Cultura

Quem traiu a judia Anne Frank e sua família?

Após 75 anos de sua prisão, investigadores ainda vasculham arquivos e especulam como os nazistas descobriram a adolescente holandesa.terça-feira, 13 de agosto de 2019

Por Sydney Combs
Anne Frank é retratada antes de ela e sua família serem obrigadas a se esconder dos nazistas. Os Franks tentaram imigrar para os Estados Unidos duas vezes, mas a burocracia e as rigorosas normas de imigração dos EUA mantiveram a família em Amsterdã.

APÓS MAIS DE dois anos se escondendo no andar de cima do armazém de seu pai, a adolescente judia Anne Frank e outras sete pessoas foram descobertas por oficiais nazistas alemães e holandeses em 4 de agosto de 1944. A busca continua 75 anos depois para descobrir quem — ou o quê — pode ter exposto o esconderijo.

Hoje, historiadores, cientistas de dados e até mesmo uma equipe forense de casos arquivados estão usando novas tecnologias para identificar o informante — e algumas dessas tecnologias sugerem que, talvez, Anne Frank tenha sido descoberta por acaso.

O primeiro diário de Anne Frank foi um diário de estampa xadrez vermelha que ela escreveu entre 12 de junho e 5 de dezembro de 1942. Ele documenta os primeiros meses de sua família no esconderijo.

“O Diário de Anne Frank”, escrito por ela dos 13 aos 15 anos de idade e transformado em livro, é o texto mais lido originado pelo Holocausto, o genocídio de judeus pelos nazistas na Europa. Para a Holanda, sua história, que fala de cidadãos comuns que arriscaram suas vidas para ajudar os necessitados, tornou-se a narrativa mais proeminente sobre o envolvimento dos holandeses durante a ocupação na Segunda Guerra Mundial.

No entanto, a história de Anne Frank omite a relação, muitas vezes de conivência, que os holandeses tiveram com a Alemanha nazista. Até 80% da população judia holandesa foi morta durante a guerra, número que fica atrás somente da Polônia.

"A Holanda gosta da ideia de heroísmo", diz Emile Schrijver, diretor-geral do Museu Histórico Judaico e do Bairro Cultural Judaico em Amsterdã. “Foi necessária uma geração inteira para aceitar que o país foi um perpetrador e um espectador mais do que qualquer outra coisa."

A vista do anexo onde Anne Frank e outras sete pessoas — sua irmã e seus pais; a família van Pels; e Fritz Pfeffer — se esconderam revela como um forte barulho ou o descuido com uma luz podem ter revelado a presença do grupo a vizinhos atentos.

Ao longo dos anos, mais de 30 indivíduos foram considerados suspeitos de trair Anne Frank e seus amigos e familiares.

Entre os acusados, há um funcionário bastante curioso do armazém, que trabalhava no andar de baixo do esconderijo do grupo. Embora duas investigações tenham sido realizadas para verificar se ele era culpado, uma em 1947 e outra em 1963, Wilhelm Geradus van Maaren afirmava não ter sido o informante e, devido à ausência de provas, não foi acusado.

Edith Frank, mãe de Anne, morreu em 6 de janeiro de 1945, no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, três semanas antes da libertação do campo.

Outra suspeita, Lena Hartog-van Bladeren, ajudava a controlar pragas no depósito. Dizem que ela suspeitava que havia pessoas escondidas no armazém e que deu início a um perigoso boato, mas entrevistas posteriores com Lena não confirmaram se ela sabia, antes da deflagração, sobre as pessoas escondidas.

A lista de suspeitos continua, sem provas para confirmar ou refutar o envolvimento de ninguém. Gertjan Broek, pesquisador-chefe da Casa de Anne Frank em Amsterdã, acredita que a busca por um informante pode impedir que os pesquisadores descubram o que realmente aconteceu. “Ao perguntar ‘Quem traiu Anne Frank?’, já se assume uma visão reduzida, descartando outras opções”, diz ele.

É possível, Broek diz, que os Franks não tenham sido traídos — em vez disso, eles podem ter sido descobertos por acidente. É possível que as pessoas escondidas tenham sido descobertas durante uma inspeção para verificação de cupons de racionamento falsificados, conta ele após um projeto de pesquisa que durou dois anos.

Dos oito judeus detidos em 4 de agosto de 1944, o pai de Anne, Otto Frank, foi o único sobrevivente. Mais tarde, ele se mudou para a Suíça e morreu em 1980.

Quando considerados em conjunto, os poucos fatos verificados a partir daquele dia fundamentam a alegação. Primeiro, ao chegarem, as autoridades alemãs e holandesas não tinham um veículo que transportaria as pessoas após a deflagração do esconderijo — em vez disso, tiveram que improvisar. Segundo, um dos três oficiais conhecidos envolvidos na deflagração trabalhava na unidade de investigação de crimes econômicos. Finalmente, dois homens que forneciam cupons de racionamento falsificados aos Franks e às demais pessoas no esconderijo foram presos, mas um deles foi dispensado por razões desconhecidas. É possível que um dos homens tenha feito um acordo; especialmente considerando que um oficial que supervisionava o caso dos cupons também estava na deflagração do esconderijo de Anne Frank.

Embora seja possível que as oito pessoas escondidas tenham sido acidentalmente descobertas, Broek ainda não consegue provar. “Infelizmente, não há nenhuma prova conclusiva. Mas quanto mais pontos identificarmos no mapa, mais estreitaremos as possibilidades, e esse é o principal aspecto positivo”.

Outro grupo de mais de 20 pesquisadores forenses, criminologistas e pesquisadores de dados espera conseguir reduzir as possibilidades a um único culpado. A equipe, liderada pelo agente aposentado do FBI, Vincent Pankoke, está tratando a investigação como um caso arquivado moderno. Há anos eles vasculham arquivos e entrevistam fontes em todo o mundo, além de utilizarem tecnologias do século 21 para checar as pistas. A equipe criou uma varredura em 3D do esconderijo de Anne Frank para ver como os ruídos podem ter chegado a prédios vizinhos.

A equipe também utiliza inteligência artificial para encontrar conexões ocultas entre indivíduos, lugares e eventos relacionados ao caso. A empresa de ciência de dados Xomnia criou um programa personalizado que, em parte, analisa textos do arquivo para criar mapas de rede com nuances e camadas.

“O que se pode fazer é tentar analisar com que frequência, por exemplo, palavras ou nomes são usados juntos. Se determinados nomes são usados juntos com muita frequência, é possível criar um tipo de rede e fazer algum tipo de análise de rede”, afirma Robbert van Hintum, principal cientista de dados na Xomnia. Por exemplo, é possível fazer uma referência cruzada de endereços com relações familiares e relatórios policiais para observar quem poderia estar envolvido ou quem poderia estar ciente de diversos eventos no bairro de Anne Frank.

“Ao combinar todas essas dimensões, surge uma imagem que não era possível enxergar antes”, explica van Hintum.

A equipe do Cold Case Diary anunciará suas descobertas em um livro, que deve ser publicado no próximo ano.

Dos oito judeus escondidos, apenas o pai de Anne, Otto, sobreviveria à guerra. Pode ser tarde demais para levar um suposto traidor à justiça, mas, como o antissemitismo está em ascensão, essa pesquisa ainda é importante para muitos. “Ao entender melhor o que aconteceu lá, podemos aprender como as pessoas tratam umas às outras e como se preparam para o futuro”, diz Schrijver.

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