Cerimônias com ayahuasca levam xamanismo indígena à metropole

Na Grande São Paulo, centros que organizam rituais com o daime oferecem um alívio ao caos da vida na cidade.quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Por Gabi Di Bella
Fotos de Keiny Andrade

"Existe um dito, uma lenda, de que a ayahuasca escolhe, de que ela chama as pessoas, e foi exatamente isso: ela nos chamou”, me conta Rosan Coutinho, engenheiro químico. “Logo na primeira dose senti o poder que a ayahuasca tinha e decidi que iria viabilizar o acesso para outras pessoas, uma decisão tomada ali, na primeira dose.”

Foi assim que Rosan e sua mulher, a terapeuta holística Maria Coutinho, começaram a consagrar – ou tomar em ritual – a ayahuasca, em 2011, quando ainda moravam no centro de São Paulo. A ayahuasca é uma bebida enteógena, ou seja, pode gerar mirações e alterar o estado de consciência de quem a toma. Produzida a partir da mistura do cipó de mariri (Banisteriopsis caapi) e das folhas da chacrona (Psychotria viridis), a bebida é uma receita ancestral e seu uso é identificado em mais de 70 etnias indígenas, especialmente na região dos Andes e da floresta Amazônica. No Brasil, ela também é conhecida como daime.

No entanto, até terem o primeiro contato com o chá em meio ao concreto da maior região metropolitana do país, nenhum dos dois tinha qualquer ligação ou parentesco com a cultura indígena. Só depois de tomarem eles se interessaram pelas medicinas e curas da floresta, como são chamadas a ayahuasca e outras substâncias (como o rapé e a jurema), produzidas por indígenas. Hoje, ainda vivendo uma vida urbana, eles dedicam boa parte da rotina a rituais xamânicos com o uso da ayahuasca.

A bebida tem como princípio ativo o alcaloide dimetiltriptamina (DMT), uma substância encontrada naturalmente na chacrona e em diversas plantas e animais, inclusive no nosso próprio fluido cerebral. Mas apesar de ser um psicoativo potente, seus efeitos normalmente não são percebidos porque o DMT é facilmente metabolizado pela enzima monoamino oxidase (MAO). Mas quando o DMT da chacrona é misturado às beta-carbolinas encontradas no cipó de mariri, o MAO é inibido e o DMT age com mais intensidade e por mais tempo, provocando as mais diversas reações, que variam de pessoa para pessoa. Na maioria das vezes, isso inclui ampliação de consciência, percepção diferente da realidade, visões de ancestrais e outras vidas, miragens comumente compreendidas como alucinações e processos de limpeza como vômitos e diarreia.

Xamãs urbanos
Inspirados por rituais indígenas, centros oferecem experiências espirituais da floresta a moradores da metrópole.

Maria lembra que “foi amor à primeira vista, [a ayahuasca] nos encontrou. A gente foi até ela e, de pronto, ocorreu a conexão – foi um divisor de águas nas nossas vidas”. Um ano após essa conexão, em 2012, eles decidiram mergulhar fundo nas vivências xamânicas. “No começo tinha um pouco do estereótipo de mudança radical, ‘Vou queimar meu RG e meu CPF na fogueira, vou para o mato’”, conta Rosan. “Mas rapidamente passou, porque nós já chegamos num outro momento, fomos chamados para ter outro tipo de convívio com a ayahuasca.”

Segundo eles, a euforia da descoberta é bem comum entre os recém-chegados. “Tem pessoas que tomam com a gente e também ficam eufóricas, mas a gente avisa: calma, isso vai passar”, diz Rosan. “O importante é trazer para o seu ambiente os benefícios da ayahuasca, pois ela transforma você no nível da consciência, abre as suas capacidades e você fica mais consciente no dia a dia.” No entanto, o caminho até que a pessoa seja habilitada a servir a substância para outros não é fácil. Rosan lembra que "a ayahuasca não é brincadeira e não é aconselhável a ninguém tomar sozinho”.

Rosan e Maria contam que passaram por uma série de iniciações e práticas xamânicas de renascimento com índigenas e xamãs, “igual aos filmes que a gente assiste, é mais ou menos daquele jeito", ri Rosan. O casal foi ao Acre conhecer os fundamentos indígenas e os modos de produção da ayahuasca, assim como os princípios ativos de cada elemento. Passaram por ritos com povos indígenas em São Paulo e com grupos como o Santo Daime – doutrina fundada no Acre no início do século 20 pelo seringueiro Raimundo Irineu Serra, o Mestre Irineu.

“Aos poucos, fomos recebendo outras habilitações com os padrinhos e os líderes, são eles que validam o que você pode fazer", explica Maria. Foi somente depois de conhecer todos os limites aos quais a ayhasuca pode levar, as viagens boas e as ruins, que o casal recebeu a autorização para servir outras pessoas. “É uma habilitação num nível mais espiritual. Não existe uma carteirinha.”

"A ayahuasca faz um trabalho de autoconsciência muito rápido, esse é um diferencial dela para outros modelos terapêuticos que levam para o mesmo lugar – não é o único caminho, mas é para quem quer acelerar o passo”, diz Rosan. “A abordagem que adotamos é que não precisa ir viver na selva, dá para se ajustar à vida urbana, continuar trabalhando no seu emprego.”

Antes de experimentar pela primeira vez, Rosan acreditava que só era possível tomar o chá em uma aldeia no meio da floresta, mas hoje ele entende que não é bem assim e, inclusive, segue com seu trabalho em uma multinacional. “Eu falo abertamente sobre isso lá, e muitos colegas já vieram participar dos rituais. No início eu chegava a tomar dia sim, dia não, em casa, e no final de semana eram três doses. E eu seguia trabalhando", conta. Mas Rosan lembra que é importante observar alguns detalhes ao tomar a ayahuasca. “Não é aconselhável tomar e sair dirigindo nem ir direto para o trabalho – tem que ser um momento que a pessoa tenha de três a quatro horas para que o efeito passe e ela volte a perceber o nível que as coisas estão”, alerta.

O casal iniciou as cerimônias na sala de casa, mas com o aumento do público ampliaram a realização do rito para outros dois locais. Abriram um espaço terapêutico chamado Natureza Interior, coordenado por Maria em Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo, e passaram a integrar a equipe do vizinho Sítio Essencial, onde também ocorrem as cerimônias de consagração da ayahuasca e outras terapias holísticas, como o reiki.

Cura de vícios

O ex-segurança particular Paulo Henrique Lopes, 35, e sua mulher, a alquimista Maria Pereira de Oliveira, 42, também mudaram completamente de vida. O casal se conheceu em um centro de umbanda e atualmente coordena cerimônias xamânicas em um espaço na Vila Clarice, zona noroeste da cidade de São Paulo, criado para atender um chamado espiritual. “Quando esse chamado veio, já veio falando para construir grande que era para atender muitas pessoas”, conta Paulo.

Ele explica que tudo começou há 18 anos, quando foi arrastado pela mãe para um ritual. “Nessa época eu trabalhava num petshop, estava com a vida destruída por causa das drogas e minha mãe me levou a força”, conta Paulo. “Lá era um xamanismo urbano mesmo, dentro de uma garagem, onde ocorriam curas dentro dos rituais. Sou muito grato a tudo que aconteceu ali.”

Antes de começarem a auxiliar outras pessoas no uso da ayahuasca, Paulo e Maria também viveram suas iniciações. “Passar por um processo extremo é o mínimo que a pessoa tem que fazer antes de oferecer a medicina para outros”, diz Paulo. “Eu passei por uma vivência só com meu padrinho, em um sítio na Mata Atlântica, em Itanhaém (SP), e foi assim: os três primeiros dias foram de jejum absoluto, a partir do terceiro dia podia comer mandioca sem sal, e a partir do décimo podia comer salada e arroz integral.” Ao fim de um mês tomando seis doses diárias, Paulo conta ter perdido 30 kg.

Ao longo dos anos, Paulo sentiu que tinha algo para acrescentar e começou, junto com a esposa, a servir ayahuasca para amigos na sala de casa. “Logo na primeira reunião vieram oito pessoas, já ficou apertado”, lembra Paulo. “Na segunda, eu tive que pedir para minha mãe ceder sua garagem e vieram mais 15 pessoas – cada vez vinha mais e mais gente.”

"No começo fiquei bastante apreensiva – era muita responsabilidade –, mas eu e o Paulo temos uma parceria muito legal e decidimos fazer como pediu a espiritualidade", explica Maria. Assim, em 2014, eles decidiram derrubar três imóveis no terreno que alugavam atrás de casa e abrir espaço para os rituais – surgia o Centro Ayahuasqueiro Jiboia Sagrada. Construído com ajuda de amigos, o centro recebe atualmente quase 150 pessoas em uma noite.

No lugar também são oferecidos cursos de várias linhas – reiki, umbanda, oficinas de percussão. “Não sei se talvez por causa da minha história, aqui vem muitas pessoas com problema de adicção, relacionado geralmente a cocaína, crack, bebida e cigarro. Então eu dou oficinas gratuitas para quem tem problemas com drogas”, diz Paulo. Segundo a experiência do casal, o tabagismo é o vício de resultado mais positivo com o uso da ahyauasca. "Cigarro, depressão, ansiedade, crack e a cocaína também param, mas o álcool é o que menos dá resultado, por isso consideramos o vício na bebida o mais difícil e avassalador", avalia Maria.

Outro ponto importante de cada ritual são as músicas, escolhidas de maneira a conduzir cada passo da cerimônia. A seleção costuma ser eclética – vai do gospel evangélico e rezas até pop rock nacional e internacional –, mas todas levam alguma mensagem de cura. "A música é mais alta que os pensamentos”, diz Paulo. “Ela não é necessária, mas é um facilitador que a gente traz para o ritual. Geralmente, na floresta tem bastante tempo em silêncio, mas aqui optamos pela musicalidade. Por sorte, nunca tivemos problemas com os vizinhos."

Terapia sonora

Em busca de si mesmo, e de um processo de cura, o francês Pierre Stocker, 37 anos, atravessou o oceano para encontrar a ayahuasca. “Tudo começou com uma meditação no mar, ainda na França", diz Pierre. Depois dessa primeira experiência, ele decidiu partir em viagem pela América do Sul, passou nove meses caminhando por trilhas nos Andes e, por uma série de coincidências, várias pessoas o levaram até a ayahuasca. “Eu sinto que o chamado foi dela”, conta. A primeira vez que tomou o chá foi com um xamã peruano de 90 anos.

Hoje, junto do seu grupo Mestre Interior, Pierre oferece oficinas de soundhealling com uso da ayahuasca em São Paulo e cidades próximas, como Juquitiba e Itapecirica da Serra. O processo une o uso do chá com a cura através dos sons. “Eu comecei a estudar os sons como um veículo de conexão com a essência e percebi que tudo é vibração, tudo é ritmo”, filosofa. “A ayahuasca é uma expansão de consciência e muitas vezes o vazio não é perceptível para as pessoas porque somos feitos de matéria, energia, de apegos às formas, às crenças, às pessoas, às coisas."

Pierre cresceu em uma família de médicos, em uma cidade perto de Nantes, no sul da França, e disse que na Europa, em um universo supostamente mais racional, a ayahuasca dá medo e o fez perguntar se realmente era preciso tomar essa poção mágica para se conectar com a natureza. “Precisar não precisa, mas eu me afino com essa vibração”, diz ele. Ainda assim, ele lembra que ela não é para todos. “Uma boa proporção das pessoas que vem tomar ayahuasca não volta mais, ou porque não se afina com ela ou, talvez, porque a característica do meu trabalho é muito forte.”

Os rituais, segundo Pierre, fazem parte da linha da transformação. “Para transformar, é preciso sair da zona de conforto, e para sair mesmo é bom tomar bastante chá para a pessoa abrir esse espaço de grande mistério”, diz ele. “Quando ela percebe que o eu se dissolve, isso dá medo de morrer, de acabar, e o som ajuda a guiar e perceber que está tudo bem.”

Como soundhealer, ele diz buscar uma visão mais moderna e racional às crenças metafísicas e da cosmovisão indígena. “O fato de ser europeu não me deixa à vontade para usar um cocar de penas e imitar os cantos indígenas – não tenho essa cultura dentro de mim –, porém sou humano e buscador, tenho esse talento de concentração dentro da medicina.”

Estagiária da jiboia

A falta de conexão indígena também não foi problema quando a ayahuasca chegou, em 2016, na vida da consultora de recursos humanos Thaís Rodrigues Oliveira, 34 anos. Tomar o chá foi uma tentativa de ajudar um primo que sofria de dependência química, mas o processo a fez constatar que pouco conhecia sobre si mesma. “Percebi que se quisesse curar alguém, precisava me curar primeiro", diz.

Thaís se descreve antes do uso da medicina xamânica como uma pessoa robótica que depositava todas as suas recompensas e autoafirmações na profissão. “Eu vinculava meu sucesso ao bônus de fim de ano e com isso esquecia dos meus papéis na vida”, diz ela. “Depois da medicina, consegui entender e harmonizar melhor todos eles e hoje sou melhor mãe, esposa, amiga e filha.”

Ela conta que vivia com transtorno de ansiedade generalizada, mas, como estava em um cenário urbano caótico, rodeada por pessoas viciadas em trabalho, ela “acabava normalizando essa situação”. Thaís conta que se libertou do quadro ansioso logo depois do primeiro contato.

No entanto, a mudança mais radical começou justamente quando ela já não sentia mais um forte efeito durante as cerimônias. “As mirações diminuíram, até que um dia a própria jiboia [outro nome dado à bebida] determinou que eu deveria me tornar uma mulher da medicina e ser um meio que leva a cura da floresta para outras pessoas”, conta. Como não teria um lugar físico para realizar as cerimônias, Thaís rejeitou a ideia no começo, mas parentes em Bauru, cidade a 330 km de São Paulo, ajudaram a conseguir o terreno onde hoje funciona a Oca Estelar.

Tal como os outros entrevistados desta reportagem, Thaís também começou servindo ayahuasca para parentes e amigos. “Logo nos tornamos mais de 100 membros, abrimos outro espaço em Jundiaí e passamos a ser 200 pessoas participando.” O trabalho na capital paulista começou em 2018, depois que ela conheceu seu novo companheiro em um ritual de ayahuasca. O casal criou a Arca Estelar e passou a realizar os ritos também no porão de casa, em Mirandópolis, bairro da zona sul.

Antes disso, Thaís viajou à Terra Indígena Rio Gregório, na Amazônia acreana, para conhecer o processo xamânico do povo ywanawá. Na volta, o desafio foi adaptar os ensinamentos da floresta para a selva de concreto. “Vivo o desafio de fazer essa adaptação para a cidade”, diz ela. “Estamos inseridos no centro de São Paulo e, dentro desse caos, queremos mostrar para as pessoas que é possível viver isso [a experiência xamânica] em meio a esse cenário.”

Thaís brinca que não se considera xamã, mas sim uma estagiária da jiboia. “Pretendo passar a vida sendo nada mais que uma estagiária da jiboia, renovando esse contrato sem nenhum desejo de promoção.”

Os xamãs urbanos sentem que há um interesse crescente na medicina da floresta nos últimos anos, facilitado pelo uso de redes sociais, como Whatsapp e Facebook, que servem para organizar, divulgar e promover os rituais. “O ser humano está procurando sim, tem aumentado a busca, tem aparecido mais gente”, conta Rosan Coutinho.

Para Paulo Henrique Lopes, do centro Jiboia Sagrada, os rituais de cura dentro da cidade são fundamentais. "Imagine ir até Rio Branco (AC) e depois pegar mais oito horas de barco até Rio Gregório para tomar a medicina?” pergunta-se. “Muitas pessoas falam que a ayahuasca só pode ser consagrada na aldeia, mas se fosse assim a cidade já estaria perdida. Tem muita gente precisando de ajuda e o xamanismo urbano é fantástico.”

Um elemento comum entre todos esses movimentos é a universalidade. Os rituais englobam várias religiões, e nos altares encontram-se Shiva e Ganesha (símbolos do hinduísmo), entidades de umbanda, Jesus, mitologia indígena e ciganos. “Nós recebemos todo tipo de pessoa de todas as religiões – médicos, advogados, ajudante geral, juíz, efermeira, motorista, policial, investigador e entre os guardiões, temos pscicólogas, enfermeiras”, conta Maria Pereira. Os guardiões são voluntários que auxiliam na condução das cerimônias e ajudam a cuidar de quem passa mal e sofre com as reações fisiológicas provocadas pelo chá.

Rituais burocráticos

Enquanto entre alguns povos indígenas a ayahuasca é uma bebida tomada cotidianamente, para realizar rituais nas cidades é preciso seguir uma série de regras e burocracias. O uso religioso da ayahuasca é regularizado em todo território nacional pelo Conselho Nacional de Drogas (Conad) desde 2010, quando o órgão publicou um relatório, fruto de mais de uma década de pesquisa, sugerindo uma série de instruções. Entre mais de 46 itens, o documento veda a comercialização da ayahuasca, sugere que as entidades evitem o turismo orientado para obtenção de lucro, proíbe o uso do chá como terapia fora do contexto da fé e recomenda que as entidades avaliem os novos adeptos, levando em conta relatos de alterações mentais anteriores, o estado emocional e se estão sob efeito de álcool ou outras drogas.

Antes dos ritos, os coordenadores também explicam como funciona e o que pode acontecer a cada um, pois o chá provoca reações diferentes conforme a pessoa que o ingere, podendo inclusive não provocar nada – nem mirações, nem reações fisiológicas. “Eu costumo dizer que com a ayahuasca é sempre a primeira vez. Não tem como alguém descrever como vai ser a sua experiência”, diz Maria Pereira. “O que a gente faz é guiar para a pessoa entender mais ou menos o que pode acontecer.”

Os guardiões de cada casa também organizam o salão e, para cada usuário, disponibilizam um balde, um saco plástico e um rolo de papel higiênico, utilizados em caso de mal-estar, além de um colchonete. “Quer me ver feliz? Me traz um pacote de papel higiênico de presente, eu adoro porque é uma das coisas que a gente mais utiliza nas cerimônias", brinca Thaís do centro Arca Estelar.

Ela também lembra que nem todo mundo se dá bem com a ayahuasca. A medicina não deve ser utilizada por quem faz tratamentos com antidepressivos e remédios tarja preta, pessoas com tendência a esquizofrenia e outras doenças psicológicas. Antes de cada ritual, é preciso seguir uma dieta de pelo menos 48 horas sem álcool, carne vermelha e comidas pesadas e gordurosas. Os valores cobrados dos participantes variam de local para local e giram em torno de R$ 60 a R$ 130 para cobrir custos.

Depois que Mestre Irineu aproximou, através do Santo Daime, o uso indígena da ayahuasca dos ritos cristãos no início do século 20, outras doutrinas surgiram. Daniel Pereira de Mattos, o Frei Daniel, fundou a Barquinha, também no Acre, em 1945 e José Gabriel da Costa, o Mestre Gabriel, criou a União do Vegetal em Porto Velho (RO), em 1961.

Hoje, os xamãs urbanos enxergam este início de século 21 como um novo momento de relação do homem com a sabedoria da floresta – uma adaptação dos ritos tribais do xamanismo a uma lógica capitalista urbana, tentando resgatar conexões com os elementos naturais. Para Pierre, isso é importante porque gera uma consciência ecológica e valoriza o contato com a natureza. “O xamanismo significa estudar a natureza para revalorizar a presença dos animais, das plantas, do reino mineral”, diz ele, “e isso é se conectar com a essência, pois todos viemos desta terra e a ela vamos voltar, como a gota de água retornando para o mar”.

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