No Japão, música de Beethoven é uma cantiga natalina

Mas como serão os corais de Natal em 2020?

Publicado 23 de dez. de 2020 16:30 BRT
Cinco mil coristas amadores cantaram “Ode à Alegria” da Nona Sinfonia de Beethoven em Tóquio, no Japão, ...

Cinco mil coristas amadores cantaram “Ode à Alegria” da Nona Sinfonia de Beethoven em Tóquio, no Japão, em fevereiro de 2006. Corais que incluem a obra do compositor alemão sobre a fraternidade e a compreensão são uma tradição natalina no Japão há mais de um século.

Foto de TOSHIFUMI KITAMURA, AFP/Getty Images

Fortificado por arame farpado, um campo de prisioneiros de guerra empoeirado em uma ilha japonesa no meio da mata pareceria um local estranho para o nascimento de um dos maiores corais do mundo. Mas, à sombra da Primeira Guerra Mundial, uma apresentação incompleta da Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven exerceu tanto fascínio sobre o povo japonês que criou uma tradição celebrada ainda hoje para receber o Ano Novo.

Todo mês de dezembro, centenas de concertos da Nona Sinfonia, com uma mensagem de paz, esperança e alegria, são realizados no Japão, em locais como shopping centers e centros comunitários. Muitas dessas apresentações incluem corais de “Ode à Alegria”, a parte cantada do quarto movimento da sinfonia.

Esta gravura do compositor teuto-austríaco Ludwig van Beethoven data de 1882. Sua Nona Sinfonia foi executada pela primeira vez na Ásia, há mais de cem anos, por prisioneiros de guerra alemães no Japão.

Foto de Illustration by Getty Images

O concerto mais aguardado é o Suntory 10.000 Freude no Suntory Hall em Osaka, que geralmente conta com 10 mil coristas amadores e profissionais. “A relação do povo japonês com a Nona Sinfonia é uma união entre a conexão social e a musicalidade”, afirma o maestro Jeffrey Bernstein. “Para eles, cantar ‘Ode à Alegria’ é uma conexão social.”

A história improvável de como uma composição europeia se tornou a principal melodia das festas do fim do ano no Japão remonta há centenas de anos na Alemanha. Contudo, em um ano em que a pandemia do novo coronavírus interrompeu a maior parte dos corais, teria chegado ao fim seu reinado na Ásia?

Raízes europeias de uma sinfonia alegre

Beethoven nasceu em dezembro de 1770 em Bonn, antiga cidade alemã às margens do Rio Reno. Mudou-se para Viena, na Áustria, em 1792, para estudar com o famoso compositor clássico Franz Joseph Haydn. Enquanto morou em Viena, Beethoven fez grandes avanços em sua carreira, apresentando-se em teatros e salas de concertos, incluindo a casa de ópera Theatre an der Wien e o Palais Lobkowitz, palácio barroco que atualmente é um museu. No entanto sua vida pessoal estava em frangalhos.

“Sua saúde foi péssima durante toda a vida. Buscou amor, mas nunca encontrou. Queria formar uma família, mas não teve êxito”, afirma Kerry Candaele, escritor e cineasta cujo filme, Following the Ninth, documentou o impacto global da última sinfonia de Beethoven. “Ele foi um dos maiores manipuladores acústicos e perdeu a audição.”

Alguns estudiosos acreditam que Beethoven levou a vida inteira para compor a Nona Sinfonia, concluída antes de sua morte em 1827. Foi inspirado pelos textos do poeta e filósofo alemão Friedrich Schiller, que, em 1785, compôs o poema “Ode à Alegria”, que transmitia uma mensagem universal de fraternidade, alegria e liberdade. Após incorporar as palavras de Schiller no quarto movimento, a Nona Sinfonia estreou no Theatre am Kärntnertor de Viena em 1824 como a primeira sinfonia do mundo com um coral.

Intercâmbio cultural durante a guerra

Apesar de sua popularidade na Europa, a Nona Sinfonia só foi apresentada na Ásia quase um século depois — e no local mais improvável. Durante a Primeira Guerra Mundial, o Japão aliou-se à Grã-Bretanha e capturou tropas inimigas na ilha chinesa de Qingdao, na época, ocupada por alemães. Cerca de mil soldados alemães foram transportados a Naruto, pequena cidade na província de Ibaraki, mais acostumada a receber peregrinos de templos budistas do que prisioneiros de guerra europeus.

No campo de prisioneiros de guerra de Bando, em Naruto, o oficial comandante incentivava os soldados capturados a participar de atividades como trabalhar em oficinas, publicar jornais e tocar música. Em 1o de junho de 1918, Hermann Hansen, prisioneiro alemão, regeu uma apresentação da Nona Sinfonia pela Orquestra de Tokushima local formada por 45 membros, utilizando instrumentos parcialmente feitos à mão e um coral masculino formado por 80 prisioneiros. Yorisada Tokugawa, político abastado e patrono de música clássica, ouviu falar sobre o concerto e visitou o campo vários meses depois para um bis. Músicos japoneses do que se tornou a atual Universidade de Artes de Tóquio executaram a Nona Sinfonia pela primeira vez em 1925.

O relacionamento intermitente entre o Japão e a Alemanha foi retomado durante a Segunda Guerra Mundial, assim como sua apreciação mútua por Beethoven. Em dezembro de 1943, na cerimônia de formatura dos alunos da Universidade de Tóquio convocados para lutar na guerra, foi apresentada a “Ode à Alegria”. Durante a guerra, os imperialistas japoneses utilizaram a Nona Sinfonia para promover o nacionalismo; a música também recebeu a infeliz designação de sinfonia favorita de Adolph Hitler.

Susanne Hake segura foto de seu avô, Hermann Hake, quando era prisioneiro durante a Primeira Guerra Mundial no Japão. Ele e outros prisioneiros alemães executaram a Nona Sinfonia de Beethoven em 1918 em um campo de prisioneiros em Bando, a atual Naruto. Foi a primeira apresentação na Ásia da última sinfonia de Beethoven.

Foto de Silas Stein, Picture Alliance/Getty Images

“Desde sua primeira execução em 1824, a Nona Sinfonia se tornou uma obra tão icônica que vários movimentos e indivíduos se afeiçoaram a ela”, conta Candaele. “O mais famoso foi Hitler, que pediu que a Nona Sinfonia fosse tocada em seu aniversário. Ele considerava que a música era ariana, uma noção oposta à letra de ‘Ode à Alegria’.” Candaele faz referência a frases como “todos são agora irmãos” e “este beijo para o mundo inteiro” ao afirmar: “como é possível enxergar a supremacia racial ariana nisso?”

A admiração de Hitler pela Nona Sinfonia não impediu que pessoas de todo o mundo que lutavam contra regimes autoritários se identificassem com os ideais revolucionários da sinfonia “Ode à Alegria”. Durante a ditadura de Pinochet na década de 1970, chilenas cantaram a versão espanhola — “Himno a la Alegria” (Hino à Alegria) — nas ruas de Valparaíso e dentro do campo de concentração de Três Álamos. Em 1989, a Nona Sinfonia podia ser ouvida reverberando nos alto-falantes improvisados em todos os protestos estudantis na Praça Tiananmen em Pequim, na China.

Naquele mesmo ano, em 25 de dezembro, o lendário maestro norte-americano Leonard Bernstein — filho de imigrantes ucranianos judeus — regeu a sinfonia no majestoso neoclássico Konzerthaus na praça Gendarmenmarkt para comemorar a queda do Muro de Berlim. Bernstein ficou célebre por trocar a palavra Freude (alegria) por Freiheit (liberdade).

Os estudiosos enxergam um tema evidente. “Toda música boa produz diversos efeitos”, afirma Candaele. “Essa sinfonia, às vezes, tem a capacidade de curar e cicatrizar feridas de pessoas e do mundo. A Nona Sinfonia nos eleva a um nível em que reconhecemos o melhor em nós mesmos.”

Um recomeço no Japão

Após a Segunda Guerra Mundial, a devoção do povo japonês a Beethoven permaneceu inalterada. Durante a ocupação liderada pelos Estados Unidos, músicas tradicionais japonesas, como kabuki, foram censuradas. Filmes de guerra e referências ao passado do Japão também foram proibidos, mas, surpreendentemente, Beethoven escapou da censura. Em dezembro de 1946, em uma Tóquio ainda devastada pela guerra, o público compareceu em massa para assistir à Nona Sinfonia, tão repleta de esperanças, apresentada pela Nova Orquestra Sinfônica e regida pelo maestro judeu polonês Joseph Rosenstock.

“O povo japonês considera uma força poderosa a noção de sobreviver, reconstruir e progredir”, afirma Jeffrey Bernstein, o primeiro norte-americano a reger um concerto de Daiku (a Nona Sinfonia, em japonês), na cidade de Naruto, Japão, perto do local da primeira apresentação dos prisioneiros de guerra.

Embora esse campo tenha deixado de existir há muito tempo, ainda restam reminiscências do intercâmbio cultural ocorrido em Naruto há mais de um século. Hoje, turistas podem comprar vasos de plantas e linguiças alemãs em uma estação à beira da estrada chamada “Casa da Nona Sinfonia”, construída com pedaços e materiais de um dos quartéis da prisão. Dioramas, fotos e vídeos da vida em Bando abarrotam a Casa Alemã de Naruto e uma estátua de Beethoven se ergue dramaticamente em frente a um bosque de cerejeiras em flor.

Uma paixão contínua pela música

Com o passar dos anos, o entusiasmo pela Nona Sinfonia se perpetuou. Yasu Tanano, estilista têxtil, recorda-se de ter aprendido a Nona Sinfonia no ensino médio na década de 1960. “Cantávamos ‘Ode à Alegria’ em japonês. A frase e os tons eram tão fáceis de aprender e lembrar. Costumava cantarolar Daiku quando era pequeno. Todo mundo da minha idade conhece e ainda lembra”, prosseguiu.

Ávido corista, Tanano sabia que queria participar do primeiro concerto de Ichiman-nin Daiku (Nona Sinfonia com 10 mil pessoas) em 1983, que celebrava a construção do Osaka-Jo Hall em Osaka. Para se preparar, Tanano e milhares de outros coristas ensaiaram durante meses, aprendendo a letra em alemão.

Coristas de todo o Japão participam de grandes apresentações de coral de “Ode à Alegria” de Beethoven durante as festas de fim de ano, incluindo esta em 2008, em Tóquio.

Foto de TORU YAMANAKA, AFP/Getty Images

No dia do concerto, havia mais artistas no auditório do que pessoas na plateia. Homens usando ternos ou smokings pretos e mulheres vestindo blusas brancas e saias longas pretas ocuparam quase três quartos dos assentos da sala de concertos, enquanto a orquestra ocupou o meio do palco. Apesar de Tanano já ter cantado “Ode à Alegria” em outros espetáculos, ficou perplexo ao cantar em um coral com 10 mil membros. “Foi extrema e inesperadamente alto”, conta Tanano. “Tenho certeza de que todos os coristas ficaram admirados. Foi uma experiência incrível — meu corpo tremia.”

Nos anos seguintes, milhares de amadores e profissionais de todo o Japão e de outros países passaram a se reunir anualmente no Osaka-Jo Hall para as festas de fim de ano. Shizuma Ueda, engenheiro de sistemas da cidade de Sakai, ficou fascinado após assistir a seu primeiro concerto de Ichiman-nin Daiku em 2005. “Vi os rostos dos artistas e sabia que também queria cantar no palco”, afirma Ueda. Desde então, cantou em 14 apresentações consecutivas.

Embora a Ichiman-nin Daiku em Osaka seja a maior das apresentações, a cada ano, cerca de 200 concertos menores são realizados em todo o Japão. Grupos de corais amadores locais de Hokkaido a Kyushu incentivam todos que queiram cantar — professores, funcionários de escritório, donas de casa, crianças — a participar. As lojas de instrumentos musicais vendem partituras de “Ode à Alegria” e os bares oferecem acompanhamentos de karaokê para a canção.

Para alguns japoneses, cantar “Ode à Alegria” é uma forma de conexão mais ampla com a humanidade. “Hoje em dia, existem muitos conflitos entre diferentes religiões ou diferentes grupos étnicos pelo mundo”, afirma Toshiaki Kamei, ex-prefeito de Naruto e diretor da Associação Japonesa de Sociedades de Corais de Daiku. “Acreditamos que cantar Daiku com pessoas de várias formações culturais nos ajuda a aprender a aceitar a diversidade e promover a paz mundial.”

No silêncio da noite

Embora as guerras mundiais, o fascismo e o comunismo não tenham silenciado a Nona Sinfonia, a atual pandemia representa um obstáculo ao canto de corais. Apresentar — ou estar na plateia ouvindo — a obra final do célebre compositor seria ainda mais importante em dezembro de 2020, aniversário de 250 anos de Beethoven. Haviam sido planejados inúmeros festivais, exposições e concertos em todo o mundo em comemoração à sua vida e obra.

A pandemia impediu qualquer celebração grande, e os corais, que espalham aerossóis com vírus, são especialmente perigosos. Então, no Japão, os fãs devotos de Beethoven tiveram que encontrar uma maneira de manter essa tradição de canto natalino sem pôr em risco a saúde pública.

Luzes de Natal enfileiradas em uma rua na direção da Torre de Tóquio. O Japão adotou muitos costumes de Natal ocidentais, como decorações e apresentações de corais.

Foto de wayfarerlife photography, Getty Images

“A pandemia é especialmente dolorosa àqueles que apreciam corais, que são uma conexão social única para eles”, afirma Jeffrey Bernstein.

Mas isso não impediu as tentativas de alguns. Em março, quando a maior parte da Europa estava sob isolamento estrito, músicos e cidadãos da Itália e da Alemanha podiam ser ouvidos cantando “Ode à Alegria” de suas varandas e quintais. Repetidas vezes, músicos da Orquestra Sinfônica do Colorado, da Orquestra Juvenil do Condado de Charles em Maryland e da Orquestra Filarmônica de Roterdã dos Países Baixos executaram “Ode à Alegria” virtualmente como uma espécie de música tema da pandemia.

No Japão, a Ichiman-nin Daiku, agora conhecida como Nona de Suntory com 10 mil, realizou uma versão reduzida de um “concerto milagroso” em 6 de dezembro com mil cantores e mil pessoas na plateia — com medidas de segurança, incluindo distanciamento social e protetores bucais de plástico. Estavam acompanhados por transmissões de vídeos de 9 mil outros participantes cantando em suas próprias casas.

Relutantes em deixar a crise global estragar o desfile em homenagem ao famoso compositor, os organizadores das comemorações do 250o aniversário de Beethoven prorrogaram as festividades para meados de setembro de 2021.

Por ora, mesmo sem uma celebração ampla, o espírito da Nona Sinfonia de Beethoven permanece vivo. “Essa obra teve origem nas mãos de Beethoven há algumas centenas de anos e literalmente tomou o mundo e comoveu inúmeras pessoas”, afirma Bernstein. “A mensagem é tão humanizada. A letra diz que algum dia todos os seres humanos se tratarão como irmãos, nos lembrando de que ser humano é mais do que apenas buscar o que se deseja. Ser humano é se conectar com os outros.”

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