OMS busca as origens do coronavírus. Confira os novos achados

‘Detetives de doenças’ que trabalharam em buscas semelhantes afirmam que a investigação continua ocorrendo, mas agora conta com ferramentas e técnicas avançadas para auxiliar no processo.

Por Larry Mullin
Publicado 14 de nov de 2020 08:00 BRST
Membros da Equipe de Resposta à Emergência de Higiene de Wuhan conduzem buscas no Mercado Atacadista ...

Membros da Equipe de Resposta à Emergência de Higiene de Wuhan conduzem buscas no Mercado Atacadista de Frutos do Mar Huanan, que no momento encontra-se fechado, na cidade de Wuhan, província de Hubei, em 11 de janeiro de 2020.

Foto de Noel Celis, AFP via Getty Images

PEQUIM Dez meses se passaram desde que autoridades sanitárias citaram o Mercado Atacadista de Frutos do Mar Huanan, em Wuhan, como o marco zero para a pandemia de covid-19 — e, desde então, há um debate global sobre a origem da pandemia. Em breve, poderemos ter acesso às respostas, à medida que a Organização Mundial da Saúde (OMS) avança para os estágios finais de uma busca pelas origens do coronavírus.

Durante uma entrevista coletiva realizada em 23 de outubro, Michael Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências de Saúde da OMS, afirmou que os cientistas chineses já começaram os primeiros estudos para a pesquisa de duas fases. Com base nas constatações dos especialistas , a OMS enviará uma equipe internacional à China para trabalhar em conjunto com muitos dos principais cientistas do país no rastreamento das raízes da covid-19. Uma semana depois, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, declarou que um grupo de especialistas internacionais realizou uma primeira reunião virtual com seus colegas chineses, antes de se comprometer com o apoio total da OMS no processo. Em 5 de novembro, a OMS discretamente divulgou detalhes sobre sua missão em parceria com a China, descrita como um estudo global sobre as origens do SARS-CoV-2.

O atraso de meses para iniciar a investigação suscitou críticas de pesquisadores de saúde pública e líderes mundiais, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que acusou a OMS de ser muito complacente aos desejos da China. A equipe da OMS não estará presente nas investigações durante a primeira fase da pesquisa, apenas revisará e discutirá os dados coletados por pesquisadores chineses. Alguns relatórios descreveram esse acordo como uma cessão de responsabilidade por parte da OMS, visto que a organização é patrocinada por nações individuais, e a China é o segundo maior financiador, após os Estados Unidos.

Mas os ‘detetives de doenças’ que trabalharam em investigações semelhantes afirmam ser uma prática comum. A OMS não possui todo o contingente necessário — com sete mil funcionários distribuídos em 150 países — para realizar uma investigação de grande escala por conta própria e sempre conta com o apoio de equipes nacionais ou voluntários internacionais para trabalhos de campo.

“Em vez de nos perguntarmos de quem é a culpa, teríamos uma perspectiva bem diferente se nos perguntássemos por que essa doença se espalhou e o que ela nos ensinou”, afirma Sian Griffiths, copresidente da investigação do governo de Hong Kong sobre a epidemia da doença SRAG em 2003. Ele enfatiza a necessidade de objetividade no processo: “Francamente, olhar para trás e buscar um culpado não tem muita importância”.

Em 2003, uma equipe da OMS chegou à China quase três meses após o primeiro caso de surto da doença SRAG e, ainda assim, conseguiu identificar a origem animal dentro de semanas. Essa identificação pode ser realizada mesmo após um longo período do surgimento das doenças devido ao rastreamento genético, que se avança cada vez mais. Essa experiência e outras investigações anteriores podem revelar o que devemos esperar desse último esforço de busca pelo vírus.

A caça ao hospedeiro

Ryan, da OMS, esclarece que o planejamento da investigação começou em fevereiro, embora o escopo da missão final tenha se consolidado apenas em julho, quando uma equipe da OMS composta por duas pessoas concluiu uma tarefa preliminar de três semanas: “Estamos trabalhando com todos os envolvidos para reunir os estudos necessários e compreender melhor as origens desse vírus”. O projeto incluirá estudos epidemiológicos de casos de covid-19, análises biológicas e genéticas, e pesquisas em saúde animal.

Margaret Harris, porta-voz da OMS, afirma que essa pesquisa sobre as origens da pandemia não poderia ter começado antes porque as primeiras missões na China com respeito à covid-19 priorizaram o tratamento dos efeitos do vírus na população humana.

Na época, não havia precedência sobre “como tratar clinicamente a doença, quais fatores contribuem para sua disseminação e quais estratégias estão funcionando para tentar conter a transmissão”, afirma Harris. “Precisávamos constatar o quanto antes de que se tratava esse vírus e quais eram as melhores maneiras de prevenir a doença e as mortes.” Assim, após meses de pesquisa genética, concluiu-se que a pandemia começou com o que chamamos de troca de hospedeiro, um evento no qual um germe é transmitido de um animal para os humanos.

Agora é possível identificar como ocorreu essa contaminação infeliz: por meio da epidemiologia e da genética para rastrear o “caso zero”, afirma Linfa Wang, biólogo e diretor do Programa de Doenças Infecciosas Emergentes da Escola Médica Duke-NUS de Singapura. Wang é conhecido informalmente como “O Batman”, graças à sua pesquisa pioneira durante o surto da doença SRAG em 2003. A OMS recrutou Wang durante essa missão para seguir os vestígios em humanos, e ele conseguiu rastrear o vírus a um hospedeiro intermediário chamado gato-de-algália (civeta) e, posteriormente, aos morcegos.

Para a covid-19, a peça mais importante dessa iniciativa envolveria o teste de amostras biológicas, como o sangue, por exemplo, que são coletadas e armazenadas em hospitais todos os dias. Os pesquisadores estudariam amostras prévias e subsequentes à declaração pública do surto de coronavírus no final de dezembro de 2019. O ideal é que essa investigação retrospectiva se estenda por toda a China e países vizinhos.

“As amostras de sangue humano armazenadas em bancos de sangue seriam testadas para anticorpos para descobrir há quanto tempo o vírus SARS-CoV-2 está circulando entre os humanos e por onde está circulando”, afirma Ian Lipkin, diretor do Centro de Infecções e Imunidade da Universidade Columbia, cuja equipe utilizou esse procedimento para rastrear o vírus MERS-CoV em camelos no Oriente Médio. (O MERS-CoV surgiu em 2012, ele é primo do novo coronavírus SARS-CoV-2 e do vírus SARS-CoV original.)

Esse teste ajudará a desenvolver um cronograma inicial da covid-19. Christine Johnson, epidemiologista da Universidade da Califórnia em Davis declara que alguns dos principais questionamentos são: “Quais os comportamentos das pessoas que foram inicialmente expostas ou infectadas e qual sua profissão? As pessoas estavam mais propensas a interagir com certas espécies de animais ou viajar para locais específicos?”

Segundo Wang, os pesquisadores precisam avaliar o histórico de viagens e contato com animais para identificar quais atividades colocam as pessoas em maior risco de infecção. As pesquisas coletam amostras de sangue, urina e fezes de animais, como morcegos, pangolins, civetas ou qualquer outro mamífero encontrado em mercados, cadeias de abastecimento e comércio de animais, fazendas e habitats selvagens. Com esses dados, os cientistas podem implantar medidas de rotina para detectar infecções, incluindo testes de reação em cadeia da polimerase (PCR), para detectar a assinatura genética do vírus, e testes de anticorpos, que detectam proteínas do sangue responsáveis por defender o organismo do vírus, indicando exposição. Algumas amostras também retornariam ao laboratório para verificar se um vírus viável pode ser cultivado, o que constitui um sinal de infecção contagiosa.

A capacidade que a China possui para realizar essa pesquisa não deve ser subestimada, especialmente durante a covid-19, afirma Wang. “O investimento científico e a infraestrutura encontrados lá atualmente são muito diferentes do que eram em 2003, e os cientistas chineses são capazes de fazer qualquer coisa que a equipe internacional possa imaginar”, afirma ele. Por exemplo, a realização do sequenciamento genético da próxima geração atual acelera o processo de investigação.

Raina MacIntyre, especialista em doenças infecciosas e professora da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, afirma que os cientistas chineses já realizaram pesquisas importantes sobre as possíveis origens animais do SARS-CoV-2. A China e outros países contribuíram com sequências genéticas do coronavírus que foram coletadas em humanos para um banco de dados para rastrear sua evolução. Ao comparar os dados, diversos grupos de pesquisa chegaram à conclusão de que o novo coronavírus “provavelmente se originou nos morcegos, talvez por meio de um hospedeiro animal intermediário”, declara MacIntyre.

A ampla variedade de vírus semelhantes ao SARS-CoV que os morcegos-ferradura mantêm os tornam os principais suspeitos das origens da pandemia atual. E esses animais de hábitos noturnos das cavernas não são encontrados apenas na China, mas também nos países vizinhos de Mianmar, Laos e Vietnã. “Precisamos de uma rede colaborativa internacional patrocinada pela OMS, como a que tínhamos em 2003, e devemos considerar seriamente as investigações realizadas fora da China”, acrescenta Wang.

Embora espectadores inexperientes possam antecipar reviravoltas no enredo semelhantes aos dos filmes Epidemia, Contágio e outros sucessos de bilheteria com a temática “pandemia”, a maior parte do trabalho na verdade envolve apresentações em PowerPoint e planilhas.

“Para falar com total franqueza, missões como essa servem mais para trocar conhecimento e ideias do que para realizar trabalhos de campo de ‘ciências experimentais’, esclarece Wang. Ele se refere aos especialistas internacionais envolvidos na revisão das constatações de dados, no compartilhamento de informações, na discussão e ideias e na colaboração mútua.

Segundo Wang, o trabalho de campo que resulta em uma missão da OMS pode ser realizado por cientistas chineses que detenham todo o conhecimento, financiamento e ferramentas necessários. Além disso, é comum que governos limitem partes externas nas investigações sobre a pandemia. “Não penso que os Estados Unidos convidariam cientistas chineses para coletar e analisar amostras”, constata Lipkin.

E durante a busca de 2003 pelo hospedeiro do vírus SARS-CoV na China, Wang relembra como “foi necessário um acordo prévio para definir uma agenda e itinerário específicos de qualquer missão da OMS antes que a equipe pudesse entrar no país”.

Tarde demais, porém ainda misterioso

Alguns especialistas temem que o novo projeto da OMS não encontre nada de útil, pois quase um ano já se passou desde o surgimento da covid-19. Yanzhong Huang, pesquisador sênior de saúde global do Conselho de Relações Exteriores, teme que amostras ou evidências importantes possam ter sido perdidas, observando os relatos de que o mercado de Huanan foi inundado por desinfetantes antes que os cientistas investigassem o local.

Contudo, Daniel Lucey, detetive de doenças, afirma que há indícios de que a China já realizou um trabalho considerável.

“É evidente fariam isso”, afirma Lucey, membro da Universidade de Georgetown, porque “é do interesse nacional da China fazer uma investigação o mais rápido possível, pelo bem da saúde pública”.

Lucey aponta para o rastreamento realizado pela China do primeiro paciente infectado confirmado até 17 de novembro de 2019. Em seguida, uma outra investigação em janeiro foi conduzida por 29 pesquisadores chineses em diversas instituições, que examinaram quantos dos primeiros pacientes de covid-19 que poderiam estar ligados ao mercado de produtos perecíveis de Wuhan. Os resultados demonstraram que 14 dos 41 primeiros casos não ocorreram no local.

Ainda assim, algum mistério permanece em torno das pesquisas iniciais do marco zero. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) da China declarou no final de janeiro que havia coletado quase 600 amostras no mercado, e o virologista do Instituto de Virologia de Wuhan, Shi Zhengli, fez declarações públicas no final do primeiro semestre sobre o teste de amostras do solo, esgoto e maçanetas desse mercado.

Porém, de acordo com novos detalhes do plano de missão da OMS, cerca de 1,2 mil amostras foram coletadas no mercado de Wuhan, espaço que comportava 653 vendedores trabalhando com itens diversos, desde frutos do mar e esquilos até salamandras gigantes e cervos-sika. Contudo, não houve nenhum teste positivo para SARS-CoV-2 nas amostras obtidas dos 336 animais do mercado. Por outro lado, 8% das amostras ambientais coletadas — muitas envolvendo escoadouros e esgoto — carregavam o vírus.

“Dessa forma, não está claro se o mercado foi uma fonte de contaminação, atuou como um amplificador para a transmissão entre humanos ou se foi uma combinação desses fatores”, escrevem os autores do relatório. O relatório também aponta para uma pesquisa realizada no primeiro semestre que constatou resultados positivos para o vírus em 14% dos gatos domésticos e de rua em Wuhan. Na Holanda, o coronavírus tem atormentado fazendas de vison, mamíferos peludos que também são amplamente criados na China.

Por que as amostras ambientais seriam positivas se os animais tiveram resultados negativos? Em janeiro, Lipkin, da Universidade Columbia, visitou a China para contribuir com sua experiência, por meio de uma reunião com George Gao, chefe do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) da China. Na época, Gao constatou que o mercado de frutos do mar de Huanan havia sido higienizado e que os animais haviam sido removidos antes da coleta das amostras, segundo Lipkin relata em uma correspondência por e-mail com a National Geographic.

“Isso dispensa a coleta de sangue que poderia ser utilizada para testar anticorpos que persistiriam mesmo que o vírus não estivesse mais presente”, afirma Lipkin. “Os testes de anticorpos têm uma vantagem devido à sua capacidade de detectar evidências de exposição, independentemente de o vírus ter sido eliminado ou não.”

Ele acrescenta que, embora a busca possa começar em Wuhan, ela provavelmente se expandirá por toda a província de Hubei, e ele “não ficaria surpreso se descobríssemos sua presença em humanos antes do surto de Wuhan ter sido detectado em 2019”.

Wang define outro objetivo acima de tudo. Para ele, o segredo é proporcionar uma discussão aberta entre os cientistas e funcionários chineses com a equipe da OMS. Além disso, acrescenta que as investigações sobre as origens do vírus são tão politizadas que qualquer discussão sobre essas missões se tornaram “meramente simbólicas até que as questões políticas sejam resolvidas”.

A melhor atitude, segundo Wang, seria “discutir a origem em um ambiente totalmente não politizado e com a mente aberta, reconhecendo que os vírus relacionados ao SARS-CoV-2 provavelmente existam em morcegos fora da China”.

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