A procrastinação aumentou? A culpa é da pandemia

Nós sabemos que não é bom adiar tarefas. Mas uma batalha evolucionária que acontece em nossos cérebros pode nos levar a procrastinar — e os isolamentos forçados estão piorando o problema.

Publicado 1 de abr de 2021 07:30 BRT
Avoiding bedtime

A pandemia em curso incitou um aumento da “procrastinação de vingança da hora de dormir”, fenômeno em que as pessoas ficam acordadas até tarde, apesar de estarem cientes das consequências de querer suprir um dia de trabalho longo e estressante.

Foto de Kirill Kudryavtsev, AFP via Getty Images

Ficar acordado até tarde após um longo dia de trabalho só para encaixar atividades de lazer que trarão cansaço e ineficiência no dia seguinte. Lavar o banheiro em vez de responder a e-mails de trabalho. É bem provável que muitas pessoas tenham esse tipo de comportamento. A pandemia de covid-19 gerou uma crise global de saúde mental, e isso está alimentando umas das mais prejudiciais tendências humanas: a procrastinação.

As pessoas não necessariamente procrastinam porque são preguiçosas. A procrastinação tem raízes no nosso desenvolvimento evolutivo, onde duas partes essenciais do cérebro estão competindo pelo controle.

“Procrastinação é uma estratégia de sobrevivência focada nas emoções”, explica  Tim Pychyl, professor de Psicologia na Universidade Carleton em Ottawa, Ontário, e autor do livro Solving the Procrastination Puzzle (Solucionando o enigma da procrastinação, em tradução livre). “Não é um problema relacionado à gestão do tempo; é relacionado à gestão das emoções.”

E mesmo com a chegada das vacinas trazendo esperança enquanto a pandemia devastadora se arrasta, um ano após a Organização Mundial da Saúde declará-la uma pandemia global, é provável que os isolamentos continuem durante meses até atingirmos imunidade de rebanho. Isso faz com que muitas pessoas lutem contra o medo e a frustração, e muitas vezes isso permite que a procrastinação vença a batalha em nossos cérebros.

“A procrastinação pode vir de uma combinação de questões de saúde mental e física”, explica Nitin Desai, médico da cidade de Fayetteville, na Carolina do Norte. “A pandemia em curso tem causado estresse, ansiedade e depressão, fazendo com que mais indivíduos sofram com essas condições subjacentes e, consequentemente, procrastinem mais.”

Aqui está uma análise detalhada da ciência por trás da procrastinação e como a pandemia causou um aumento nos diferentes tipos de comportamento, e algumas estratégias que podem ser utilizadas para fazer nosso cérebro voltar ao normal.

Batalhas cerebrais

Especialistas que estudam a procrastinação a definem como um atraso voluntário de uma ação pretendida, apesar do fato de que, no longo prazo, o adiamento da tarefa pode piorar a situação.    Nós sabemos que as tarefas não vão sumir, mas às vezes deixamos nossas emoções assumirem o controle. Nosso “eu do presente” é quem dá as ordens, e nosso “eu do futuro” sofre por conta disso.

Neurocientistas descobriram que a procrastinação é uma batalha entre uma parte antiga do cérebro chamada sistema límbico e uma parte relativamente mais nova, chamada córtex pré-frontal.

O sistema límbico também é conhecido como cérebro paleomamífero, porque seus componentes exercem papéis nas nossas adaptações de sobrevivência mais fundamentais, controlando comportamentos básicos como a resposta “lutar ou fugir”, assim como as emoções e a busca por prazer.  O sistema límbico na maioria das vezes está ligado ao comportamento impulsivo e ao desejo de gratificação instantânea.

O córtex pré-frontal passou por uma evolução mais recente: cientistas estimam entre 19 e 15 milhões de anos atrás. Ele é o sistema responsável por comportamentos mais complexos, como planejar o futuro — algo que provavelmente foi benéfico para nossos ancestrais em termos de organizar caçadas para capturar presas maiores e construir civilizações.

No entanto, quando fortes emoções como ansiedade e estresse se tornam esmagadoras, o sistema límbico impulsivo ainda pode se sobressair. E são nesses momentos que adiamos tarefas mais árduas em prol do alívio temporário que sentimos ao maratonar uma nova série da Netflix ou testar a última receita famosa do TikTok.

Antes da pandemia, procrastinadores crônicos encaravam muitos efeitos maléficos, desde notas baixas na escola até riscos de problemas de saúde devido à falta de acompanhamento médico e de exercícios físicos. E enquanto alguns especialistas argumentam que a procrastinação pode ser benéfica para a criatividade, Pychyl adverte para não confundir adiamentos deliberados e planejados com o fracasso autorregulatório da procrastinação.

“Todos querem transformar vícios em virtudes”, afirma Pychyl.

Vingança da hora de dormir

No início da pandemia, nós lutamos contra o que os especialistas denominaram fadiga da quarentena, a exaustão causada pelos ajustes necessários devido às restrições causadas pelo vírus. E conforme a pandemia se prolongou, mais pessoas se viram vulneráveis ao estresse e à incerteza que levam à procrastinação.

“A necessidade de praticar o distanciamento social e ficar em casa atrapalhou nossa habilidade de fazer coisas que facilitam nossa concentração em uma tarefa”, como manter um cronograma regular e separar espaços diferentes para objetivos específicos, explica Julianna Miner, professora adjunta de saúde global e comunitária na Universidade George Mason, na Virgínia, e autora do livro Raising a Screen-Smart Kid: Embrace the Good and Avoid the Bad in the Digital Age (Criando filhos inteligentes que fazem uso da tecnologia: filtre o que é bom e evite o que é ruim durante a Era Digital, em tradução livre).

Se as pessoas realmente estão procrastinando mais, Miner culpa o crescimento do trabalho remoto e da educação à distância, que criam desafios para diferenciar local de trabalho e de descanso, assim como a falta de habilidade em separar o tempo de trabalho e lazer de maneira adequada. “A falta de estrutura é muito prejudicial para as pessoas que lutam contra a procrastinação”, ela relata.

Robin Hornstein, psicólogo licenciado e coach de saúde que atua na Filadélfia, concorda. “As pessoas que estão trabalhando em casa não têm uma rotina clara de qual é o momento de trabalho e isso impede que o dia flua”, ele diz. “Estamos vivendo um estresse prolongado e acabamos criando hábitos em prol de segurança e tranquilidade. Isso pode levar à procrastinação.”

De forma mais específica, a pandemia parece ter causado um aumento na chamada “procrastinação da hora de dormir”, um termo cunhado em um estudo de 2014 feito por pesquisadores da área da saúde da Universidade de Utrecht, na Holanda. Nesse tipo de procrastinação as pessoas adiam a hora de ir dormir para se dedicarem a momentos de lazer. Em 2020, usuários de mídias sociais chineses passaram a chamá-la de “procrastinação de vingança da hora de dormir”, referindo-se às pessoas que se vingavam do dia de trabalho ficando acordadas até tarde para se divertirem — e o termo altamente relatável viralizou no Twitter.

Um estudo de 2019 da revista científica Frontiers in Neuroscience sugeriu que as mulheres são mais propensas à procrastinação da hora de dormir — um problema que pode ter piorado por conta das demandas adicionais do tempo das mulheres especificamente durante o período de pandemia. A dedicação crônica a esse comportamento pode gerar sérias consequências, quando a falta de sono gera problemas físicos e mentais.

“Procrastinação produtiva” é outro termo que ficou famoso durante a pandemia. Acontece quando as pessoas deixam de fazer uma tarefa para concluir outra, como deixar de lado um grande projeto de trabalho para fazer faxina no banheiro. Embora não pareça tão prejudicial, já que você está completando uma tarefa e alcançando um certo nível de produtividade, isso não é tão bom quanto parece. O relatório do trabalho ainda precisa ser feito, e adiar essa tarefa só vai aumentar o nível de estresse.

Pychyl, da Universidade Carleton, acredita que “procrastinação produtiva” não é apenas um paradoxo, mas também outro exemplo de como os humanos tentam transformar vícios em virtudes.

Próximos pequenos passos

Embora a procrastinação possa ser uma tendência difícil de ser combatida, especialistas dizem que há três coisas que podemos fazer para evitar essa armadilha mental.

Pesquisas mostram que a atenção plena e autocompaixão podem ajudar a evitar a procrastinação, talvez porque essas práticas estão relacionadas à superação de emoções negativas. Em um estudo de 2018 do periódico Mindfulness, cientistas descobriram que pessoas que conseguem reconhecer seus erros ou outras falhas pessoais e se perdoam tem menos probabilidade de procrastinar. De mesma forma, um estudo de 2020 da revista científica International Journal of Applied Positive Psychology descobriu que as pessoas que praticavam alguns minutos de atenção plena tinham mais probabilidade de manterem o foco em uma tarefa.

De um ponto de vista mais prático, Pychyl encoraja as pessoas a não se sobrecarregarem com um projeto inteiro, mas em vez disso, pensarem nos próximos passos, estipulando pequenas metas.  Quando você foca em dar pequenos passos está enganando seu cérebro ao focar em uma ação, e não na emoção associada a ela.

Miner, da Universidade George Mason, aconselha às pessoas que estão lutando contra a procrastinação que descubram o que as ajudou a manter a produtividade no passado. Para ela, “a criação de uma camada de responsabilização ajuda”. É por isso que muitas faculdades organizaram grupos de apoio referente à procrastinação para alunos.  

“Para pessoas que não conseguem completar tarefas sem ajuda, existem sites como o Focus Mate, onde você escolhe um parceiro para prestar contas de suas atividades”, explica Hornstein, psicólogo da Filadélfia. “Escolha um colega de trabalho para ser seu parceiro de prestação de contas e comemorem o sucesso um do outro, e também peça ajuda para resolver tarefas que ficaram para trás.”

Hornstein também encoraja as pessoas para que se responsabilizem por organizar e priorizar listas de tarefas — e estabeleçam um sistema de recompensas para as tarefas realizadas. Pesquisas passadas mostraram que a expectativa de pequenas recompensas, como fazer uma caminhada ou comer algo gostoso, têm o poder de motivar as pessoas a focarem na tarefa.

No entanto, diversos especialistas alertam que se você está realmente tendo dificuldades em não procrastinar, isso pode ser um sinal de problemas de saúde mental mais graves: “procrastinação pode ser um sintoma ou um comportamento mal-adaptativo de uma condição médica subjacente como ansiedade, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ou depressão”, explica Desai, médico de Fayetteville. “O primeiro passo é fazer uma boa avaliação médica com testes psicológicos.”

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