta para o futuro e pensa 'serei feliz se comprar essa casa nova ou esse carro novo'. É um sentimento momentâneo de estar feliz.

Possivelmente, há um componente genético por trás da sua personalidade de referência e isso significa a sua felicidade diária na vida. Um estudo na Nova Zelândia analisou uma variante de um gene que pode estar associada a níveis mais altos ou baixos de depressão ou, inversamente, a níveis mais altos ou baixos de contentamento diário.

Com uma característica tão subjetiva e difícil de definir como a felicidade, é difícil entender como a genética pode estar relacionada a ela. Inúmeros estudos já foram realizados a respeito, mas ainda não há um veredito. Podemos dizer que parece haver um componente genético influenciando muitas das características comportamentais e fisiológicas. Mas não podemos dizer que há um gene específico.

Ao falarmos de pessoas excepcionais, a pergunta que sempre surge é quem é o responsável: os genes ou o ambiente - natureza ou criação. É uma frase da qual não gosta muito, não é?

Sim! Colocar um contra o outro é totalmente errado. Nenhum geneticista iria discutir se algo é inerente à natureza ou à criação porque nada funciona sozinho. Todos os genes que possuímos se expressam em um ambiente. Nunca se trata de um ou do outro. São sempre as duas coisas trabalhando juntas.

Então, a pergunta seria qual é o mais importante e é possível que um substitua o outro ou compense um déficit no outro? Ao longo dos anos, as pessoas têm esperançosamente sugerido que é possível considerar apenas a criação. E que, se você tentar e se esforçar o suficiente para realizar algo, você pode se tornar o melhor. É uma ótima ideia e gostaria que fosse verdade! [risos] Mas o que acontece é que para ser o melhor do mundo, não apenas ser realmente bom em algo, você realmente precisa de uma ajudinha da genética, além de ter que se esforçar muito e ter todo esse lado ambiental, de criação das coisas.

Dizem que um dos principais aspectos que contribuem para o talento excepcional de Lebron James é o fato de ele dormir de 11 a 12 horas por noite. Existe algum embasamento científico nisso?

Diversas pesquisas já demonstram a importância do sono. Na década de 1980, havia essa filosofia de Gordon Gekko de que dormir era para os fracos, que ainda persiste, especialmente entre os trabalhadores das metrópoles e em uma cultura de negócios dominada pelos homens. Donald Trump gosta de se gabar ao dizer que dorme muito pouco. Margaret Thatcher não necessariamente se gabava disso, mas também era famosa por não dormir muito. Contudo, ela morreu de Alzheimer e hoje temos crescentes evidências que indicam uma relação causal entre a falta de sono persistente e o posterior desenvolvimento de doença de Alzheimer. Há inúmeros dados que demonstram como a nossa memória e habilidades cognitivas melhoram significativamente quando temos uma boa noite de sono. É por isso que, entre os atletas de elite, o sono é levado bastante a sério, a razão pela qual Lebron James o valoriza tanto.

O termo "Zonas Azuis" foi criado pelo autor Dan Buettner da National Geographic para descrever lugares onde as pessoas vivem vidas excepcionalmente mais longas. Leve-nos para um desses lugares e explique por que eles seriam favoráveis para se chegar aos muitos anos de vida.

Os locais pertencentes às Zonas Azuis tendem a ser agradáveis e quentes. Possuem um ótimo clima, boa rede de apoio comunitário e muitos legumes saudáveis e peixes para serem consumidos. Okinawa, em especial, possui um dos maiores índices de longevidade do Japão e o Japão possui o maior índice de longevidade do mundo. Sendo assim, muitas pessoas de Okinawa são as pessoas mais velhas do mundo. Nós pensamos, vamos tentar replicar os fatores que existem lá e ver se isso ajuda outras pessoas a viverem mais. Novamente, é uma ótima ideia, mas agora os geneticistas estão começando a achar que existe algo a mais por trás disso. Esses lugares realmente possuem tudo o que favorece uma boa saúde, mas você também precisa possuir bons genes da longevidade. Então, pelo visto, as Zonas Azuis não são apenas locais de clima e nutrição favoráveis, mas de genética também. Essas populações são bem reservadas e possuem altas concentrações de genes associados à longevidade.

A National Geographic recentemente publicou uma matéria que ficou bastante conhecida sobre uma mulher de 21 anos de idade que recebeu um transplante facial. Carmen Tarleton é outra dessas pessoas. Conte-nos a história dela e fale um pouco sobre o Projeto Resiliência.

Para o capítulo sobre resiliência, eu queria encontrar pessoas que haviam se recuperado de traumas enormes, e Carmen Tarleton foi alguém sobre a qual eu pesquisei bastante porque ela havia sofrido um horrível ataque de seu agressivo marido. Não quero entrar em detalhes. Mas ela ficou em coma, a maior parte de sua pele e rosto foi queimada com soda cáustica - composto químico de uso industrial - e ela foi espancada. Seu cirurgião me disse que os ferimentos dela foram os piores e que o ataque foi o mais brutal que ele já tinha visto em um sobrevivente.

Ela ficou em coma por três meses, mas quando acordou, soube imediatamente que poderia tirar algo de positivo do que havia acontecido. Ela assumiu o controle de sua vida de forma extraordinária, submetendo-se a um transplante de rosto. Um dos maravilhosos desfechos desse caso foi que ela se tornou amiga da filha da mulher cujo rosto ela agora exibe.

O Projeto Resiliência é algo diferente. Ele busca por pessoas que possuem os genes de uma condição que normalmente seria fatal, como fibrose cística, mas que, por alguma razão ainda desconhecida, conseguem ser toleráveis à doença. Quase sempre, se você possui um gene para fibrose cística, você terá a doença ou Alzheimer de início precoce. Entretanto, os cientistas estudam algumas pessoas que carregam os genes de um distúrbio grave, mas não o desenvolvem. Essas pessoas são fascinantes porque possuem um sistema genético que, de alguma forma, os protege contra os malefícios que esses genes ruins poderiam causar.

Malcolm Gladwell cunhou o termo regra das 10 mil horas. Explique do que se trata e por que a prática realmente não pode nos tornar perfeitos.

Malcolm Gladwell estava analisando o trabalho de um cientista chamado Anders Ericsson, que ao longo dos anos produziu muitas pesquisas defendendo que a prática é essencial para que uma pessoa domine uma competência. Certamente, ele ficaria do lado da criação nesse suposto debate entre natureza e criação. Malcolm Gladwell pegou esse conceito e o popularizou com a ideia de que se você pratica algo por 10 mil horas, você se torna um especialista naquilo. O livro foi um sucesso porque é bastante atraente a ideia de que qualquer um de nós é capaz de se tornar um especialista quando nos dedicamos o bastante. Infelizmente, dominar uma competência realmente está condicionado a um grande componente genético sem o qual não é possível ter sucesso. Isso não significa que especialistas pulam da cama de manhã e se tornam especialistas sem nenhuma prática. É absolutamente necessário praticar, mas não é algo que você consegue fazer sozinho.

Um bom exemplo é o grande mestre de xadrez, Magnus Carlsen, considerado o melhor jogador de xadrez de todos os tempos. Considerando que a prática pode nos tornar o melhor em algo, Magnus Carlsen precisaria ter praticado então mais do que os outros grandes mestres, que são os dez melhores jogadores de xadrez do mundo. Mas, na verdade, ele praticou xadrez menos do que esses jogadores. Isso nos faz imediatamente pensar que não pode ser apenas a prática, deve haver algo a mais. Pessoas que estudam o xadrez acreditam que há um grande componente genético que influencia a inteligência e a habilidade de jogar xadrez.

Qual foi a informação mais importante obtida nas suas pesquisas? É possível que todos nós sejamos super-humanos? Ou estamos condenados à mediocridade?

[Risos] A mensagem que levo é que nem todos podem ser super-humanos, mas não acredito que essa seja uma conclusão deprimente porque somos capazes de aprender com essas pessoas, progredir um pouco, sermos um pouco mais felizes na vida e alcançar patamares um pouco melhores. Há formas de fazer isso sem ser um super-humano, e isso ainda o deixará mais feliz e pode melhorar o seu cotidiano. Foi inspirador ouvir as histórias dessas pessoas porque, mesmo sabendo que não seremos super-humanos, todos nós podemos alcançar algo um pouco melhor.

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