Panorama

Bienvenidos a Brasil – A saga venezuelana em busca de uma vida melhor

As estradas em direção a Roraima são apenas a primeira etapa de uma árdua jornada para os imigrantes venezuelanos que procuram novas oportunidades fora de seu país. Terça-feira, 24 Abril

Por Gui Christ
Fotos de Gui Christ

Na rodoviária da pequena cidade de Pacaraima, no lado brasileiro da fronteira, a matriarca de um grupo que veio caminhando, por oito dias seguidos, desde a cidade venezuelana de Maturín, tenta descansar como pode. Ela precisa. Yollanda Jimenez, de 51 anos, tem ainda mais quatro dias de viagem a pé até Boa Vista, capital do estado de Roraima e a maior cidade brasileira próxima à Venezuela.

Todos estão exaustos, sujos, famintos. Eles se mobilizam para comprar algo para comer, mas, com a forte desvalorização do bolívar, a moeda venezuelana, o total que têm em mãos não chega a 20 reais – pouco para alimentar a todos. Eu me ofereço para pagar uma refeição decente e me sento perto deles para ouvir as suas histórias.

“Vivemos tempos difíceis. Um país tão bonito e cheio de petróleo como o nosso não deveria passar por isso”, diz Jimenez. Os problemas na Venezuela parecem intermináveis. Com divergências entre grupos políticos que dividiram a sociedade com ódio mortal, e a queda do preço internacional do petróleo, que movimentava 96% da economia nacional, veio uma superinflação de 2.600% ao ano. O desemprego e o sumiço de produtos básicos de consumo, além de medicamentos, fizeram com que o país entrasse em colapso.

Mesmo com uma eleição presidencial prevista para maio, muitos preferiram arriscar a vida nos países vizinhos. A Colômbia é o principal destino – já são mais de 1 milhão de imigrantes. No Brasil, conta-se oficialmente 50 mil venezuelanos, mas o número pode ser maior por causa de rotas clandestinas.

A imigração massiva afeta a rotina de Boa Vista, cidade de 320 mil habitantes que tem, hoje, pelo menos, 12% da sua população composta por imigrantes. Nas avenidas planejadas, homens seguram placas de papelão em que anunciam suas aptidões para conseguir trabalho. Nos semáforos, grupos de jovens falando em espanhol correm em direção aos carros para limpar seus vidros e ganhar alguns trocados.

A capital de Roraima não é um destino fortuito. A principal praça da cidade homenageia o herói nacional venezuelano, o general Simón Bolívar. Por estar no encontro das estradas que ligam a cidade aos países vizinhos, a praça tem um antigo portal com uma mensagem que saúda os vizinhos latinos, em letras já quase apagadas pelo tempo: “Bienvenidos a Boa Vista”.

Durante vários meses, imigrantes viveram acampados em barracas na praça – à época da minha visita, em março, eles estimavam ser mais de 2 mil (o acampamento foi desmontado no começo de abril). A crise atual afetou a boa vizinhança. Muitos venezuelanos reclamam de um movimento xenófobo que boicota chances de emprego. Há relatos de violência, e até uma casa que abrigava 31 venezuelanos foi incendiada, ferindo vários deles. A situação também é ruim no “Tancredão”, o ginásio que se tornou o maior abrigo da cidade. São cerca de mil pessoas em condições precárias; a sensação é de um ambiente extremamente insalubre e inseguro. No seu entorno, esgoto a céu aberto mistura-se a lama, com animais circulando e pessoas cozinhando. Para piorar, já foram confirmados 12 casos de menores infectados com sarampo – falta vacina na Venezuela. Com medo de uma epidemia, a Secretaria de Saúde de Roraima começou um programa de vacinação em massa.

Em melhores condições sanitárias, há um abrigo exclusivo das populações indígenas venezuelanas, uma parceria do estado, de instituições filantrópicas e do Acnur, a agência das Nações Unidas para imigrantes e refugiados.

Em busca de medicação, Donaldo Enrique Suaréz, de 50 anos, portador de HIV, viu no Brasil a única forma de conseguir o tratamento que necessita. Seu caso é emblemático em outro aspecto: Suaréz é formado em administração e possui alguns diplomas de pós-graduação em instituições internacionais, mas não encontra vaga em Boa Vista. Além dele, engenheiros, técnicos e professores não conseguem se alocar no mercado de trabalho da menor capital do país. E os empregos informais, que garantiriam o sustento de muitos, estão cada vez mais difíceis frente ao número crescente de pessoas que chegam diariamente à cidade.

A jornada dos venezuelanos por uma vida melhor parece longe de terminar – seja em seu país, seja no Brasil.

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