O que diz a ciência sobre o uso de máscaras por crianças

À medida que estados abandonam o uso obrigatório de máscaras nos Estados Unidos e no Brasil, especialistas explicam por quê mantê-las nas escolas ainda é importante.

Publicado 3 de mar. de 2022 10:40 BRT
Mask Mandate

Alunos do sexto ano têm suas temperaturas verificadas à porta da escola em Nova York, em 1º de outubro de 2020. Espera-se que Nova York considere derrubar o uso obrigatório de máscaras nas escolas em março, somando-se à onda de estados que já fizeram o mesmo nas últimas semanas.

Foto de Todd Heisler, The New York Times via Redux

O uso obrigatório da máscara nas escolas virou uma espécie de pára-raios político nos Estados Unidos durante a pandemia de covid-19. Nas últimas semanas, as peças do dominó começaram a cair – um estado após o outro anuncia planos para suspender as diretrizes.

No Brasil, o governador do Rio Grande do Sul assinou decreto desobrigando o uso de máscaras por crianças menores de 12 anos. Em Santa Catarina, um outro decreto publicado na última quarta-feira (03/03) desobrigou o uso de máscaras para crianças entre 6 a 12 anos nas escolas do estado. Em São Paulo, o secretário estadual de saúde afirmou em coletiva de imprensa que uma decisão semelhante pode ser tomada nas próximas duas semanas. 

Quais são as preocupações dos pais?

Alguns pais e professores têm manifestado preocupações pela possibilidade das máscaras limitarem a capacidade das crianças de respirar, além de retardar o desenvolvimento social e emocional, causando-lhes ansiedade. Mas especialistas afirmam que essas teorias não são amparadas pela ciência.

É compreensível que exista certa confusão, diz Thomas Murray, pediatra da Escola de Medicina da Universidade de Yale, em Connecticut, nos EUA. Não há dúvida que a máscara reduz a propagação do vírus, mas as evidências são menos claras sobre como a máscara afeta o desenvolvimento e as emoções das crianças maiores de dois anos.

As máscaras afetam a saúde emocional das crianças?

Para obter uma resposta seria necessário que os pesquisadores pedissem às pessoas que tirassem as máscaras para um estudo randomizado, o padrão-ouro da ciência, mas isso seria antiético.

Portanto, a maioria das pesquisas sobre a máscara é baseada em observações retrospectivas da vida real que podem ser facilmente manipuladas para defender um ou outro argumento.

“Ainda assim, temos este experimento humano que vem acontecendo com crianças usando máscaras na escola, e sabemos que não vimos esses medos de riscos à saúde acontecerem”, sustenta Theresa Guilbert, pneumologista pediátrica, membro da Seção de Medicina Pulmonar e do Sonho da Academia Americana de Pediatras.

Ela e outros especialistas dizem que a maioria das evidências sugere que a máscara não prejudica as crianças e que, de fato, ela as beneficia de diferentes maneiras.

As máscaras não apenas protegem as crianças da covid-19 e outras doenças respiratórias. Há estudos que mostram que as escolas com obrigatoriedade do uso de máscaras são mais propensas a permanecer abertas, algo que é particularmente essencial para o desenvolvimento da saúde mental das crianças.

Isto é o que a ciência diz sobre máscaras e crianças.

Como as máscaras afetam a respiração

Uma das primeiras preocupações que os pais tinham sobre crianças usando máscaras o dia todo era como isso poderia afetar a respiração delas: se as máscaras lhes permitiriam obter oxigênio suficiente ou se acumulariam muito dióxido de carbono.

Guilbert diz que essa preocupação faz sentido, pois as crianças respiram mais rapidamente do que os adultos.

Mas não há evidência de que a máscara prejudique significativamente a respiração. Aliás, um estudo mostrando níveis inaceitáveis de dióxido de carbono em crianças de seis a 16 anos que usavam máscaras foi amplamente desacreditado no verão passado e finalmente retirado da revista JAMA Pediatrics devido a preocupações com a exatidão das medidas e a validade das conclusões.

Em vez disso, Guilbert aponta para uma metanálise de dez estudos, que mostra como a flutuação dos níveis de dióxido de carbono e oxigênio entre adultos e crianças usando máscaras estava “bem dentro do alcance normal”.

A vida real como experimento

Embora crianças com asma grave possam precisar fazer pausas no uso da máscara, esses estudos mostram que a maioria das crianças pode tolerá-la.

Guilbert ressalta que isso faz sentido com base no que sabemos sobre o tamanho das moléculas de dióxido de carbono e oxigênio, que são muito menores do que os buracos do tecido das máscaras cirúrgicas e as de pano e não devem ter problemas para fluir para dentro e ao redor das máscaras.

Ele acrescenta que, após dois anos de pandemia, os hospitais simplesmente não estão vendo um fluxo de crianças com oxigênio perigosamente baixo ou altos níveis de dióxido de carbono devido à máscara.

“Há muitas hipóteses lá fora, mas temos essa experiência da vida real acontecendo.”

Como as máscaras afetam o desenvolvimento da linguagem

Uma outra preocupação é se as máscaras podem impedir o desenvolvimento da linguagem das crianças.

Samantha Mitsven, doutoranda em psicologia na Universidade de Miami, nos EUA, diz que ela e outros pesquisadores se preocuparam com a possibilidade das crianças não conseguirem entender a aprender novas palavras, devido à impossibilidade de ver a boca de um orador se mover e ao efeito abafado da máscara.

Há estudos que mostram que as máscaras abafam o som, mas quão significativamente varia dependendo do tipo de máscara. Um estudo mostrou que as crianças podem reconhecer mais facilmente palavras faladas através de máscaras opacas do que através de máscaras transparentes.

Outro estudo sugere que as máscaras cirúrgicas oferecem o melhor desempenho acústico, seguidas pelas máscaras KN95 e N95 e depois as máscaras de pano. As máscaras transparentes novamente ocuparam o último lugar.

Ainda assim, os especialistas asseguram que não há evidências claras de que isso prejudique significativamente a capacidade de comunicação de uma criança, talvez porque as pessoas consigam compensar isso falando mais devagar e mais alto e gesticulando com as mãos para se expressar melhor.

O uso de máscaras prejudica o ensino?

Mitsven liderou um estudo recente analisando gravações de áudio de crianças pré-escolares em uma sala de aula observada em visitas antes da pandemia e em outra observada quando as crianças e professores eram obrigados a usar máscaras.

O estudo não encontrou diferença a respeito do quanto falavam as crianças ou na diversidade da linguagem que usavam. Inclusive levando em conta crianças com aparelhos auditivos ou implantes cocleares, uma população que constituía até metade de cada turma.

“As vocalizações foram as esperadas nas crianças dessa idade”, conclui Mitsven.

Como as máscaras afetam o desenvolvimento social

Da mesma forma, os estudos mostram que as crianças têm mais dificuldade em ler as emoções das pessoas que usam máscaras, mas isso não necessariamente as impede de aprender a interagir com os outros.

Desde os primeiros meses de vida, as crianças observam os rostos das pessoas ao seu redor. Isso as ajuda primeiro a distinguir entre emoções positivas e negativas e, finalmente, aprender a ajustar o próprio comportamento.

Cobrir a metade inferior do rosto com uma máscara afeta essa habilidade: um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology mostrou que crianças entre três e cinco anos são menos propensas a reconhecer emoções em fotografias de pessoas usando máscaras em comparação com fotografias de pessoas sem máscaras.

Porém, Walter Gilliam, professor de psiquiatria infantil e psicologia do Centro de Estudo de Crianças de Yale, sustenta que este estudo e outros semelhantes são limitados pela dependência que têm com fotografias estáticas.

“Eu sou mais do que só os meus olhos”, disse. “As crianças também interpretam como as pessoas se movimentam, os tons de voz e os gestos que fazem com as mãos. Tudo isso está ausente nesses estudos.”

Gilliam aponta para um outro estudo, que mostra que as crianças não têm mais dificuldade em ler as emoções de uma pessoa usando uma máscara facial do que as de uma pessoa com óculos escuros.

A máscara na escola

Esses estudos são apenas um instante no tempo. Eles não podem nos dizer a rapidez com que as crianças seriam capazes de se adaptar a esses desafios se tivessem a oportunidade.

“Tudo o que sei sobre desenvolvimento infantil me sugere que elas se ajustariam rapidamente”, reflete Gilliam. “Eu gostaria que tivéssemos mais fé na capacidade das crianças.”

Guilbert concorda que não há sinais de que a máscara impeça que crianças e adolescentes se desenvolvam socialmente e, segundo ela, a máscara pode ser fundamental para garantir que elas possam ir à escola.

Ao longo desses dois anos, tem aumentado as evidências de que as políticas de uso obrigatório de máscaras ajudam as escolas a permanecer abertas, reduzindo o número de surtos.

Como as máscaras afetam a saúde mental

Da mesma forma, enquanto alguns argumentam que a obrigatoriedade do uso da máscara nas escolas é prejudicial para a saúde mental de uma criança, especialistas dizem que as evidências sugerem o contrário.

Guilbert assegura que o sinal mais significativo de dano para a saúde veio logo no início da pandemia. Naquela época, as crianças que estavam fazendo o aprendizado remoto experimentaram níveis crescentes de ansiedade e depressão, porque não estavam na escola com os coleguinhas.

Gilliam e Murray, os pesquisadores de Yale, também buscaram entender como o fechamento de escolas afetava a saúde mental das crianças e dos seus estressados pais.

Com isso em mente, eles decidiram, no início da pandemia, investigar as estratégias mais eficazes para manter as escolas e creches abertas.

Em maio de 2020, pesquisadores entrevistaram 6.654 profissionais da saúde nos 50 estados americanos para descobrir quais táticas de mitigação da covid-19 estavam usando, incluindo distanciamento social, rastreamento de sintomas e uso de máscaras.

Um ano depois, eles voltaram para ver se esses programas tinham sido forçados a fechar. Os resultados demonstraram que as creches que exigiam o uso obrigatório de máscaras nas crianças com mais de dois anos tinham 13% mais chances de permanecer abertas do que as creches onde as crianças não estavam obrigadas a usá-las.

As máscaras seriam as verdadeiras causadoras do estresse nas escolas?

Como em muitos dos outros estudos sobre máscaras nas escolas, Gilliam e Murray admitem que o estudo deles também tem limitações: é baseado em observações do mundo real e não consegue controlar outros fatores, como, por exemplo, se os adultos e as crianças que usavam máscaras também evitaram viajar durante o mesmo período.

Mesmo assim, ele fornece evidências mais convincentes de que as políticas de uso de máscaras têm mais potencial para ajudar em vez de prejudicar a saúde mental de uma criança.

“Não podemos usar máscaras para sempre, mas também não podemos ter crianças faltando dez dias de aula de vez em quando por causa da quarentena”, reconhece Murray.

Gilliam afirma que o fato de culpar as máscaras pela depressão e a ansiedade das crianças decorre de um desejo natural de protegê-las. Mas ele suspeita que não é a máscara que causa estresse nas salas de aula.

“É o trauma da covid que as máscaras foram destinadas a prevenir”, diz ele. “Quando você corta braço, o problema está na ferida e não no que você colocou para cobri-la. O objetivo da máscara é reduzir todos os outros traumas, que sabemos com certeza que, sim, prejudicam as crianças.”

Como saberemos quando abandonar a obrigatoriedade da máscara?

Então, como a ciência pode ajudar a orientar as escolas na tomada dessas decisões? Por um lado, especialistas alertam que é importante que os formuladores de políticas tenham em mente que sempre há exceções em um estudo.

Portanto, mesmo que as evidências sugiram que a máscara não prejudica a maioria das crianças, a obrigatoriedade de máscara pode exigir isenções para crianças surdas, que precisam ler lábios, ou para crianças com autismo, que lutam para interpretar expressões faciais.

Murray recomenda que a mitigação de riscos seja feita em camadas e que as escolas têm uma série de táticas que podem usar contra a covid-19. Para evitar que o vírus entre nas escolas, em primeiro lugar, é preciso implementar testes robustos e estratégias de controle de sintomas.

Mas se a doença está lá e se espalha entre os alunos, o uso da máscara e a ventilação dos espaços se tornam as estratégias de mitigação mais importantes. Então, reflete Murray, se as escolas vão tirar a política de obrigatoriedade das máscaras, elas precisam pensar em intensificar a ventilação ou os testes.

É possível eliminar a obrigatoriedade das máscaras nas escolas e creches?

A transmissão comunitária também importa. Rochelle Walensky, diretora do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, pediu aos legisladores que não abandonem a obrigatoriedade da máscara nas escolas enquanto o número de contágios continuar alto.

Embora os números de casos estejam caindo, eles ainda permanecem mais altos do que eram antes do surto da ômicron.

Mesmo que o levantamento de mandatos de máscaras possa fazer sentido durante os tempos em que os casos são baixos, Murray adverte que as escolas precisam estar dispostas a voltar a usar máscaras se uma nova variante surgir ou se o número de casos voltar a subir.

Não há número mágico para determinar quando suspender a obrigatoriedade, diz o cientista. Vai depender de uma variedade de fatores que podem mitigar a transmissão – como se as escolas têm espaço suficiente para os alunos se distanciarem ou se a temperatura permite abrir as janelas das salas de aula.

Mas Murray argumenta que é importante estar disposto a considerar as evidências e a mudar de ideia quando mais evidências vierem à tona.

“A questão é a seguinte”, conclui, "concordo que em algum momento temos que tentar, mas devemos ter um plano bem pensado, porque tirar as crianças da creche e ter os pais no desespero à procura de alternativas seguras não é bom para ninguém.”

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