História

Arqueologia revela instalações nucleares da Guerra Fria na Polônia

Os locais clandestinos já abrigaram centenas de ogivas nucleares — um segredo letal ocultado da população do país. Terça-feira, 5 Fevereiro

Por Erin Blakemore

SE VOCÊ SE EMBRENHAR O BASTANTE pelas florestas da Polônia, poderá se deparar com as reminiscências de uma base nuclear soviética. Esfacelada por moradores em busca de sucata e aos poucos tomada por árvores, seus túneis vazios e instalações desmoronadas são tudo o que resta de um plano da Guerra Fria para expandir o arsenal nuclear do Bloco Socialista.

Mas os livros de história não mencionam muito lugares secretos, se é que mencionam alguma coisa, o que inspirou o arqueólogo Grzegorz Kiarszys a saber mais sobre seu misterioso passado. Suas descobertas — e uma defesa fervorosa do valor da arqueologia no estudo da Guerra Fria—foram publicadas no periódico Antiquity.

Kiarszys fez uso da arqueologia para estudar alguns locais em Podborsko, Brzezńica-Kolonia e Templewo, todos os quais possuíam instalações militares soviéticas que guardavam um perigoso segredo.

No final da década de 1960, a URSS se deu conta de que não conseguiria levar armas nucleares à Polônia rápido o bastante caso a Otan atacasse. Então criou um plano para abrigar ogivas nucleares em todos os seus estados-satélites, incluindo a Polônia.

Embora a Polônia tenha pagado pela construção dos locais de armazenamento, sua população não fazia ideia de que o país possuía centenas de ogivas. A URSS controlava as armas, e os membros do exército soviético trabalhavam nos postos avançados.

Kiarsys fez uso de fotografias aéreas, varreduras por laser, levantamentos de campo, documentos e imagens de satélite que deixaram de ser secretos, como os relatórios da CIA que tiveram o sigilo quebrado para descobrir a história do projeto supersecreto com o codinome de “Vistula”. Ele mapeou os locais, registrando resquícios físicos semelhantes a rotas criadas por soldados em patrulha e inscrições que eles deixaram gravadas em árvores. E ele descobriu facetas da história das bases que não constam em nenhum documento oficial, como indícios de que mulheres e crianças viviam ali.

“Nunca se coloca uma arma de destruição em massa nas mãos de pessoas instáveis ou solitárias", afirma Kiarsys. “Os generais sabiam que era necessária a ilusão de uma vida cotidiana nessas instalações”. Era como uma apólice de seguro para eles, explica. Ele encontrou brinquedos de plástico nas áreas de descarte de lixo das bases e utilizou as fotografias publicadas por ex-soldados russos em mídias sociais para confirmar a existência de mulheres e crianças nas bases. “O mais importante desse lugar eram as mulheres e crianças”. O trabalho de Kiarsys as insere nos registros históricos.

Esses registros ainda não estão claros. Os arquivos russos foram encerrados, então documentos sobre o programa desapareceram por completo depois de serem entregues à URSS no fim de 1969. A população polonesa só tomou conhecimento de que seu país tinha abrigado armas nucleares em 1991, após a retirada da União Soviética. “Foi um choque”, conta Kiarsys. “Os governos soviético e polonês nos asseguraram de que nunca houve uma arma nuclear sequer em território polonês”.

Depois que os poloneses souberam das bases, eles deixaram suas marcas: primeiramente, vasculharam a região durante a crise econômica que veio com o fim da Guerra Fria e agora como visitantes que deixam inscrições nos muros e nas árvores ao redor. Desde que sua existência foi revelada, os locais se tornaram assunto de incontáveis lendas urbanas e teorias da conspiração.

Para Kiarsys, a arqueologia oferece a chance de contestar esses mitos e completar — talvez até reescrever — a história da Guerra Fria. "Foi um conflito que mudou a cara do mundo”, afirma. “É possível utilizar métodos arqueológicos para estudar épocas antigas, mas também podemos utilizá-los para estudar conflitos modernos.”

“Agora é a vez da arqueologia utilizar resquícios físicos da Guerra Fria para fazer descobertas não registradas nos documentos oficiais ou esquecidas desde então”, conta Todd Hanson, autor de The Archaeology of the Cold War (“A Arqueologia da Guerra Fria”, em tradução livre), que não participou do estudo atual. Corrigir registros não é o único motivo para se voltar aos conflitos do passado recente. “Perdemos nosso passado tão rapidamente”, afirma. Conforme a Guerra Fria fica apenas na memória, seus resquícios físicos desaparecem aos poucos. Contudo, se depender de Kiarsys e de outros arqueólogos, ela nunca será esquecida.