Veja como filmes de terror podem ajudar as pessoas a superarem traumas reais

Filmes que hoje parecem aterrorizantes podem melhorar suas reações ao medo amanhã — além de aliviar a ansiedade e o estresse.

Publicado 4 de nov. de 2020 17:00 BRT, Atualizado 5 de nov. de 2020 01:56 BRT
Algumas pessoas assistem a filmes de terror não somente porque gostam, mas porque têm respostas psicológicas ...

Algumas pessoas assistem a filmes de terror não somente porque gostam, mas porque têm respostas psicológicas semelhantes à terapia de exposição, uma técnica utilizada para tratar transtornos de ansiedade.

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QUANDO EU TINHA sete anos, minha mãe morreu por overdose de drogas. Nos anos seguintes, lutei contra o medo e a ansiedade excessivos com relação à morte. Eu tinha certeza de que um dia morreria jovem também. Deixei de fazer muitas das coisas que meus amigos faziam, como aprender a andar de bicicleta, porque parecia arriscado demais.

Então, no ensino médio, encontrei a salvação na locadora de filmes da minha cidade.

Junto com um grupo de amigos, alugamos De Volta à Escola de Horrores, um filme de terror de baixo orçamento de 1987. Durante quase duas horas, acompanhei as cenas, com frio na espinha, de um monstro torturando e matando pessoas, enquanto eu gritava no conforto da minha sala de estar. Quando o filme acabou, senti orgulho por ter conseguido assisti-lo até o fim e uma sensação imediata de alívio misturada com um pouco de euforia. Foi a melhor forma de liberação catártica que já vivenciei. Nas décadas seguintes de minha vida, os filmes de terror se tornaram uma forma de lidar com tragédias e obstáculos, incluindo o divórcio e a morte de outros entes queridos.

Para mim, os filmes de terror continuam sendo uma ótima ferramenta para lidar com o sofrimento. O efeito envolve um princípio básico da chamada terapia de exposição, que nos força a enfrentar o medo com o objetivo de superá-lo.

Experiências de medo controlado, como assistir a filmes de terror, “podem produzir efeitos positivos em estratégias de enfrentamento ajustadas”, explica Mathias Clasen, diretor do Laboratório do Medo Recreacional e professor associado de literatura e meios de comunicação na Universidade Aarhus, na Dinamarca. Da mesma forma, um estudo recente realizado com mais de 300 pessoas mostra que os fãs de filmes de terror têm se sentido muito melhor em termos psicológicos durante os meses emocionalmente desgastantes da pandemia de covid-19 do que as pessoas que não gostam do gênero.

“Pode ser que as pessoas aprendam sobre suas próprias reações ao medo e sobre como regular suas emoções quando assistem a filmes de terror”, contesta Clasen, autor do livro Why Horror Seduces (Por que o terror é sedutor, em tradução livre), de 2017. Portanto, embora seja improvável encontrar o último filme de terror lançado sendo exibido no consultório de um terapeuta, pesquisas sobre como lidamos com o medo — e por que alguns de nós somos atraídos por formas de entretenimento que o induzem — oferecem um novo panorama que nos ajuda a identificar como superar nossos traumas.

Sentimento de exposição

Discutir traumas e fobias nos ajuda a entender primeiro como nosso corpo processa o medo. A resposta automática é a conhecida reação de luta ou fuga: ficamos para enfrentar o que nos assusta ou fugimos para tentar evitar ou escapar do perigo. Essa resposta é impulsionada pelo sistema nervoso simpático, o conjunto de neurônios que se inicia na coluna vertebral e percorre o restante do nosso corpo. Em situações de perigo evidente, esse sistema dispara respostas involuntárias — o que aumenta nossa frequência cardíaca e pressão arterial, e bombeia mais sangue para nossos músculos — deixando-nos prontos para enfrentar a ameaça que se apresenta.

Ao percebermos que uma ameaça não existe mais ou não é real, outro sistema relacionado, o sistema nervoso parassimpático, assume o controle e ajuda a nos acalmar, facilitando a resposta de “descanso e digestão” do corpo. Essa resposta instintiva pode contribuir para a sensação de alívio depois que uma ameaça passa. E esse alívio é parte do que os pesquisadores estão explorando com a terapia de exposição.

Uma pesquisa aprofundada confirmou a eficácia da terapia de exposição. Ela foi considerada particularmente útil no tratamento de transtornos de ansiedade, incluindo transtorno de estresse pós-traumático, fobias e transtorno obsessivo-compulsivo. O tratamento atua na amígdala — região do cérebro responsável pelo medo — em um processo que ativa a região por meio da exposição ao objeto ou situação temida. Por exemplo: se uma pessoa sofre de aracnofobia, o terapeuta criará oportunidades para que ela interaja intencionalmente com aracnídeos, imaginando-os, segurando aranhas reais ou até mesmo simulando a presença delas com realidade virtual. Com a exposição repetida, o medo diminui.

Uma experiência de medo controlado como essa é benéfica porque acontece em um ambiente seguro. O terror se manifesta sob o olhar atento de um terapeuta, em situações que podem ser ajustadas e eliminadas propositalmente. O efeito terapêutico dos filmes de terror talvez funcione de forma semelhante. Um estudo de 2018 descobriu que os fãs desse tipo de filme gostam do caráter assustador da história porque isso os ajuda a ter um senso de controle sobre seus medos devido à segurança que sentem no conforto de suas casas ou em salas de cinema escuras.

Já na década de 1950, Martin Grotjahn, professor da Escola de Medicina da Universidade do Sul da Califórnia e psicanalista freudiano, defendia que filmes de terror são uma “terapia psiquiátrica autoadministrada para os adolescentes dos Estados Unidos.” E na década de 1990, um estudo de caso avaliou de que maneira um menino de 13 anos que enfrentava problemas utilizou os filmes de terror como terapia. “Os filmes de terror de hoje funcionam para os adolescentes de forma similar aos contos de fadas tradicionais para crianças menores”, relataram os pesquisadores na época.

Mais recentemente, um estudo de 2020 concluiu que filmes de terror são o estímulo ideal para nos induzir a sentir medo. O estudo demonstrou que partes do cérebro processam o filme de terror como se a ameaça fosse real, o que prepara o corpo para reagir da mesma forma que reagiria em uma situação real: a frequência cardíaca aumenta, as pupilas dilatam e a pressão arterial sobe.

Frequentemente, temos uma sensação de prazer depois de assistir a um filme de terror com base na sensação de alívio que vem a seguir, afirma John Edward Campbell, professor de estudos de comunicação social da Universidade Temple. Zlatin Ivanov, psiquiatra com dupla especialização, está de acordo. Depois de assistir a um filme de terror, a capacidade do cérebro de se acalmar pode ser agradável do ponto de vista neuroquímico, Ivanov explica, “porque a liberação de dopamina relacionada à resposta cerebral de ‘descanso e digestão’ causa uma maior sensação de bem-estar”.

Outra possível explicação para os efeitos positivos dos filmes de terror é a teoria da transferência de excitação, popularizada por Dolf Zillmann, reitor emérito e professor de ciências da informação, comunicação e psicologia na Universidade do Alabama. Basicamente, essa teoria defende que o medo que sentimos quando somos expostos a algo muito assustador, como assistir a um filme de terror, intensifica as emoções positivas que sentiremos no futuro.

Terapia do grito?

Até o momento, os filmes de terror ainda não foram comprovados cientificamente como tratamento para traumas ou fobias. Mas muitos pesquisadores enxergam seu potencial.

A psiquiatra Leela R. Magavi, diretora médica regional da Community Psychiatry, com sede na Califórnia, é fã de filmes de terror e relata ter experimentado seus efeitos catárticos. “Filmes de terror podem ser utilizados para dessensibilizar indivíduos com fobias e diversos traumas diferentes”, ela acrescenta.

Clasen, da Universidade de Aarhus, está agora elaborando um estudo com seu colega, Coltan Scrivner, que examinará o potencial clínico do terror e a possibilidade de pessoas com traumas psicológicos graves encontrarem usos construtivos nesse tipo de filme. Existe até um podcast chamado “Psicanálise: podcast que utiliza o terror como terapia”, cujo um dos apresentadores é um terapeuta licenciado que explora a ligação entre filmes de terror e ansiedade.

Margee Kerr, socióloga e autora de Scream: Chilling Adventures in the Science of Fear, (Grite: aventuras de arrepiar na ciência do medo, em tradução livre), realizou uma pesquisa preliminar sobre experiências negativas voluntárias e estimulantes (VANE, na sigla em inglês) — ou seja, situações como assistir a um filme de terror ou correr por uma casa mal-assombrada por prazer. Em um estudo de 2019, Kerr e seus colegas descobriram que a euforia que as pessoas sentem depois de realizarem essas atividades “poderia ajudá-las a lidar com fatores de estresse subsequentes”, reduzindo as respostas neuroquímicas do cérebro a estímulos indutores do medo. “À medida que esse fenômeno é replicado em situações clínicas, pode se tornar uma intervenção clínica”, ela reitera.

Atualmente, Kerr está trabalhando em uma proposta de bolsa de pesquisa que a permitiria investigar como a exposição a experiências negativas voluntárias e estimulantes poderia modificar as respostas ao estresse. A ideia, ela complementa, “é que a exposição a estímulos ‘divertidos e assustadores’, que incluem elementos gratificantes, poderia aumentar a tolerância a fatores mais estressantes”.

Quanto a mim, assim que a pandemia começou, descobri-me procurando por mais filmes de terror. Encontrei uma loja na minha cidade que vende DVDs usados e estou revendo os filmes de terror que tanto amava no ensino fundamental. Nos fins de semana, eu os assisto como forma de relaxar. Mais uma vez, encontro conforto na escuridão da minha sala de estar e grito para afastar o medo.

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