Esse esqueleto medieval de 500 anos foi encontrado com as botas calçadas nos pés

Ossos de um homem descobertos ao lado do Rio Tâmisa, em Londres, revelam sinais de uma vida difícil e uma morte misteriosa.

Publicado 11 de dez de 2018 20:45 BRST, Atualizado 5 de nov de 2020 04:22 BRST
Arqueólogos em Londres estudam o esqueleto de um homem adulto de cerca de 30 anos de ...
Arqueólogos em Londres estudam o esqueleto de um homem adulto de cerca de 30 anos de idade. Seus restos mortais permaneceram intocados por mais de 500 anos.
Foto de Courtesy of MOLA Headland Infrastructure

Arqueólogos que realizavam escavações em um local próximo ao Túnel de Escoamento do Tâmisa—um enorme túnel apelidado de "bueiro gigante" de Londres—descobriram o esqueleto de um homem medieval que morreu com as botas nos pés.

"É extremamente raro encontrar botas do final do século 15, quem diria um esqueleto com elas ainda nos pés", diz Beth Richardson do Museu de Arqueologia de Londres (MOLA). "E essas botas são bastante incomuns para a época—botas que vão até a coxa, com a parte de cima virada para baixo. Elas teriam sido caras e como esse homem teve acesso a elas é um mistério. Seriam botas de segunda mão? Ele as teria roubado? Não sabemos".

Desenterrar esqueletos durante grandes projetos de construção não é incomum em Londres, onde, ao longo dos séculos, a terra foi reutilizada incontáveis vezes e muitos cemitérios foram soterrados e esquecidos. Porém, arqueólogos notaram logo de cara que esse esqueleto era diferente.

Arqueólogos e especialistas do Museu de Arqueologia de Londres recuperam um esqueleto de 500 anos durante escavações realizadas para o Túnel de Escoamento do Tâmisa.
Foto de Courtesy of MOLA Headland Infrastructure

A posição do corpo—rosto virado para baixo, braço direito sobre a cabeça, braço esquerda dobrado para trás—sugere que o homem não foi enterrado deliberadamente. Também é improvável que ele tenha deitado para descansar com botas de couro, que eram caras e altamente valorizadas.

Com base nessas pistas, arqueólogos acreditam que o homem tenha morrido acidentalmente e seu corpo nunca tenha sido encontrado, embora a causa da morte seja incerta. Talvez ele tenha caído no rio e não sabia nadar. Ou possivelmente tenha ficado preso na lama e se afogado.

Marinheiro, pescador ou "aventureiro na lama"?

Há quinhentos anos, essa parte do Tâmisa—cerca de três quilômetros abaixo da Torre de Londres—era um movimentado bairro marítimo com cais e armazéns, oficinas e tavernas. O rio era acompanhado pelo Muro de Bermondsey, uma fortificação medieval de cerca de quatro metros de altura construída para proteger da maré alta os estabelecimentos localizados à margem.

Considerando o bairro, o homem de botas pode ter sido um marinheiro ou pescador, hipótese reforçada pelas pistas de seu aspecto físico. Sulcos bem demarcados em seus dentes podem ter sido causados pelo movimento repetitivo de segurar cordas com a boca. Ou talvez ele tenha sido um "aventureiro da lama", termo utilizado para designar aqueles vasculhavam as margens lodosas do Tâmisa quando a maré estava baixa. As botas compridas que o homem usava seriam ideais para esse tipo de atividade.

Especialistas dataram as botas de couro usadas pelo homem como sendo do fim do século 15 ou início do século 16.
Foto de Courtesy of MOLA Headland Infrastructure

"Sabemos que ele tinha uma estrutura corporal muito robusta", diz Niamh Carty, osteologista ou especialista em esqueletos, do MOLA. "As fixações musculares em seu tórax e ombros são bastante notáveis. Os músculos foram exercitados com trabalho pesado e repetitivo, realizado durante um longo período de tempo".

E o trabalho pesado prejudicou sua saúde física. Embora ele tivesse apenas cerca de 30 anos de idade, o homem de botas sofria de osteoartrite e as vértebras de sua coluna já haviam começado a se fundir devido ao acúmulo, durante anos, de movimentos que o obrigavam a se curvar e levantar peso. Lesões no seu quadril esquerdo sugerem que ele caminhava mancando e seu nariz já tinha sido quebrado pelo menos uma vez. Há evidências de contusão na testa, que foi curada antes de sua morte.

“Ele não teve uma vida fácil” diz Carty. “Naquela época, trinta anos correspondia a uma pessoa de meia idade. Mas, mesmo assim, sua idade biológica era maior”.

A investigação continua. Uma análise de isótopos irá esclarecer onde o homem cresceu, se era um imigrante ou nativo de Londres, e que tipo de dieta ele seguia.

“A família dele nunca obteve respostas e nunca pôde enterrá-lo”, diz Carty. “O que estamos fazendo é um ato de rememoração. Estamos permitindo que sua história seja finalmente contada”.

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