A Ômicron é realmente menos severa? O que diz a ciência

A variante é certamente mais transmissível. Então, como você pode se proteger? E quais são as implicações para vacinas, máscaras, higiene e distanciamento social?

Por Emily Sohn
Publicado 12 de jan. de 2022 11:48 BRT
Foto de uma mulher sobre um fundo escuro com um grande cotonete enfiado no nariz para ...

Uma mulher colhe amostra para teste rápido de covid-19 em 6 de janeiro de 2021, em Edmonton, no Canadá.

 

Foto de Artur Widak

Se você pegar covid-19 nos Brasil agora, as chances são altas de que seja a variante Ômicron, que já é prevalente no país. Com dezenas de mutações, a Ômicron tem diferenças significativas em relação às outras variantes. Isso significa que, após dois anos aprendendo a gerenciar os riscos em uma pandemia, talvez tenhamos que mudar pelo menos alguns dos nossos comportamentos.

Entre as diferenças, a Ômicron é mais transmissível e mais eficiente em evadir anticorpos. “Para mim, a maior mudança, a coisa mais chocante, é o quão incrivelmente contagiosa ese vírus é. Nunca vi nada tão infeccioso na minha vida”, diz Carlos del Rio, epidemiologista e especialista em doenças infecciosas da Universidade Emory, em Atlanta, nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a Ômicron apresenta sintomas diferentes e parece causar doenças menos graves.

Ainda assim, diferentes cepas de Sars-CoV-2 compartilham semelhanças importantes, e muitos dos conselhos básicos de saúde pública – vacinar-se, usar máscara – continuam iguais.

Aqui está o que as pesquisas mais recentes dizem sobre como se manter seguro na era da Ômicron.

A Ômicron está realmente causando doenças menos graves do que outras variantes?

Evidências em estudos de várias partes do mundo sugerem que a variante Ômicron causa uma forma menos grave de covid-19. Na África do Sul, onde a Ômicron foi detectada pela primeira vez em novembro de 2021, um gerente de planos de saúde privados informou, em meados de dezembro, que adultos com Ômicron tinham 29% menos probabilidade de serem hospitalizados, em comparação com adultos infectados nos meses anteriores. No Reino Unido, a taxa de internação hospitalar entre pessoas que foram ao pronto-socorro com Ômicron é um terço do que foi para a Delta, de acordo com um relatório de pesquisa divulgado pela Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido em 31 de dezembro de 2021.

No início de janeiro, nos EUA, adultos infectados com a Ômicron tinham menos da metade da probabilidade de chegar à sala de emergência, ser hospitalizado ou colocado em um respirador, de acordo com um estudo preliminar de pesquisadores da Universidade Case Western Reserve. A pesquisa, que ainda não foi revisada por pares, examina dados de mais de 14 mil pacientes e leva em conta status de vacinação e quaisquer condições pré-existentes.

Uma mudança nos sintomas reflete essas tendências, diz del Rio. No hospital, é menos comum ter pacientes com sintomas de pneumonia ou sistemas imunológicos hiperativos, como visto em ondas anteriores. Em vez disso, eles estão mais frequentemente apresentando congestão nasal e garganta arranhando. “Na Ômicron, os sintomas são mais como um resfriado”, diz ele.

A Ômicron também é mais grave em idosos e pessoas com comorbidades?

A Ômicron parece ser menos grave do que a Delta em todas as faixas etárias, mesmo em adultos com mais de 65 anos e em crianças muito jovens para serem vacinadas, de acordo com o estudo da Case Western. Ainda assim, como acontece com outros problemas de saúde, a idade continua sendo um fator, diz del Rio. “Para qualquer doença, se você for mais velho, vai ficar muito pior”, diz ele.

Pessoas com comorbidades ou sistemas imunológicos comprometidos também continuam mais vulneráveis, assim como pessoas não vacinadas. Embora as vacinas atuais sejam menos eficazes na prevenção de sintomas da Ômicron do que da Delta, o relatório do Reino Unido descobriu que as pessoas que receberam reforço total tinham até 88% menos probabilidade de serem hospitalizadas com a Ômicron em comparação com pessoas não vacinadas. Hospitais de todo o país relatam que pacientes não vacinados são maioria em unidades de terapia intensiva.

Independentemente da idade ou do estado de saúde, pessoas infectadas com a Ômicron podem se sentir mal mesmo que não precisem ir ao hospital, e a variante continua hospitalizando e matando muitas pessoas, enfatizou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, em entrevista coletiva virtual na semana passada.

Por que a Ômicron é perigosa se é menos grave que a Delta?

A Ômicron é entre duas e quatro vezes mais contagiosa que a Delta, de acordo com um estudo dinamarquês que ainda não foi revisado por pares. Ela também é melhor em evadir os anticorpos desenvolvidos a partir das vacinas, e é por isso que está causando tantas infecções em vacinados. Como resultado, mais pessoas estão ficando doentes e aparecendo em hospitais, ao mesmo tempo em que mais profissionais de saúde estão sendo afastados por doença, diz Del Rio.

A Ômicron tem 36 mutações dentro de sua proteína spike, a parte essencial para ancorar o vírus nas células humanas e infectá-las. Embora nenhum tenha sido revisado por pares, pelo menos meia dúzia de estudos usando pequenos animais – como camundongos e hamsters – e culturas de células de laboratório começaram a revelar como essas mutações alteram a maneira como a Ômicron entra nas células e se replica, diz John Moore, pesquisador de vacinas e virologista do hospital Weill Cornell Medicine, em Nova York.

Ao contrário das variantes anteriores, a Ômicron parece incapaz de infectar as células pulmonares com a mesma eficiência, o que, por sua vez, a torna menos prejudicial e os sintomas menos graves. As cargas virais são significativamente mais baixas nos pulmões de roedores infectados com Ômicron em alguns estudos. Mas, no trato respiratório superior, que inclui o nariz e os seios da face, a Ômicron parece se replicar mais de 100 vezes mais rápido que a Delta.

Essa combinação de mudanças – a preferência pela via aérea superior, evasão imunológica mais alta e grande transmissibilidade – reflete como a evolução impulsiona o vírus para garantir seu próprio futuro, replicando e se espalhando mesmo que isso não deixe os indivíduos mais doentes.

“Não importa para o vírus, uma vez replicado, se a pessoa vive ou morre, desde que ele possa chegar ao próximo hospedeiro”, diz Moore. “É tudo sobre a replicação do genoma.”

O que essas mudanças significam para testes rápidos?

Todas as cepas do vírus Sars-CoV-2 podem infectar células na boca, e a Ômicron pode ser particularmente abundante lá em comparação com outras variantes, sugerem evidências iniciais. Em um estudo que ainda não foi revisado por pares, pesquisadores da África do Sul testaram 382 pessoas que não estavam doentes o suficiente para serem hospitalizadas, mas ainda apresentavam sintomas de covid-19. Eles descobriram que, nos infectados com Delta, as amostras nasais eram mais precisas, mas, para a Ômicron, os testes de saliva funcionaram melhor.

Outros estudos também sugerem que testes rápidos de antígenos que dependem de amostras nasais podem ser especialmente lentos para identificar infecções por Ômicron. Em um estudo publicado na semana passada – ainda não foi revisado por pares –, pesquisadores analisaram amostras de 30 pessoas infectadas com covid-19 nos Estados Unidos no início de dezembro. Para a maioria dos casos de Ômicron, os testes de PCR mostraram resultados positivos dias antes de um teste rápido. 

O uso de duas máscaras ajuda a proteger contra a Ômicron?

O CDC, agência de saúde norte-americana, ainda não recomenda o mascaramento duplo ou o uso de máscaras específicas. Mas outros países, incluindo Áustria, França e Alemanha, atualizaram suas diretrizes para recomendar variedades de grau médico, como máscaras cirúrgicas ou N95. Alguns especialistas dos EUA se manifestaram a favor de máscaras de maior qualidade.

Um estudo descobriu que, se encaixadas corretamente, as N95 bloqueiam uma média de 90% das partículas exaladas, enquanto as máscaras cirúrgicas bloqueiam 74%. Isso pode fazer uma diferença substancial na transmissão.

Em Bangladesh, uma ação do governo aumentou a porcentagem de pessoas usando máscaras cirúrgicas em algumas aldeias de 13% para 42%. Os pesquisadores então encontraram uma queda de 11% nos sintomas do covid-19, com ganhos maiores nos grupos mais velhos. As evidências sobre a eficácia das máscaras de pano são inconclusivas, mas usar uma máscara de pano sobre uma máscara cirúrgica pode bloquear mais de 85% das partículas de tosse, de acordo com algumas pesquisas.

Especialistas recomendam escolher sua máscara com base na situação em que você se encontra. Quando está trabalhando em um escritório sozinho, Moore usa uma máscara de pano decorada com o logotipo de seu time de futebol favorito, o Liverpool. Del Rio diz que usa uma N95 sempre que está com pacientes. Mas o mascaramento por si só não o protegerá da Ômicron, acrescenta ele. “Não se trata de uma bala de prata, trata-se de um efeito de combinação”, diz del Rio. “Se você for vacinado com três doses e estiver usando uma máscara bem ajustada, poderá passar muito tempo com alguém.”

Ainda precisamos desinfetar superfícies, manter distanciamento social ou alterar hábitos de higiene pessoal?

Como as variantes anteriores, a Ômicron é principalmente transportado pela ar, e os especialistas concordam que limpar as superfícies provavelmente seja enxugar gelo. “A transmissão em superfícies é baixa”, diz Wyllie. Dado "o tempo, energia, dinheiro, recursos e saúde mental colocados nesse tipo de preocupação – é melhor gastar isso na lavagem das mãos, distanciamento social e uso de máscaras".

Além disso, a regra de um metro e meio é mais um lembrete de que estar perto de uma pessoa infectada aumenta o risco de transmissão, diz Abraar Karan, médico de doenças infecciosas da Universidade de Stanford em Palo Alto, Califórnia.

“A transmissão pode acontecer além de 1,8 m de distância, com certeza”, diz ele. “No entanto, a distância torna a transmissão menos provável, pois os aerossóis se diluem com a distância”. O risco também depende da ventilação, dos tipos de máscaras que as pessoas ao redor estão usando e de outros fatores.

A covid longa ainda é um risco quando se trata da Ômicron?

É muito cedo para saber, e provavelmente levará meses até que pesquisadores possam dizer se a Ômicron causa sintomas que permanecem a longo prazo. Mas alguns especialistas esperam que consequências duradouras sejam menos comuns devido à tendência da Ômicron de ficar longe dos pulmões e porque mais pessoas estão sendo vacinadas, o que pode ajudar a prevenir infecções e reduzir o risco de desenvolver vários sintomas. “Suspeito que ainda veremos casos”, diz Wyllie. “Mas, como temos muito mais pessoas vacinadas agora, espero que vejamos menos covid-19 longa.”

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