História

Como a ciência explica os segredos dos vícios

Drogas. Comida. Smartphone. Sexo. Como controlar as compulsões da vida moderna? A ciência tem a resposta. Quarta-feira, 8 Novembro

Por Fran Smith
Fotos de Max Aguilera-Hellweg

Esta reportagem está na edição de setembro dar revista National Geographic Brasil.

Quando a sua mãe falou de um médico que usava ondas eletromagnéticas para tratar a dependência de drogas, Patrick Perotti desdenhou. “Achei que era um charlatão”, diz Perotti, que tem 38 anos e vive em Gênova, na Itália. Já aos 17 anos, com dinheiro no bolso e muito festeiro, ele começou a cheirar cocaína. Aos poucos, o prazer virou um hábito cotidiano e, depois, uma compulsão incontrolável. Com o tempo, se apaixonou, virou pai e abriu um restaurante. Mas, por causa da dependência química, tanto a família como o negócio acabaram desmoronando.  

Passou três meses numa clínica para recuperação. Em vão: 36 horas após sair, teve uma recaída. Depois, foram mais oito meses seguindo outro programa de reabilitação. Ao voltar para casa, porém, cruzou com o seu fornecedor e não resistiu. “Daquela vez, mergulhei com tudo no pó”, conta ele. “Fiquei paranoico, obcecado, alucinado. Não tinha condição de parar com aquilo.”  

A mãe voltou a insistir para que ele visitasse o tal médico. Perotti cedeu e descobriu que teria de ficar sentado numa cadeira enquanto o doutor Luigi Gallimberti colocava um dispositivo no lado esquerdo da sua cabeça. Supostamente, seria o bastante para acabar com a vontade de cheirar cocaína. “Cheguei a um ponto em que ou me jogava de um penhasco ou continuava a ver o doutor Gallimberti”, lembra-se.  

O psiquiatra e toxicologista Luigi Gallimberti há 30 anos cuida de dependentes químicos na sua clínica em Pádua. Ao ficar sabendo dos dramáticos avanços científicos no tratamento da dependência – e, também, muito frustrado com as técnicas tradicionais –, ele decidiu experimentar uma nova técnica, a “estimulação magnética transcraniana” (TMS, na sigla em inglês). Existem medicamentos que ajudam as pessoas a deixar de beber ou fumar ou mesmo de usar heroína, mas as recaídas são comuns. Por outro lado, no caso de estimulantes como a cocaína, não temos nenhum remédio eficaz. “É muito, muito difícil tratar esses pacientes”, assume o médico.   

A cada ano, no mundo todo, mais de 200 mil pessoas morrem de overdose ou de enfermidades associadas ao consumo de drogas, segundo as Nações Unidas, além do contingente bem maior daqueles que morrem em decorrência do consumo de cigarros e bebidas alcoólicas. Mais de 1 bilhão de pessoas fumam, e o tabaco é um fator importante nas cinco principais causas de óbito: as moléstias cardíacas, os acidentes vasculares cerebrais, as infecções respiratórias, a doença pulmonar obstrutiva crônica e o câncer de pulmão. Quase 1 em cada 20 adultos no planeta é alcoólatra. E não temos ainda estimativa precisa da quantidade de gente que não consegue largar os jogos e outras atividades compulsivas que também estão começando a ser reconhecidas como casos de dependência psicológica.

Após décadas investigando em laboratórios o cérebro de animais que foram habituados a drogas, e escaneando o cérebro de voluntários humanos, os cientistas estão entendendo, de forma mais detalhada, o modo pelo qual a dependência desorganiza os circuitos e os processos subjacentes a desejo, formação de hábitos, prazer, aprendizado, controle emocional e conhecimento. O vício provoca centenas de alterações na anatomia do cérebro, no seu funcionamento químico, na sinalização de uma célula a outra, e até mesmo nas sinapses (as fendas entre os neurônios), que constituem a maquinaria molecular associada ao aprendizado. Ao se aproveitar da assombrosa plasticidade do cérebro, a dependência reorganiza os circuitos neurais de modo a atribuir um valor supremo à cocaína ou à heroína ou ao uísque, em detrimento de outros interesses como a saúde, o trabalho, a família ou a própria vida.

“Em certo sentido, a dependência é uma forma patológica de aprendizado”, diz o neurologista Antonello Bonci, do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (Nida, na sigla em inglês).  

Gallimberti ficou fascinado ao topar com um artigo de jornal que relatava os experimentos feitos por Bonci no Nida e na Universidade da Califórnia, em San Francisco. Medindo a atividade elétrica em neurônios de ratos habituados ao uso de cocaína, os pesquisadores constataram que uma área do cérebro associada à inibição de comportamentos estava quieta de forma anormal. Graças ao uso de equipamentos optogenéticos, que combinam fibras ópticas, genética e bioengenharia para manipular o cérebro de cobaias com rapidez e precisão, essas células encefálicas adormecidas foram reativadas nos ratos. “O que se viu foi que os animais perdiam o interesse pela cocaína”, conta Bonci. O experimento sugeria que a estimulação dessa área do cérebro vinculada ao controle comportamental, situada no córtex prefrontal, poderia eliminar a vontade desenfreada de obter o efeito da droga.

Gallimberti teve então um estalo: e se a técnica de TMS lhe permitisse alcançar, na prática, esses mesmos resultados? No cérebro, são os impulsos elétricos que circulam pelos neurônios que possibilitam os pensamentos e os movimentos. A estimulação encefálica, há anos usada no tratamento da depressão e das enxaquecas, atua nesses circuitos. O dispositivo de TMS nada mais é que uma bobina no interior de um bastão. Quando uma corrente elétrica atravessa a bobina, o bastão gera um pulso magnético que altera a atividade elétrica do cérebro. Gallimberti queria usar pulsos repetidos a fim de reativar os circuitos neurais danificados pela drogas – algo parecido como reiniciar um computador que travou.

Confira a reportagem completa: O cérebro viciado na edição de setembro de 2017 da revista National Geographic Brasil.
Publicada por ContentStuff.

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