Em Paraisópolis, presidentas de rua cuidam do lar, dos filhos e dos vizinhos

Na segunda maior favela de São Paulo, onde a assistência do Estado é rara, moradores se organizaram para monitorar a saúde e o bem-estar dos mais vulneráveis e elegeram 655 monitores – 90% eram mulheres.

Fotos de Rafael Vilela
Publicado 2 de set de 2020 07:07 BRT, Atualizado 5 de nov de 2020 02:56 BRST
Katielle Nunes de Araújo tem 19 anos e, depois de um longo período desempregada, conseguiu seu ...

Katielle Nunes de Araújo tem 19 anos e, depois de um longo período desempregada, conseguiu seu primeiro trabalho com carteira assinada em uma lanchonete. Ela foi presidenta da rua Melchior Giola.

Foto de Rafael Vilela

Katielle Nunes de Araújo na varando de sua casa, na rua Melchior Giola. "É muito ruim ver que está faltando comida nas casas das pessoas. Não conseguimos fazer tudo sozinhos, precisamos de alguém lá de cima, mas eles não nos ouvem. Eu acho que é porque nós somos da favela."

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Segunda-feira, 10 de agosto, foi um dia especial para Maria dos Santos, 34 anos. Pela primeira vez desde março, depois de meses estudando, trabalhando e cuidando de da família, a mãe de três filhos saiu de sua casa em Paraisópolis, Zona Sul de São Paulo, para fazer algo divertido. “Era aniversário do meu filho, e decidi levar todos ao Mc Donald’s aqui perto de casa. Estava vazio, foi a primeira vez que saí para me divertir depois de quatro meses”, disse em entrevista à reportagem. 

Maria foi uma das várias mulheres de uma das maiores e mais populosas comunidades do país – com 100 mil habitantes e 21 mil casas – que viram suas tarefas multiplicarem devido ao isolamento da covid-19. “Tive que criar um cronograma, porque não tenho tempo nem para tomar um café. Eu sento, um chama, eu levanto, o outro chama. Eu já faço o café da manhã e o almoço ao mesmo tempo”, diz ela. “É lanche, é roupa suja para trocar, é louça para lavar, é 24 horas.”

Além disso, Maria estuda – faz faculdade de pedagogia à distância – e trabalha como auxiliar de limpeza na escola do bairro, trabalho para o qual foi chamada algumas vezes durante a quarentena. Antes dos serviços não essenciais serem fechados, ela também trançava cabelos em um salão de beleza com suas irmãs. O marido a ajuda quando está em casa, mas trabalha o dia inteiro fora – entrega gás, serviço essencial que não parou durante a pandemia.

Em março, mesmo com tantas tarefas, ao ver o anúncio em uma rede social convocando para o projeto de Presidentes de Rua da Associação de Moradores de Paraisópolis, Maria se candidatou. “Nos primeiros dias da quarentena, fiquei em choque. Não saía para nada, mas quando vi o projeto, pensei: gosto tanto de estar no meio das pessoas. Decidi tentar”, conta ela. “Eu não vou abandonar a comunidade, sou nascida e criada aqui, se precisam de ajuda, eu vou ajudar.”

Maria dos Santos, 33 anos, é presidenta da rua Itajubaquara. Com a pandemia, ela perdeu os dois empregos que tinha – auxiliar de limpeza e cabeleireira.

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Maria cuida dos dois filhos em sua casa em Paraisópolis. “Tive que criar um cronograma, porque não tenho tempo nem para tomar um café. Eu sento, um chama, eu levanto, o outro chama. Eu já faço o café da manhã e o almoço ao mesmo tempo. É lanche, é roupa suja para trocar, é louça para lavar, é 24 horas.”

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Eleita, Maria assumiu a responsabilidade de auxiliar outras 50 famílias da rua Itajubaquara, na viela São José do Prado, onde mora. A eleição de presidentes de rua foi uma das soluções que a Associação de Moradores de Paraisópolis encontrou para amparar mais pontualmente os moradores que, devido a pandemia, não podiam sair de casa. O projeto – que talvez deveria ser chamado Presidentas de Rua, no feminino – tem 655 representantes eleitos, 90% mulheres. “No início, tinha um menino trabalhando comigo, mas ele não aguentou, me abandonou, fiquei tocando tudo sozinha”, conta Maria.

Entre as funções de cada presidenta estava cadastrar as famílias de cada rua para que pudessem receber cestas básicas, kits de limpeza e contatar ajuda médica caso fossem infectados pela doença. No entanto, Maria sentiu que o trabalho foi além de um simples elo entre as pessoas e a ajuda. “Acabamos criando uma amizade com os vizinhos. A maioria eu mal conhecia. Inclusive, mudei a ideia que tinha sobre algumas pessoas”, diz ela. “Antes, era só ir para o trabalho e voltar para casa. Agora, eu conheço mais a vizinhança e muitos me agradecem até hoje pelo auxílio.”

O sentimento de comunidade e de gratidão também alimenta a coragem da jovem Katielle Nunes de Araújo, 19 anos. Quando as notícias sobre o vírus surgiram, ela estava desempregada, mas não quis ficar parada. Se tornou presidenta da rua Melchior Giola, onde divide casa com uma amiga. Nascida na Bahia e criada em Fortaleza, encarou, aos 15 anos, uma viagem de três dias de ônibus até São Paulo, onde decidira tentar a vida. Desde então, mora em Paraisópolis.

Katielle diz que não teve medo – usava máscara, álcool em gel e não entrava nas casas, chegava somente até a porta. “É muito legal quando a gente ajuda as pessoas, você vê a felicidade e a gratidão no rosto delas. Um dia, entreguei a minha cesta básica para uma mulher com cinco filhos, e ela me agradeceu muito pois, sem isso, as crianças não teriam o que comer.”

Laryssa da Conceição da Silva tem 24 anos, dois filhos e estava desempregada quando este retrato foi tirado, em maio de 2020. Ela é presidenta da viela da Harmonia.

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Laryssa e os dois filhos em casa. "Nós fazemos o papel do governo. A covid-19 já está chegando muito perto da gente, com pessoas na comunidade infectadas, mortes ocorrendo. Mas, melhor que medo, é o sentimento de ajudar os outros."

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Para a líder comunitária e fundadora do Emprega Comunidade Rejane dos Santos, 35 anos, a grande presença de mulheres no projeto demonstra a garra da mulher de Paraisópolis que não foge da luta. Ela conta que, ao ser declarada oficialmente a quarentena, em 19 de março de 2020, a equipe da Associação de Moradores de Paraisópolis decidiu obedecer ao isolamento e foi para casa. “Ficamos lá, mas só por um dia. No outro, estávamos de volta porque percebemos que se a comunidade não pudesse contar conosco, não teriam com quem contar.” Dessa necessidade nasceram diversas estratégias para tentar proteger os moradores de uma área tão populosa das consequências do vírus.

“Além do projeto das Presidentes de Rua, nós distribuímos mais de 30 mil cestas básicas, 10 mil marmitas, 70 mil máscaras, kits de limpeza, criamos um alojamento para quem não tinha como ficar isolado em casa, formamos uma rede de apoio às diaristas, formamos brigadistas em primeiros socorros e ainda ajudamos refugiados a voltarem para casa”, conta Rejane. A Associação também contratou um plantão com médicos e ambulâncias para a região. “O Samu não chega, e o IML demora muito. Logo no início da pandemia, tivemos um óbito e eles vieram pegar o corpo só às 22 horas do outro dia. Quem prepara a população psicologicamente para isso?”

Separada e mãe de uma menina de três anos, Rejane conta com ajuda do pai da criança para conseguir atender todas as suas tarefas. “As regras que o governo criou não se aplicam na comunidade. Aqui, a crise já estava instaurada antes – com o desemprego, pessoas passando fome e sendo despejadas. Esse novo normal a gente já vivia”, diz ela. “Máscara e álcool em gel são artigos de luxo onde as pessoas não tem o que comer.”

Para Rejane, as estratégias deram certo. Paraisópolis teve 1.155 moradores testados positivos. Desses, mais 50% foram atendidos em escolas transformadas em alojamentos para atender quem vive de forma aglomerada e, assim, diminuir a velocidade de propagação do vírus. “Achamos que iria durar três meses, durou bem mais. Aqui não existe home office, a maioria são trabalhadores das áreas de serviços, muitos continuaram obrigados a sair de casa mesmo com a quarentena. Ainda assim, o número de infectados em Paraisópolis é bem menor do que deveria ser.” Segundo levantamento do Instituto Pólis, a taxa de mortalidade por covid-19 em Paraisópolis era, em meados de maio, de 21,7 por 100 mil habitantes, enquanto na Vila Andrade, o distrito onde a comunidade está localizada, o número chegava a 30,6 e na cidade de São Paulo, 56,2.

Presidentes de rua de Paraisópolis organizam as ações para conter o avanço do coronavírus na comunidade, em maio de 2020. Foram 655 representantes eleitos – 90% era mulheres.

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Renata Alves, produtora cultural e ex-diretora da Associação de Mulheres de Paraisópolos, em São Paulo, coordena o serviço de ambulâncias contratado pela comunidade para suprir a ausência do Estado. "Nasci em Paraisópolis e, por conhecer todas as ruas, vielas e atalhos, por conhecer meu território tão bem, foi muito bom trabalhar com as ambulâncias."

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No auge da crise, voluntários da Associação de Mulheres de Paraisópolis preparavam até seis mil refeições gratuitas por dia, um incentivo – e uma ajuda – para que as pessoas ficassem em casa.

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Em agosto, após atender 586 pessoas, os alojamentos foram fechados para dar lugar aos preparativos para uma possível volta às aulas presenciais. Maria, mãe de três filhos, fica apreensiva, mas afirma não ter outra escolha a não ser levá-los à escola. “Eu trabalho lá, e teria que levar o pequeno para a creche. Não tenho como pagar para alguém cuidar dos outros, ou seja, fico sem opção.”

Para a moradora, foi a ação da comunidade que salvou Paraisópolis de uma contaminação em massa. “Sinceramente, o governo deixou a desejar porque muita gente não tem respeito aqui, e a conscientização [sobre métodos de higiene e isolamento] que partiu da associação foi essencial. Sem isso, eu não sei o que teria sido de nós”, diz ela. A volta das atividades não essenciais também preocupa a jovem Katielle. Ela critica a falta de cuidado das pessoas, especialmente as mais novas. “Nem parece que estamos em uma pandemia, foi uma bagunça no final de semana, e vi só os idosos usando máscara”, diz Katielle. “A gente fala e parece que entra por um ouvido e sai pelo outro.”

Para Rejane, todas essas ações que partiram da sociedade civil, incluindo o papel de mulheres como Katielle e Maria, foram essenciais. “Tudo que realizamos foi resultado da parceria com empresas e a partir de doações”, conta Rejane. “E, nesse trabalho, a presença da mulher foi elementar. A mulher aqui é aguerrida, batalhadora, e sinto muito orgulho delas, porque elas representam a dedicação, o afeto e o amor que temos aqui em Paraisópolis.”

Dedicação que Katielle demonstra mesmo depois de ter deixado o cargo de Presidenta de Rua. A jovem teve que adiar os planos de terminar o segundo grau e ingressar na faculdade de veterinária. Hoje, trabalha na mesma lanchonete de fast-food onde Maria foi comemorar o aniversário do filho. “Se eu não estivesse trabalhando, ainda estaria sendo representante de rua”, diz ela. “Mas preciso focar neste que é meu primeiro trabalho registrado. Quero juntar algum dinheiro e alugar o meu cantinho, mas, se for preciso, eu tiro até do meu bolso para ajudar com um saco de arroz ou feijão.”

As fotos desta reportagem foram produzidas com apoio do Fundo de Emergência Covid-19 para Jornalistas da National Geographic Society

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