Bebês nascidos durante a pandemia poderão conviver com traumas a longo prazo?

Pesquisadores dizem que o estresse extremo que as mulheres grávidas enfrentam pode ser transmitido para os fetos, mas não é consenso que os recém-nascidos estão condenados a passar por dificuldades.

Por Stav Dimitropoulos
Publicado 9 de set de 2020 09:07 BRT, Atualizado 5 de nov de 2020 02:56 BRST
A pandemia deu início a estudos em longo prazo — e a um debate — sobre ...

A pandemia deu início a estudos em longo prazo — e a um debate — sobre o desenvolvimento de trauma residual na Geração Coronavírus.

Foto de Callaghan O'Hare, Reuters

O ESTRESSE COLETIVO desencadeado pela pandemia atual se tornou tão abrangente que deu início a um debate científico sobre a possibilidade de os bebês nascidos durante os períodos de isolamento sofrerem de problemas de saúde pelo resto de suas vidas. Se você estiver se perguntando por que isso pode acontecer, basta pesquisar sobre a tempestade de gelo da América do Norte de 1998.

Por até seis semanas depois que a tempestade provocou corte de energia no leste de Ontário e no sul de Quebec, as mulheres grávidas tiveram que enfrentar as gélidas temperaturas em suas casas — e isso deixou uma marca biológica em seus bebês, segundo a radiologista Catherine Lebel da Universidade de Calgary. O estudo do Projeto Tempestade de Gelo realizou tomografias nos crânios de 35 meninos e 33 meninas nascidos de mães que estavam grávidas durante o acontecimento, a fim de analisar se a tempestade teve alguma influência na amígdala cerebelosa, uma parte do cérebro que atua no controle das emoções.

A pesquisa constatou que os bebês nascidos durante o desastre tinham amígdalas maiores uma década mais tarde. Esse aumento de tamanho também estava relacionado a comportamentos agressivos frequentes, principalmente em meninas. Acredita-se que o estresse pré-natal influencie o crescimento inicial da amígdala, tanto em humanos quanto em roedores, e seu tamanho pode influenciar se uma pessoa pode vir a desenvolver depressãoansiedade ou agressividade.

Agora, Lebel está liderando um estudo em longo prazo que monitorará mulheres grávidas do Canadá mensalmente e acompanhará os bebês após o nascimento para observar se o isolamento causará efeitos semelhantes nos bebês nascidos na era do coronavírus. “É tolice desconsiderar o período pré-natal”, afirma Lebel.

Lebel e outros pesquisadores dizem que a tensão e o isolamento excessivos pelo qual essas mulheres estão passando podem estar afetando seus fetos, o que, de acordo com eles, pode estabelecer uma base que desenvolva na “Geração C” diversos problemas cognitivos, mentais, emocionais e físicos.

Em maio, Sam Schoenmakers do Centro Médico da Universidade Erasmo de Roterdã, na Holanda, e quatro outros obstetras, neonatologistas e especialistas em ética médica publicaram uma matéria  na revista médica British Medical Journal sobre os “efeitos colaterais” que os bebês nascidos durante a pandemia podem enfrentar. Eles observaram que alguns relatórios mencionam taxas mais altas de distúrbio de personalidade antissocial e menor expectativa de vida para crianças nascidas durante o período de fome causado pelas ocupações nazistas na parte ocidental da Holanda na década de 1940. De forma semelhante, estudos sobre as consequências da supertempestade Sandy de 2012 descrevem mudanças no temperamento dos filhos de mulheres que estavam grávidas quando o desastre ocorreu: essas crianças eram mais assustadas e tristes, e também menos carinhosas e se divertiam menos.

O projeto de Lebel sobre a covid-19 já apresentou alguns resultados preocupantes. Em abril, a equipe recrutou cerca de duas mil participantes grávidas para o preenchimento de questionários psicológicos. Entre as pessoas que participaram da pesquisa, 37% relataram sintomas clinicamente relevantes de depressão e 57% expressaram sinais de ansiedade. Com base em evidências passadas, essa tensão observada em mulheres grávidas pode estar provocando alterações fisiológicas em seus bebês em desenvolvimento.

Mas nem todos acreditam que os bebês nascidos durante a pandemia estejam, necessariamente, destinados a passar por dificuldades. A psicóloga clínica e autora do livro Trauma and Madness in Mental Health Services (“Trauma e loucura na área da saúde mental”, em tradução livre) Noel Hunter diz que o conceito de efeitos colaterais é amplamente generalizado e se baseia em um escasso número de dados estatísticos.

“Pesquisas anteriores mostraram apenas uma correlação entre problemas posteriores apresentados na saúde física e mental dos bebês, e não uma causalidade”, alega Hunter. Para ela, essas correlações não consideram a forma como situações estressantes (como uma pandemia em curso) podem influenciar os comportamentos de adultos em relação às crianças. Em vez de culpar os organismos das mães e o período pré-natal, Hunter diz que o foco deve ser ampliado para o estudo de traumas persistentes que podem influenciar as crianças após o nascimento, como o comportamento abusivo dos pais e estresse durante a infância, que também foram associados a consequências em longo prazo para a saúde.

Outros especialistas argumentam que qualquer pesquisa deve considerar a relação da covid-19 com as vulnerabilidades já existentes devido ao racismo sistêmico ou à desigualdade de renda. A psicóloga Alisha Ali, da Universidade de Nova York, sinaliza grandes problemas institucionais que agora ficaram ainda mais evidentes, desde cuidados de saúde precários para pessoas negras até desertos alimentares em áreas urbanas e ilhas de calor criadas, em grande parte, por políticas com viés racista.

“As pessoas que já enfrentavam o risco de ter filhos sem o direito de acesso a programas de alimentação, atendimento médico e recursos relacionados, agora enfrentam um risco ainda maior”, diz Ali.

Lebel adota uma postura moderada quando se trata de utilizar termos mais polêmicos, como “efeitos colaterais,” embora ela acredite que os bebês nascidos durante a pandemia possam apresentar algum tipo de problema de saúde.

“Eu não diria uma geração prejudicada”, diz Lebel. “Mas daqui 20 anos veremos taxas mais altas de depressão e ansiedade do que as observadas nas gerações anteriores.”

Rede de apoio da saúde

Entender se a pandemia irá influenciar os bebês nascidos durante esse período levará algum tempo, mas enquanto isso, os pais podem tomar algumas providências para minimizar os efeitos. Por exemplo, os resultados iniciais do estudo de Lebel sobre a covid-19 mostraram que ter uma rede de apoio e realizar mais atividades físicas foram associados a um menor número de sintomas de ansiedade e depressão entre as mulheres grávidas que participaram da pesquisa.

Nutrir relações — mesmo que sejam virtuais ou com distanciamento físico — pode ajudar a lidar com as experiências duplas do isolamento em casa e da sensação de sobrecarga causada pelas novas responsabilidades na criação de um filho. Para pais de todos os tipos, a importância de uma forte rede de apoio é imensurável, diz Ali.

“Isso deve fazer parte do plano de uma gestante desde o início da gravidez”, diz. “Contar com o apoio de pelo menos uma pessoa em quem você confia — seja um parceiro, uma mãe ou um pai ou um amigo íntimo — pode ter um papel preventivo quando se trata de problemas de saúde físicos e mentais e nada impede que esse apoio seja virtual.”

Dito isso, pais que lidam com situações de vulnerabilidade social podem precisar de assistência adicional. Além de se certificarem de que esses pais tenham melhor alimentação para si e para seus bebês recém-nascidos, os assistentes sociais também devem garantir que essas famílias recebam apoio social contínuo, segundo Ali. Ter uma enfermeira ou assistente social que entre em contato regularmente após o nascimento do bebê, e não apenas nos primeiros dias após o parto, pode evitar problemas de saúde mental e física.

Hunter recomenda praticar atividades divertidas, como jogos de tabuleiro, cantar no karaokê, fazer um vídeo no TikTok ou uma brincadeira de caça ao tesouro. Da mesma forma, os pais podem se beneficiar ao aprender uma nova habilidade, de ter tempo para rir ou para se lamentar caso tenham perdido um ente querido. Sono e boa alimentação continuam sendo importantes como sempre para uma gravidez e período de pós-parto saudáveis.

“De modo geral, as crianças ficarão bem se seus pais cuidarem de si mesmos e se preocuparem com aquilo que é mais importante na vida”, diz Hunter. “Quando trabalhamos juntos e apoiamos uns aos outros, podemos superar praticamente qualquer coisa.”

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